Síndrome do ninho vazio

Recordei as emissões da rádio pirata e das nossas manobras para não sermos apanhados pelo carro das antenas que a todo o custo nos tentavam localizar.

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  • 10:57 | Quinta-feira, 30 de Abril de 2026
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Aquele foi um momento único na minha vida!

Voltei de Coimbra, onde tinha deixado a minha filha mais nova, para aí iniciar a sua vida universitária. Durante a viagem relembrei todos os momentos que marcaram a minha passagem por esta cidade, pela minha cidade!

Recordei as longas filas para a matrícula na secretaria-geral, a procura de quarto, sempre acompanhada pelos meus pais, os primeiros amigos, as primeiras saídas, os primeiros amores na cidade de Pedro e Inês e os primeiros desamores.


Recordei os bons e os maus professores, os funcionários dos laboratórios, na maioria com apenas a 4ª classe e que conheciam todas as rochas e minerais, todas as preparações de tecidos, todas as plantas por mais minúscula e raras que fossem, todos os animais e fósseis. Como os admirava e respeitava!

Recordei colegas que continuam na minha vida e lamentei a separação e perda de outros!

Recordei os filmes do Alemão  Fassbinder e do Sueco Ingmar Bergman, sempre acompanhados por grandes tertúlias no Teatro Académico, no Café Moçambique ou nas tasquinhas da rua da Matemática.

Recordei as emissões da rádio pirata e das nossas manobras para não sermos apanhados pelo carro das antenas que a todo o custo nos tentavam localizar.

Recordei as atividades da Associação Académica, o nascimento do Jornal a Cábula e a entrevista feita ao Zeca Afonso pouco tempo antes de morrer.

Recordei o dia em que as minhas filhas nasceram nesta cidade, a quem acabei de entregar e devolver  a minha pequenita. Como se falasse com uma amiga pedi-lhe que a tratasse bem, pelo menos tão bem como me tratou a mim e aos meus que por lá passaram e que lá ficaram.

Recordei e de tanto recordar por horas esqueci a dor da separação…

Quando cheguei a casa, percorri-a em silêncio, consciente que os filhos como diz Saramago não nos pertencem, e que quando chega o momento de abandonarem o ninho, apenas temos que lhes dar asas para voar e assegurar-lhes que mesmo que as coisas não corram tão bem como desejaram e sonharam existe um lugar onde serão sempre acolhidos, apoiados e acarinhados. Esse lugar é o ninho que agora tiveram que deixar.

Os dias vão passando, elas lá e eu cá!   Faz-me falta a desarrumação, a roupa espalhada na cama, as almofadas no chão, os livros espalhados na  sala nas alturas de estudo mais intenso. Faz-me falta desarrumar sacos de desporto, apressar a saída de manhã para que chegassem a horas. Faz-me falta a luta pelo comando da televisão, faz-me falta a discussão sobre temas onde o que contava era o respeito pela opinião do outro.

Faz-me falta a presença, o estar só por estar…

Hoje, as palavras de José Luís Peixoto ecoam no meu coração  e sei que as minhas filhas também as sentem: “Eu tenho um lugar. Por isso, nunca me perco no mundo imenso.”

Elas sabem que esse lugar é aqui na Nave.

 

Ondina Freixo

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