Carneiro pode vir a ser primeiro-ministro?

O PS tem de ter consciência de que, para governar à esquerda, tem de ganhar uma parte substancial dos votos do centro e da direita. Mais, prevendo-se que a direita radical populista possa vir a “comer” a direita democrática, não pode o PS dar-se a novos e insanos frentismos, antes deve ocupar todo o centro político.

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  • 20:32 | Quinta-feira, 29 de Janeiro de 2026
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Nos primeiros quarenta anos da nossa democracia, o líder do Partido Socialista afirmou-se sempre um potencial primeiro-ministro. Foram décadas em que a direita democrática se juntou, formalmente ou por transferência de votos, para governar, e a esquerda democrática esteve à frente dos destinos do país com o PS próximo dos 40% de votos. Os exercícios governativos de 1976, 1983, 1995 e 2005 decorreram, em exclusivo, de uma vitória inicial do PS.

A crise de 2008, a intervenção externa de 2010, a austeridade que veio até 2014, a prisão de José Sócrates, a chegada ao poder de um PS derrotado nas urnas, mas ardiloso na construção de uma solução que juntou esquerdas díspares, a derrocada de uma maioria absoluta, a prisão de um chefe de gabinete que tinha setenta mil euros em notas no centro nevrálgico do governo, a degradação dos serviços públicos e das respostas sociais e a loucura de umas eleições onde a intransigência fez do PS a terceira força parlamentar, foram gravíssimos acontecimentos que transformaram, de forma profunda, a realidade política e social do país.

Estes factos foram tão relevantes que cada um por si teria obrigado a um profundo debate. Mas não, o PS começou a escorregar e nunca mais parou, achou que podia construir um “país de amanhãs que cantam” contra os portugueses.


Pedro Nuno Santos foi eleito para liderar o partido com o credo na boca de grande parte dos militantes. Muitos tentaram dar-lhe o sentido da realidade que ele desconsiderou e, por teimosia, “esbardalhou-se” criando um dano incalculável ao partido. Teve a oposição de José Luís Carneiro que reuniu os ódios, mas também demonstrou coragem.

Em maio de 2025, depois do “morticínio”, Carneiro era o único que estava em condições de resolver a vacatura, o tempo era de urgências, as autárquicas obrigavam a ter um secretário-geral.

Nestes meses, o atual líder dos socialistas foi incansável no apoio aos candidatos às câmaras, tentou meter todos os galos em poleiros imaginários, desfez-se em iniciativas que tiveram insuficiente sucesso. Como diria Jaime Gama – um frenesim. Ter bons resultados autárquicos sempre foi mais da lavra dos de baixo do que dos de cima, como ele sabe melhor do que ninguém.

Neste caminho atabalhoado, autorizou um apoio dissimulado a Seguro, mas não tardou a aproveitar-se do seu êxito para cantar vitória e, com uma certa esperteza, convocar o congresso para ser reeleito à pressa. Estes factos parecem não confirmar nele mais do que sentido aparelhístico, atributo que é insuficiente para construir uma alternativa de poder.

Carneiro não é desprovido de inteligência, mesmo parecendo maneirinho; não é desprovido de cultura, mesmo aparentando estar cristalizado entre o tradicional e o popular; não é desprovido de intuição, mesmo que pareça dissimulado. Mas é verdade que o eleitorado das cidades e os votantes com menos de 40 anos lhe acham pouca graça, mesmo que lhe reconheçam honradez, atributo raro nos tempos que correm.

A pergunta que se deve fazer hoje é a seguinte: Pode José Luís Carneiro vir a ser primeiro-ministro? A minha resposta é simples – Pode!

Se o líder do PS não tivesse ao seu lado um conjunto de dirigentes frágeis e que dizem amém ao chefe esperando um lugar medíocre de deputado, ele já estaria bem à frente no caminho que importa fazer. Mas anda às voltas, atacado por meia dúzia de emplastros que não o largam quando aparece nas televisões.

Alguns quadros do PS têm sido pouco brandos com o líder porque acham que ele pode fazer muito mais e muito melhor. Perante a realidade, a única coisa que quererão é que haja alguém que retire o partido desta vil tristeza em que se encontra. Se Carneiro não tiver discernimento e não largar os “velhos do Restelo”, os de meia idade totalitários que se fazem proprietários da vida parlamentar, os novos terratenentes e os jovens presunçosos que falam e agem como Mariana Mortágua, só nos vai restar apelar a Duarte Cordeiro para que deixe a vida privada e, se o caminho for longo, começar a pensar na luta que vai existir entre Miguel Costa Matos e Bruno Gonçalves. Tudo o resto é mais do mesmo, estimáveis pessoas que já tiveram grandes derrotas e não querem saber dos militantes, personalidades excelentes a fazer fichas técnicas, mas que desconhecem a realidade, ocupantes de lugares políticos razoavelmente pagos e que não exigem grande trabalho. Mais do que nunca, os portugueses gostam que os encarem com bonomia, que lhes falem com proximidade.

