Estudo da Escola de Enfermagem da Universidade de Coimbra revela perceções de um reconhecimento social “abaixo do que deveria ser”. Investigadores sustentam que é preciso comunicar melhor a profissão e os múltiplos papéis que os enfermeiros desempenham
Segundo os resultados deste estudo exploratório, conduzido em Portugal por uma equipa de investigadores da Escola Superior de Enfermagem da Universidade de Coimbra (ESEUC), e que foram parcialmente divulgados na revista científica Sociologia, Problemas e Práticas, os enfermeiros portugueses não são considerados “submissos” nem “autónomos”, nem “seguidores” ou “líderes”, ficando a meio caminho nestes descritores opostos.
Por outro lado, se a maioria dos respondentes (84,5%) concorda/está totalmente de acordo com a ideia de que «a profissionalização da Enfermagem está a aumentar», fruto de um «desenvolvimento cada vez maior dos seus conhecimentos e competências», já não concorda, ou não concorda nada, com a opinião de que enfermeiros e enfermeiras podem tomar decisões autonomamente (61,5%).
Estando algo divididos quanto à “alta atratividade da profissão” (58,5% concordam ou estão totalmente de acordo com esta asserção), os portugueses participantes do estudo responderam, maioritariamente (65,9%), que encorajariam os filhos a estudar Enfermagem.
Quando em comparação com outras profissões, numa classificação segundo o prestígio socioeconómico (numa escala de 1 a 10 pontos), a amostra deste estudo descritivo e transversal coloca os enfermeiros (7,5) quase ao mesmo nível que os advogados (7,8), os engenheiros (7,7) e os professores (7,3).
Relativamente ao conhecimento de conteúdo funcional dos enfermeiros, pouco mais de metade dos inquiridos consideram que são atividades da sua total responsabilidade a colocação de perfusões endovenosas (“soros”), sondas vesicais (“algálias”) ou sondas gástricas.
Consideram ainda que, em parte, são atividades da responsabilidade dos enfermeiros, os cuidados de saúde preventivos (58,8%), os cuidados de higiene (51,4 %), o desenvolvimento de atividades de pesquisa/investigação (52,4%) e o reconhecimento de complicações do tratamento (50,0%).
Inversamente, os participantes neste estudo entendem que não faz parte das funções dos enfermeiros a prescrição de medicamentos (na perceção de 71,6%) e a decisão sobre a continuação/suspensão de medicamentos (opinião de 57,1%).
Medida numa escala de “abaixo do que deveria ser”, “aceitável”, “bom” e “acima do que deveria ser”, a forma como a profissão de Enfermagem é valorizada em termos de reconhecimento social está, para a maioria (72,6%), “abaixo do que deveria ser”.
«Uma visão anacrónica da profissão»
Para os autores do estudo (professores Luís Batalha, Isabel Fernandes e Paulo Alexandre Ferreira e investigador José Miguel Seguro), estes «resultados», cuja estabilidade será analisada até 2031, «refletem uma realidade paradoxal».
Embora os enfermeiros sejam «amplamente reconhecidos pela sua empatia, profissionalismo e dedicação, sendo frequentemente descritos como cuidadosos, atenciosos e empáticos», essa «imagem positiva» não tem correspondência «proporcional no reconhecimento social e na valorização da profissão», sublinha a equipa de investigadores liderada por Luís Batalha.
Também «a baixa percentagem dos que consideram que os/as enfermeiros/as têm um raciocínio clínico autónomo e que têm capacidade investigativa, evidenciada nas respostas dos participantes, traduz», para os autores da ESEUC, «uma visão anacrónica da profissão, ainda associada ao cumprimento de tarefas e não à tomada de decisão clínica fundamentada».
O autores do estudo concluem, no artigo, que «o desfasamento entre as perceções pública, social e funcional da Enfermagem, e o contexto académico, científico e profissional atual orientam para o reforço na implementação de medidas efetivas de comunicação/divulgação sobre a profissão, os seus valores e os múltiplos papéis que os enfermeiros desempenham na prática clínica, na educação, na administração, na investigação, nas políticas e em iniciativas de saúde pública de âmbito nacional ou internacional».
Embora os resultados desta investigação, inserida no projeto estruturante da Unidade de Investigação em Ciências da Saúde: Enfermagem, “Reconhecimento social e profissional dos enfermeiros (ReSoPrE)”, apresentem «constrangimentos impostos por uma amostragem não probabilística», os autores consideram que «fornecem informações importantes sobre a Enfermagem nas perceções do público», as quais «orientam para a pertinência da investigação longitudinal, permitindo conhecer a evolução destas perceções e dos fatores que podem estar na sua génese».
O estudo “(Re)Conhecimento Social dos Enfermeiros – Perceções na sociedade portuguesa” enquadra-se no projeto internacional “EQUANU – Equality in social and professional recognition of nurses”, liderado pela Universidade de Antuérpia (Bélgica) e realizado pelo grupo Nurse and Pharmaceutical Care.
Além das instituições de ensino superior belga e portuguesa, participam neste projeto, para investigar a evolução da imagem social dos enfermeiros na Europa, estabelecimentos da Alemanha, Eslovénia, Espanha, Grécia, Itália, Noruega, Países Baixos e República Checa.