O Estado quer ter velhos?

Em Portugal é tudo para se ir fazendo, e devagarinho, de preferência. Reagindo. Perder a rede familiar numa fase de vulnerabilidade e fragilidade, é terrível. É ficar sem chão, sem referências, só memórias. É perder parte da vida e da esperança. Sair de casa, deixar os móveis, perder os cheiros, é morrer.

Tópico(s) Artigo

  • 16:16 | Segunda-feira, 04 de Maio de 2026
  • Ler em 2 minutos

Um semanário destacava na 1.ª página:
Um milhão de portugueses não terá rede familiar na velhice. Metade das pessoas entre 35 e 40 anos só terá um familiar para as apoiar aos 75 anos. Directora da Pordata alerta: “Se não têm filhos, comecem a poupar.

É complicado. Que país estamos a construir, cada um individualmente, e o Estado, enquanto vértice da pirâmide da organização social?

Por razões, que são várias e não importa escalpelizar, as famílias são cada vez mais pequenas, filhos únicos, dois já é esticar o orçamento, casas com um rancho de filhos acabaram. E é absolutamente natural que por razões assentes na nova estrutura familiar, que mudou radicalmente, e pelo aumento da longevidade, a questão séria de quem cuidar dos novos mais velhos se vai colocar. E pelos números anunciados talvez seja um problema nacional que caberá ao Estado pensar e resolver, e não a cada um, remendando.


Mas estará capaz?

Em Portugal é tudo para se ir fazendo, e devagarinho, de preferência. Reagindo. Perder a rede familiar numa fase de vulnerabilidade e fragilidade, é terrível. É ficar sem chão, sem referências, só memórias. É perder parte da vida e da esperança. Sair de casa, deixar os móveis, perder os cheiros, é morrer.

Já pensou o Estado como potenciar a rede de apoio à velhice, acrescentando-lhe qualidade nos cuidados? Alargá-la, melhorá-la. Como apoiar mais e melhor as instituições que chamam a si esse encargo? Como as fiscalizar? Como formar profissionais com as competências básicas para lidar melhor com pessoas numa idade especial? Como as fazer sentir socialmente úteis? Como os fazer sentir integradas? Como fazê-las sentir que não são um estorvo, um empecilho, um número?

Estamos a falar de muita gente que vai aumentar, e que já hoje há listas de espera em muitas instituições.

Não é com legislação como o Estatuto do Idoso que se avança verdadeira e seriamente.

Saberá o Estado que o acolhimento numa estrutura de média qualidade anda pelos 1.000€? Saberá o Estado que grande parte das famílias não tem condições para o assumir? Saberá o Estado que o apoio que transfere para as entidades cuidadoras não corresponde minimamente aos gastos com a prestação de um serviço de dignidade? Saberá o Estado que transferir para as dinâmicas locais a resolução dos problemas remanescentes não é justo? A este tempo de distância, estará já o Estado a trabalhar num plano que, prevenindo-os, evite os problemas sociais que já se anunciam? Na criação de uma rede nacional de apoio e acolhimento?

Torço para que sim, para que o Estado inverta o ciclo de paralisia que é a nossa desgraça. Mesmo não tendo muitas e bastas razões para isso, não faz mal acreditar. Apesar de saber que planear com cabeça e jeito só após Alcácer-Quibir e até ao exílio de D. João VI, incapaz de repelir as constantes ingerências de Espanha, França e Inglaterra nos negócios do reino, e suster as cabriolices de D. Carlota Joaquina. De então para cá, tem sido um fartote de improvisos e esporrências.

 

Rebelo Marinho

Gosto do artigo
Palavras-chave
Publicado por
Publicado em Opinião
3