Regressamos a Carneiro que é o incumbente. Permita-nos ele que possamos dar um contributo para que abra os olhos para o futuro.

Como pessoa, Carneiro tem relevantes qualidades mas tem muitas debilidades. A primeira é a falta de carisma. Pode resolver-se esse problema? Sem qualquer dúvida, desde que o próprio queira e saiba como fazer.

Max Weber pode ajudar no caminho da construção do carisma “carneiriano” e Fox Cabane pode servir na autoria de um manual. Quem conheceu Tony Blair na sua juventude dizia que ele era um patinho feio. Ora, este vencedor, que deu corpo à Terceira Via, foi o último dos líderes carismáticos a ganhar amplamente eleições.

A segunda é a de autor de estratégias, de construtor de equipas, de agente de recrutamento de talentos e de inspirador de líderes. Carneiro está, nestes universos, quase em bruto. Talvez tenha de regressar a Maquiavel, Sun Tzu e Miyamoto Musashi e atentar em Richard Rumelt, Michael Porter e Adam Grant.

Para além disso, importa recomendar três séries essenciais para um líder. A primeira é The Playbook. Partindo de muitos promotores de talento, encontrará aqui exemplos de como pode identificar novos políticos, como os fazer brotar dentro do partido, como os transformar em fenómenos. Também se aconselha Bill’s Brain. Aqui pode inspirar-se para construir um partido moderno, rápido, sustentado e que marque. Por último, Abstract. Pode parecer estranha esta indicação, mas é muito interessante para quem tem de inspirar para a inovação, construir para a diferença, compatibilizar o tradicional com o futurista.

Vamos agora ao que é ainda mais urgente.

Mário Soares nunca foi um líder de falas mansas, cortou a direito mesmo quando estava em causa Zenha, o seu companheiro de sempre; Guterres talhou a direito quando percebeu que o PS nunca iria a lado nenhum com uma visão esquerdista-elitista pouco dada ao país real. Rompeu com o sampaísmo e fez-lhe guerra forte; Sócrates foi sempre um homem corajoso e frontal. Cortou e depois integrou.

Olhando o passado, só tenho a dizer que quem foi primeiro-ministro fez sempre cortes, criou um caminho deixando gente para trás. A unidade do partido não se faz na modorra, faz-se na ação, na coragem e na frontalidade. Nenhum dos líderes precisou de aprovação de quem quer que fosse, todos se garantiram no poder real e simbólico da função. O partido sofre hoje de uma insuportável e injustificada “superioridade moral” protagonizada por gente eleitoralmente pouco recomendável que marca maldosamente a liderança e que precisa de ser remetida aos anais da história ou à sua insignificância.

Mário Soares partia das elites urbanas, mas não se cansou na paciência de ouvir o país nas suas muitas expressões. O que ele gostava era das pessoas que lhe davam o outro lado, que lhe diziam coisas que por vezes não gostava de ouvir. Era um aristocrata republicano.

Guterres conhecia as elites urbanas e o país rural. Optou por ficar de fora das listas de deputados quando quiseram retirá-lo de Castelo Branco. Era da burguesia urbana católica.

Sócrates era um montanhês ilustrado, alguém que sentia as debilidades do país, mas que ambicionava ser gente grande, que marcasse. Era a burguesia rural influenciada pela democracia e pela liberdade.

Carneiro é o primeiro líder a vir do povo. É o sucesso de Abril no seu máximo. Mas isso é muito pouco. O que pode ele dizer a um grande empresário, a um banqueiro, a um cientista, a um empreendedor? A um líder de um partido como PS não basta a cadeira do Largo do Rato, tem de ter mundo, tem de surpreender, tem de ser implicante, inspirador e, essencialmente, curioso e atrevido.

Para terminar esta análise das condições que Carneiro tem para liderar o PS rumo a um novo tempo (não só a uma nova governação), importa deixar bem clara a realidade do quadro interno.

Mário Soares teve António Campos e António Guterres teve Jorge Coelho. O líder do partido tem de ser tudo menos o aparelho. Campos e Coelho eram duas pessoas centrais nos rodriguinhos internos. Era com eles que estava a gestão dos interesses, a promoção dos que tinham mais votos e dos que tinham mais ideias.

Se recuarmos até à década de 1980, Campos foi o “controleiro” que fez o PS de Soares regressar a São Bento e que abriu caminho para Belém. Num outro trilho, poderemos dizer que Coelho foi central na década e meia que vem de 1991 a 2005, construindo com António José Seguro o caminho para a Nova Maioria, em 1995, e tendo ainda a paciência para amortecer as diatribes de Sócrates em 2005. Soares foi quem criou o PS que vem de 1964 a 1985; Guterres abre o período da governação prolongada e cria dois outros primeiros-ministros e um Presidente da República, tudo isto entre 1995 a 2024. Vamos ver quantos anos teremos de interregno até se descobrir um novo atalho governativo para o PS.

