Como a Kristin mostrou as fragilidades da política energética

Um país com juízo devia estar a promover um mix energético que se baseasse em 2/3 de eletricidade e 1/3 de gases vários, mas não. Estamos a caminhar para o suicídio como se tem visto por estes dias, os planos de ação para o biometano e hidrogénio não passam de exíguos incrementos.

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  • 13:24 | Quinta-feira, 05 de Fevereiro de 2026
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A distribuição de energia é condição central na segurança de pessoas e bens. Este princípio não é, há muito, assumido pelos decisores públicos do setor do ambiente, com exceção de um curto período entre 2022 e 2024.

As alterações climáticas são uma evidência científica. São na Europa, na Ásia e nas Américas, mas a União Europeia transformou essa evidência em obsessão para, só por si, salvar o planeta. Não serão os europeus sozinhos a fazer-lhe frente, mas serão os mais penalizados se não entenderem que as decisões que tomam devem ser calibradas.

Temos no velho continente uma aliança estratégica entre grandes grupos elétricos e as associações ambientalistas. Essa aliança está a criar um dano ao desenvolvimento equilibrado e a aumentar criticamente os desequilíbrios dos sistemas energéticos nacionais.


Não podendo combater o gasóleo, por este ser essencial no abastecimento europeu, os governos, implicados pelos ambientalistas, decidiram atacar o gás natural. Este, sendo muito mais barato e mais amigável ambientalmente que o diesel, é vilipendiado pelas clientelas fundamentalistas financiadas pelas grandes empresas elétricas sempre à procura de “rendas”. Tal circunstância levou a que o governo português tivesse deixado de exigir canalização de gás nas habitações, coisa que só pode vir de gente completamente impreparada e sem sentido crítico.

Um país com juízo devia estar a promover um mix energético que se baseasse em 2/3 de eletricidade e 1/3 de gases vários, mas não. Estamos a caminhar para o suicídio como se tem visto por estes dias, os planos de ação para o biometano e hidrogénio não passam de exíguos incrementos.

O que aconteceu com a tempestade Kristin, e já tinha acontecido com o “apagão”, demonstra o que acima escrevi. Por mais investimento que se faça na rede elétrica, teremos sempre um problema perante uma catástrofe, tudo porque as redes são, no seu grosso, aéreas. Nos países mais desenvolvidos, só 40% das redes são enterradas e em Portugal serão perto de 20%, a maior parte em áreas urbanas.

A aposta rápida na eletrificação total da nossa vida leva a que não haja condições para sobrevivermos em grave situação de crise. Para que possa acompanhar as obrigações de descarbonização impostas pela UE, Portugal teria de investir entre quatro e seis vezes mais no sistema elétrico nacional nos próximos dez anos, mas isso levaria as tarifas para domésticos e empresas a valores inimagináveis. Estamos a meter-nos numa alhada enorme porque ninguém quer falar verdade aos portugueses.

Para além do facto de termos uma dependência quase total relativamente à China na REN e na EDP, um gravíssimo erro que, a coberto das imposições da troika, levou o país perder soberania, os governos têm sido incompetentes numa outra área relevante.

Em Portugal, as redes de baixa tensão são propriedade dos municípios. A sua exploração deve ser atribuída a uma entidade empresarial que queira promover os investimentos obrigatórios durante um período significativo e tempo. A maior parte das concessões já terminaram ou estão no seu limite, a empresa concessionária já não gasta um euro que se veja há muitos anos. Qualquer cidadão pode verificar que as suas ruas têm cada vez menos lâmpadas em funcionamento, que muitas redes carecem de investimentos avultados.

Quem conhece minimamente o setor constata o estado deplorável das redes em baixa e a urgência da sua modernização. Nem os governos nem as autarquias se conseguem entender para a resolução deste grave problema, empurra-se com a barriga e vai-se esquecendo a cada tempo.

Ora, ao olharmos para as imagens da catástrofe da passada semana, temos à nossa frente a decrepitude da distribuição pelas casas e pelos espaços comerciais e industriais, resultado de anos de inação.

O “apagão” de 2025 deu o alerta. Portugal não está a salvo de novos eventos. O governo anunciou que tinha um programa de emergência para garantir que o país não ficava completamente às escuras, que os serviços essenciais seriam garantidos.

A Kristin fez com que mais de um milhão de pessoas ficasse sem eletricidade. Por consequência, ficaram sem comunicações porque estas não tiveram eletricidade, e ficaram sem água porque as estações elevatórias e os sistemas de abastecimento também não. E mais, ficaram sem GNR, sem PSP, sem bombeiros, sem serviços municipais e de freguesia, tudo porque a “luz” se apagou.

O Ministério do Ambiente e Energia tem um saco azul (Fundo Ambiental) que é gerido, sem critério e sem qualquer alerta do Tribunal de Contas, pelo governo. Deste saco sai dinheiro para apoiar janelas compradas pela classe média, sai dinheiro para comprar carros elétricos, como se o mercado não estivesse já maduro, até sai dinheiro para que sejam substituídos os velhos eletrodomésticos a gás por churrasqueiras de fim de semana a eletricidade. Todas estas decisões aprofundam a nossa dependência de uma única tecnologia ( o que é completamente incompatível com as boas práticas de gestão industrial) e favorecem as grandes empresas elétricas.

Ora, tão superiormente informados os nossos governantes acreditaram que o nosso país estava a salvo de novas situações críticas e nada foi feito.

Os geradores espalhados pelo país com critérios definidos pelas autoridades de saúde, segurança e proteção civil, de preferência abastecidos por energia alternativa tendencialmente limpa para poderem cumprir os valores ideológicos do Fundo Ambiental, já deveriam estar contratualizados desde o final do verão, mas nada.

Eu sei o que vai acontecer depois de todos esquecermos o que se passou nos últimos dias – o governo assobiará para o ar e os portugueses continuarão à espera de uma nova catástrofe onde voltará a constatar-se que somos um país de pés de barro e com políticos incompetentes.

 

Ascenso Simões

Gestor e ex-Membro do XVII Governo Constitucional

 

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Publicado em Opinião