Há domingos

A educação não está na idade, está no berço.

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  • 13:12 | Segunda-feira, 16 de Março de 2026
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Há domingos, que por não me apetecer ir longe, fico por perto. Ou em casa, ou fazer o passeio dos trsistes infelizes. Ir ao shopping almoçar, fugir das montras para evitar gastar dinheiro. O dinheiro está mesmo muito caro.Ir ao centro comercial e observar as pessoas, traz vantagens. Um pouco como ir à Feira da Ladra. Gosto de as ver, os gostos, os modos, o ar contrafeito dos maridos, os netos ao colo dos avós, a “perseguição” dos jovens às meninas domingueiras, a conversa de ocasião, as famílias que se juntam à roda para tomarem chá e café. Eles numa ideia, elas noutros interesses.

Desta vez, depois de cada um escolher o que melhor nos assentava no estômago, sentámo-nos no conjunto de duas mesas e três cadeiras. Para os dois, dava. Iniciada a refeição, chega-se uma senhora de idade, uma mão apoiada na bengala e a outra na empada com azeitona preta, com um rabo do tamanho de uma regueifa de Santa Maria da Feira, e sem mais arrasta a cadeira, como se estivesse na sua casa e o mundo fosse dela. Nem uma palavra, uma delicadeza. Fiquei estupefacto, no momento não reagi. Deixei-a ser abusadora, dei-lhe um tempo, segui-a, guardei a margem de segurança, e quando se aprontava para arrumar os pertences sobre a mesa, retirei-lhe o assento e voltei a pô-lo no devido lugar, o meu.

A senhora gesticou, barafustou, espumou. Perguntou se eu precisava da cadeira, “que  não“, respondi. Então? “que peça“. Não pediu.

Ouvi da mulher, que sou implicativo, que a senhora era de idade, que tínhamos de ter ouvidos moucos. Não tive.


Estava no meu gelado possível que ao fim de semana, podendo, não dispenso, um cone de três saberes da Häagen-Dazs é insubstituível, muito melhor do que os “Santini”, ali quem sobe a Rua Garrett, em Lisboa, quando um jovem casalinho, namoro de três semanas, se aproximou e perguntou se a cadeira era necessária, se a podiam levar. “que sim“, não faziam falta, éramos só dois. Agradeceram e sorriram. Beijaram-se. Mudei um pouco a ideia de que a juventude é toda destravada, não tem respeito, nem jeitos, nem maneiras, que é tudo bué, meu.

E recuei no tempo em que na minha escola tinha a estranha mania de dar primazia às colegas na entrada e de lhes segurar a porta, até que passassem. Até que um dia uma sirigaita intrometida teve o desplante de entrar com ar de parva, sem ter o modo de agradecer. Mal educada. Mudei. Até lhe fazia esperas. Assim que a via aproximar-se, ganhava dianteira, abria a porta e fechava-a de propósito, quase a atingindo na cara. Reagiu. “Que era assim”, respondi, acompanhando a burrice.

A educação não está na idade, está no berço.

O comportamento e a postura das pessoas dizem-nos, por vezes, muito mais do que os seus estudos e o seu passado. A família conta muito e é decisiva. E mesmo essa está cada vez pior. Com a falta de bules, já bebe menos chá. Que nos guarde, que os homens já nos perderam a conta.

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