Os influencers

O que é um influencer? Quem, sem outra ocupação relevante, opta por dar uns conselhos excludentes, opiniões disruptivas, que aprendeu em cursos on-line, sem monitorização exigida. Gente que corre por conta dela, diz umas baboseiras e, no esplendor do desconhecimento, ganha fama de importante.

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  • 16:52 | Segunda-feira, 09 de Março de 2026
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Os jornais noticiaram que nos últimos dois anos escolas portuguesas receberam 80 influencers misóginos e pornógrafos. Coisa fina e moderna.

A convite de listas candidatas a associações de estudantes ou por qualquer outro irrelevante motivo esta gente passeia-se por aí, entra, devidamente autorizada, em espaços educativos, e vomita os seus conceitos, fazendo tábua rasa dos existentes, como se o cosmos existisse a partir de agora e os terrestres fossem uns alienígenas parvos e ignorantes.

Normalmente, promovem a desgraça e fazem miséria. Impunemente, fazem negócio com a sexualização das crianças. Fazem-lhes a cabeça. Imbecilizam-nos. Muitos deles são absolutamente incapazes de ter um discurso com ideias, bem construído. Muitos deles são zero na cultura e na capacidade comunicativa. Dói. Permitir isto, é devaneio, desleixo, disparate, inconsciência social.

Alguns exibem o corpo musculado e as crianças e os jovens e algumas professoras mais excitadas, juntos na epítome da inocência, aplaudem de olhos arregalados.


O que é um influencer? Quem, sem outra ocupação relevante, opta por dar uns conselhos excludentes, opiniões disruptivas, que aprendeu em cursos on-line, sem monitorização exigida. Gente que corre por conta dela, diz umas baboseiras e, no esplendor do desconhecimento, ganha fama de importante.

Passado o espectáculo, ficam as perguntas: como é possível que as escolas abram portas a estas manifestações medíocres, a esta exploração nefasta da curiosidade juvenil? Por onde anda, e com que se entretém, a disciplina de Cidadania? De que falam de positivo os programas? E a ética, já não falo da republicana, austera e severa, mas da outra, a comum, de todos os dias, que está em todas as esquinas, escrutinadora e vigilante? Cáustica. Por onde passam as direcções das escolas, com estudos especializados, perante estes disparates que distorcem cidadãos em crescimento? Em gabinetes? Certamente, em viagens, no Erasmus, em encontros europeus, em intercâmbios, capturados por estatísticas e resultados, pedinchando prémios e distinções. “Show-off”.

Que direcções são estas, indignas do nome, que carecem de ordens do ministério para fazerem o óbvio e o que o bom senso determina e impõe? Não são precisos estudos para separar o trigo do jóio.

E os pais, as famílias? Desinteressados? Desinformados? Anestesiados? É aqui que bate o problema. No fundo da questão. O que estamos a permitir em casa que as crianças façam nas escolas? Que valores lhes estamos a transmitir? Que regras? Que prioridades? Que futuro? Os telemóveis topo de gama? As roupas de marca? As actividades extracurriculares, sem tempo para a família? Os grupos pela ascendência familiar? Os clubes dos filhos dos licenciados? As “raves” dos ricos?

O que faz a escola? Trabalha conteúdos e resultados? Forma cidadãos? Ufana-se com as entradas em Medicina, como se tivesse ido à Lua, gaia com o elevador social, esquece-se do melindre da exclusão, da indiferença perante a pobreza, da menorização dos humildes.

Escolas e famílias focam-se no imediato, no sucesso material, nas carreiras sólidas. Talvez guiadas por critérios invertidos.

Deste veneno, provarão os nossos netos. Ao permitirmos este descaminho, somos cúmplices da hecatombe, por mais terços que rezemos e salmos que cantemos.

A escola e a família deviam ser repensadas. E reconstruídas. Andamos todos, uns mais, outros menos, a fazer de conta, a meter a cabeça na areia.

Deixemo-nos de letras: estamos a construir uma sociedade da treta

 

Rebelo Marinho

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