Quem é hoje o Campos ou o Coelho de Carneiro? Quem é a pessoa com autoridade, passado e conhecimento do país e do partido que possa estar disponível para ser esse número dois? Carneiro aprendeu com Costa a dividir para reinar, mas esse método só resulta a partir do poder e não a partir da oposição como se constatou em 2024/2025. Cortar primeiro para juntar depois não é o mesmo que dividir em permanência para que ninguém conteste o líder. E a primeira fase dessa “revolução interna” é regenerar o poder local socialista e refundar o partido nas bases.

Que sinais deve dar já José Luís Carneiro? Em primeiro lugar, tem de encerrar, de uma vez, o cemitério de ex’s a que deu o nome de Conselho Estratégico; e, em segundo lugar, tem de criar um Centro de Inovação Política que só tenha gente até aos 45 anos. Não se trata de idadismo, trata-se de sobrevivência. Muitos dos que teimam em marcar terreno e não sair dos holofotes, estavam em 1994, quando foram lançados os Estados Gerais, nos quarenta anos. Temos de respeitar o passado, mas em política ninguém deve nada a ninguém.

E, igualmente importante, o PS tem de deixar de ser o laboratório vivo do ISCTE, quase como que uma coutada. Precisamos de mais academia, de mais pensamento, mas sem amarras e maneirismos. A política do tempo corrente não pode ser só um debate ateniense feito por senadores distantes e diletantes. O conhecimento tem de ser próximo e amigável. O PS ainda é analógico num mundo onde a inteligência artificial se impõe avassaladoramente.

Também importa deixar bem vincada a nossa matriz. Ela não é o socialismo utópico, nem o socialismo científico, nem o socialismo autogestionário, nem sequer o eco socialismo. A nossa matriz central é a social democracia que está muito longe das reinvenções marxistas e que vive num partido “cachecol” onde sempre existiram outras correntes e várias visões de país. Num partido como o PS, os princípios servem para transformar vidas e não para fazer manifestações em permanência.

Precisamos, ainda, que a empatia não seja uma palavra de comício, mas a vida diária dos militantes e dirigentes. O PS tem de ter consciência de que, para governar à esquerda, tem de ganhar uma parte substancial dos votos do centro e da direita. Mais, prevendo-se que a direita radical populista possa vir a “comer” a direita democrática, não pode o PS dar-se a novos e insanos frentismos, antes deve ocupar todo o centro político.

O PS deve opor ao nacionalismo em crescimento um patriotismo sadio que respeite e valorize os símbolos e as tradições nacionais, ao autoritarismo deve contrapor o respeito pela pessoa humana e à balbúrdia provadora deve impor a responsabilidade.

Há, ainda, uma missão, uma urgência, uma imposição – combater a corrupção moral e económica, o tráfico de influências, o amiguismo e o nepotismo. Estes são os piores dos males que estão colados ao PS e que ditarão sobremaneira o seu futuro.

Carneiro não pode esquecer que o país só pode ter eleições em 2029, que esse ano vai ser terrível para o PS e o mais provável é que tenha de esperar por 2033 para que haja condições de um regresso ao poder. O PS ajudou muito à implosão da esquerda da esquerda e ao renascimento dos movimentos radicais de direita e isso vai continuar a marcar o porvir. Não se combate a direita radical populista com berraria, com argumentos-reflexo. Combate-se com políticas e com medidas que sejam adequadas aos problemas que lhe dão gás. A pior coisa que podemos permitir é que a esta direita insana passe a ser punk e ganhe raízes. Um desses problemas é o centralismo que afasta milhões de portugueses dos serviços do Estado e os faz desprotegidos.

O que se conseguiu em cinquenta anos de democracia é imenso, mas completamente irrelevante para o dia a dia dos portugueses hodiernos. Estes não devem nada a ninguém, muito menos aos passados governativos do PS. Quem está na vida política sabe que, se os socialistas situarem o seu discurso em temas gastos ou em defesas abstratas das conquistas, não voltarão a governar. Afinal, se vivemos os melhores tempos de sempre, por que é que instalou a deceção e a sensação de ausência de futuro em largas fatias da população?

Esta enorme empreitada é o que interessa para não termos o PS subordinado às proclamações das esquerdas conservadora e radical e dos seus coveiros; para voltarmos a ser um partido que sabe interpretar a vontade dos portugueses sem lhes meter carradas de slogans na cabeça; para voltarmos a poder ponderar uma governação moderada, moderna e mobilizadora.

 

 

Ascenso Simões

Gestor e ex-Membro do XVII Governo Constitucional

 

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