“Nomear mal as coisas é aumentar a desgraça do mundo”. – Albert Camus (1913-1960)
Sigamos o filósofo franco-argelino e chamemos os bois pelos nomes. Seguro é inseguro. Viabilizou o Orçamento do governo Passos-Portas, mais troikista do que a Troika. Seguro elogiou, tal como Ventura, Corina Machado, a venezuelana que pediu a Trump (a quem viria a oferecer o Nobel da Paz) para invadir o seu país, mas nem o plutocrata neofascista confiou em tanta sabujice. Seguro é tão socialista como era Sá Carneiro quando pediu a adesão à Internacional Socialista onde Soares não cedeu espaço. Bem pode Ventura agitar o fantasma do socialismo, porque nem Seguro é socialista, nem o PS é socialista (a chave da gaveta onde Soares o meteu foi com ele para a cova). Se o PS fosse socialista teria revogado as leis laborais da Troika. Quando muito será social-liberal. Mas o mais importante é que Seguro dá garantias de não ser mais um avençado e de cumprir os serviços mínimos desta democracia. Por isso, para além do apoio táctico dos partidos de esquerda, até já surgiu um “Manifesto de não-socialistas por Seguro”, subscrito por 250 personalidades da direita.
Ventura diz que “Portugal precisa de 3 salazares” e, de facto, vai mais longe do que o ditador ao querer acabar com o cargo de primeiro-ministro. Não seria presidencialismo, mas nova ditadura. Fala no combate à corrupção e aos tachos, mas, na Câmara de Lisboa, a namorada do vereador Bruno Mascarenhas, do Chega (CH), foi nomeada para vogal do Conselho de Administração dos Serviços Sociais. A número dois da lista do CH, despeitada, passou a vereadora independente. E na Câmara de Albufeira, o autarca do CH nomeou a própria irmã para adjunta no gabinete de apoio à vereação e mais dois elementos da sua lista para chefes de divisão.
P’ra mentira ser segura
e atingir profundidade,
tem que trazer à mistura
qualquer coisa de verdade.
António Aleixo, poeta “popular” (1899-1949)
Claro que Ventura, como bom populista, no meio de muitas mentiras diz algumas, poucas, verdades, como os problemas na Saúde, mas a sua solução é abrir ainda mais aos privados, quando 40% do orçamento da Saúde já vai para eles, que, ainda por cima, têm captado muitos profissionais do SNS. O CH já teve no seu programa a extinção do SNS e do Ministério da Saúde (bem como o da Educação).
Ventura diz que quer reformar a Justiça, mas já teve 15 deputados e dirigentes do CH com problemas com a Justiça e o Fisco (incluindo roubos, fuga ao fisco, agressões a mulheres, prostituição de menores e pedofilia).
Ventura fala contra “as elites”, arvorando-se na voz do povo, mas na verdade o CH é financiado por membros das famílias mais ricas do país, detentoras de grandes grupos empresariais, como os Champalimaud e os Mello. Por isso, não critica os mais ricos e poderosos “do sistema” (capitalista). Só dá “um murro na mesa” dos mais pobres e discriminados: os portugueses ciganos e os imigrantes.
Os ciganos, vítimas de mais de cinco séculos de perseguições, banimentos e privação de direitos de cidadania (só conseguidos com o 25 de Abril), mas ainda sofrendo discriminações e racismo, apesar do esforço de qualificação escolar e universitária das novas gerações. E os imigrantes, sem os quais nenhum sector da economia funcionaria. Ambos, há séculos que formam e enriquecem a nossa identidade nacional multi-étnica, multi-religiosa e multicultural.
Ventura diz que “Os imigrantes não podem viver de subsídios”, quando os imigrantes é que estão a dar sustentabilidade à Segurança Social com mais de 4 mil milhões de euros de contribuições, em 2025, cinco vezes mais do que recebem. Todas as confederações patronais exigem a entrada de mais 100 mil novos imigrantes. A Associação Nacional do Turismo pede a reintrodução da “manifestação de interesse” porque, com a nova lei, não conseguem contratar nenhum imigrante. A lei, ao sabor do CH, abre a porta a abusos de patrões sem escrúpulos e à “nova escravatura”. Não é por acaso que o governo espanhol acaba de regularizar 500 mil imigrantes que se encontravam indocumentados.
Ventura fala dos valores judaico-cristãos, mas chamou “anti-Cristo” ao Papa Francisco que defendia os imigrantes e denunciava os males do sistema capitalista. André é um mentiroso compulsivo, como provou o líder parlamentar do PS, ao enviar-lhe um dossier com mais de 100 “mentiras, imprecisões e manipulações” de Ventura e outros deputados do CH, verificadas por “fact checkers” (Polígrafo e outros). O CH é campeão das mentiras e notícias falsas, chegando a usar ilegalmente logótipos do Expresso, do Público e da Rádio Renascença para as publicar nas redes sociais.
Ventura quer o fim das pensões vitalícias dos políticos, mas elas já foram extintas em 2005, na sequência do projecto de lei do BE, a que se veio a juntar o PCP e o governo de Sócrates. Chumbadas as duas propostas da esquerda pelo PSD e PS, com abstenção do CDS, seria a proposta do governo aprovada por todos os partidos, excepto o CDS que se absteve, com um regime transitório que protege os direitos adquiridos dos ex-titulares de cargos políticos e juízes do Tribunal Constitucional que até àquela data podiam beneficiar deste regime, dos quais, hoje, já restam poucos e sujeitos a regras de condição de recursos (rendimentos inferiores a 2.000 euros).
Um PR trafulha?… Vamos DESVENTRAFULHAR PORTUGAL, PELO SEGURO!

Carlos Vieira