VISEU – A CIDADE DE AQUILINO RIBEIRO

por Alberto Correia | 2017.06.14 - 19:08

 

 

 

 

No meu transcurso por Viseu a crónica ficou em claro. À parte uma rixa, no caminho para o arraial para Vildemoinhos, do meu rancho, em que avultava o senhor António Latoeiro, com outro rancho, predominantemente estudantil, quando, entrechocando-se, se arrogava cada qual o exclusivo de gargantear a plenos foles e sem competição a Mulher ingrata, em que eu fiz costas com o Esteves, valentão dos valentões.

 

                                                Aquilino Ribeiro, in Um Escritor confessa-se.

 

Aquilino Ribeiro entra em Viseu, a primeira vez, a 16 de Junho de 1902, com dezassete anos incompletos e instala-se numa pensão de estudantes que abria para a Rua do Arco e a Quelha da Horta de onde passa, mercê de circunstâncias que ele conta nas memórias postumamente publicadas com o título Um Escritor confessa-se, para a Pensão Milheiro, na Rua do Gonçalinho, onde fica até à partida para Beja, em dezoito de Outubro desse ano, feito o exame de Filosofia.

Pela primeira e última vez, nesse ano, Aquilino é participante activo no arraial da noite de S. João que, em Vildemoinhos, antecedia a romagem que na madrugada do dia seguinte rumaria até S. João da Carreira com o designativo Cavalhadas, ao tempo um paroquial cortejo que não deixava suspeitas sobre o mais tardio corso.

Viseu tornar-se-á, mais tarde, ponto de passagem obrigatório entre o grande mundo, Lisboa ou Paris, e a sua terra de adolescente, a Soutosa, esse umbilical pólo a partir do qual estabelece as coordenadas dessa pátria de exilado a que deu o nome “Terras do Demo”.

Tempo houve, sempre, para conhecer a cidade, esse matricial núcleo que em seu tempo ainda se guardava, original a seu modo, dentro da linha de muralhas já esborralhadas e Aquilino, no silêncio das madrugadas ou nas buliçosas horas do dia pleno, sentiu como ninguém o pulsar da cidade mesteiral de fanqueiros, chumecos e padeirinhas, de mangas de alpaca, de fidalgotes em decadência e de senhores cónegos respeitados como pressentiu, mais tarde, a força de ânimo que levava a cidade a crescer com esse recticulado promissor das avenidas novas que careciam ainda de modernas estradas de macadame e do caminho de ferro de via larga para que pudesse largar para mais longe.

Aquilino torna-se cidadão desta cidade, a gente sente. Tornaram-se-lhe familiares ruas e praças, entrou em todos os templos, da Catedral a S. Miguel, celebrou os imortais dos monumentos, D. Duarte ou Alves Martins, tornou-se-lhe familiar o seu Museu e Almeida Moreira, o fundador e estimulante mentor de projectos, conheceu a Feira Franca e teve amigos sem conto com os quais se sentava a conversar, Cristóvão Moreira de Figueiredo, Arnaldo Malho, Mário Ferreira Matos que por cinquenta anos foi seu alfaiate, Gilberto de Carvalho, Pinto de Campos, António Mota e outros mais.

Residências em morada foram curtas, que curtas foram sempre em todas as latitudes. Para além da epocal residência de estudante ocupou transitória casa em Abraveses, com sua mulher, D. Jerónima e seu filho mais novo, ainda criança, nos meses de Agosto a meados de Outubro de 1932; poucos anos antes, em 1928, estanciara por curto tempo, prisioneiro, no presídio do Fontelo, onde os senhores Bispos tiveram Paço durante séculos.

Viseu ficou gravado em letras de ouro em muitos dos seus livros – nesse, de memórias, atrás registado, nas efabulações de O Homem que matou o Diabo ou do Volfrâmio, nas pinturescas descrições de Andam Faunos pelos Bosques, no exemplar descritivo de Arcas Encoiradas onde perpassa, em comovidas páginas, a sua afeição por esta cidade como atesta esta amorosa frase que se transcreve e se inscreveu um dia nos muros brancos da Pastelaria Horta, seu também lugar de eleição: Sempre que me ponho a considerar a fisionomia desta cidade, abstractamente, como uma imagem feminina, figura-se-me prazenteira, amável, buliçosa: numa palavra, eminentemente jucunda.

O memorial constituído pelo Parque com o seu nome – Parque Aquilino Ribeiro, a Rua que também honra o seu nome, o bronze que na Rua Formosa, sua rua de eleição, perpetua uma presença, constituem-se como sentida homenagem ao Escritor das Terras do Demo que hoje pertence ao mundo.

Assim os homens, todos, o reverenciassem e, melhor, dele aprendessem o sentido da afeição, da amizade que ele nunca traiu, dos ideais humanistas que ele serviu sem hipocrisia mas com verdade. Sem isto pouco vale o bronze, a calçada que pisamos, o sombreado das tílias ou dos carvalhos de um Parque. Se não se seguir a doutrina pouco valem as páginas com a letra de forma de um livro.

 

VISEU – A Cidade vista de Nascente (c. 1950) (Gentileza de Foto Germano)