Sátão, a terra do autor Rebelo Marinho

A obra de Rebelo Marinho oferece uma familiaridade muito marcada, uma sensação de pertença aos espaços ficcionais criados, como se estivéssemos a olhar pela janela. É, nesse aspeto, um autor de matriz tendencialmente identitária, que encontra inspiração naquilo que o rodeia e no muito que já viveu. Isso significa que quem é do Sátão facilmente se revê nas personagens e cenários criados, não obstante a universalidade dos temas.

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  • 9:36 | Terça-feira, 27 de Janeiro de 2026
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Tive a honra e o privilégio de estar presente na sessão de apresentação do mais recente livro de Rebelo Marinho, intitulado “A Valsa dos Amantes”.

Não pretendo aqui discorrer sobre a obra – vou “saboreá-la” brevemente, mas senti urgência em partilhar aqui uma reflexão que, julgo a todos os títulos, pertinente.

No decurso da apresentação, o Professor Doutor Fernando Alexandre Lopes fez questão de salientar a sorte que uma terra como o Sátão tem por ter, nas suas gentes, um autor de excelência, cuja qualidade em nada fica a dever a muitos outros autores de língua portuguesa, alguns deles aclamados pela crítica.


Que Rebelo Marinho oferece um patamar muito acima da média é um facto, a meu ver, indiscutível. A densidade da sua escrita e a qualidade da sua narrativa estão apenas ao alcance de alguns, poucos. Sendo leitor desde tenra idade e tendo, ao longo dos anos, conhecido diferentes estilos e géneros de literatura, logo percebi, assim que li a primeira obra publicada – “O Carteiro” -, que Rebelo Marinho se destacava largamente da mediania que se vai reproduzindo pelos escaparates.

A obra de Rebelo Marinho oferece uma familiaridade muito marcada, uma sensação de pertença aos espaços ficcionais criados, como se estivéssemos a olhar pela janela. É, nesse aspeto, um autor de matriz tendencialmente identitária, que encontra inspiração naquilo que o rodeia e no muito que já viveu. Isso significa que quem é do Sátão facilmente se revê nas personagens e cenários criados, não obstante a universalidade dos temas.

Precisamente por isso, as palavras do Professor Doutor Fernando Alexandre Lopes ficaram a ressoar na minha cabeça: “O Sátão tem muita sorte em ter, nas suas gentes, um autor desta excelência.”

Isso acontece porque sei como os municípios de Vila Nova de Paiva, Moimenta da Beira e Sernancelhe acarinham a obra de Aquilino Ribeiro. Em Vila Nova de Famalicão, o município promove ativamente o legado de Camilo Castelo Branco, enquanto o município de Vila Viçosa tem como cartão de visita a Casa Florbela Espanca. Noutro ponto do país, o município de Gouveia comemora, incessantemente, o escritor Virgílio Ferreira, tendo, inclusivamente, um prémio literário com o seu nome.

Mais a mais, se olharmos para o município de Nelas, a valorização da obra de António Lobo Antunes – um autor ainda presente, passa pela Biblioteca Municipal – que tem o seu nome. Como se isso não bastasse, existe em Nelas um Percurso Literário assente nas memórias e crónicas do autor, baseadas na infância que aí passou, a par da atribuição de distinções municipais e da existência de um Centro de Investigação dedicado ao estudo da sua obra.

Então, o município de Sátão, tendo a boa fortuna de ter nas suas forças vivas um autor da dimensão de Rebelo Marinho, deveria promovê-lo, com afinco e determinação, mostrando-o ao país, e ao mundo.

E em cada evento — seja no país ou além-fronteiras —, em vez de se limitar a apresentar-se como a Capital do Míscaro, exibindo boiões de cogumelos selvagens em calda e humildes frascos de mel, o concelho poderia apresentar-se como “A terra de Rebelo Marinho, autor de excelsa mestria que enche de honra o nosso município”, promovendo os seus livros com edições especiais e patrocinadas.

Realizá-lo seria um gesto de profundo respeito pelo autor e pela sua obra, uma decisão visionária e inteligente, capaz de promover as ruturas necessárias em prol dos mais elevados interesses do concelho.

 

Marco Girão

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Publicado em Opinião