#UMACRIANÇAÉUMACRIANÇA

por José Carreira | 2017.08.27 - 21:14

 

No livro Contra a Democracia, da autoria de Jason Brennan (Gradiva, 2017), o autor aborda o “argumento mais fraco a favor da ideia de que a democracia nos dá poder”: o consentimento dos governados. Para explicar a inexistência de um consentimento real, exemplifica:

“Imagine que um grupo de homens diz a uma mulher: ‘Tem de se casar com um de nós ou morrer, mas deixá-la-emos escolher com quem se casa.’ Quando ela escolhe um marido, não consente em casar-se. Não tem escolha real.”

A leitura deste parágrafo, levou-me a reler o artigo de Alberto Rojas “O te acuestas conmigo o te convertirás em uma niña-bomba”, publicado no diário espanhol El Mundo (24 de agosto).

É também a questão do consentimento (das sequestradas) que provoca o aumento da “desconfiança e do medo relativamente às crianças que foram libertadas, resgatadas ou que escaparam ao Boko Haram. Assim, muitas das que conseguiram fugir do cativeiro enfrentam a rejeição quando tentam reintegrar-se nas suas comunidades, o que agrava ainda mais o seu sofrimento.”, informa a UNICEF na nota de imprensa Uso de crianças como “bombas humanas” aumenta no nordeste da Nigéria: As raparigas são as vítimas mais frequentes.

No caso das meninas raptadas (mais de 7000), pelo Boko Haram, poderão consentir casar com um terrorista ou serem marcadas com um cachecol de cor diferente das restantes crianças sequestradas, tornando-se meninas-bomba.

Alberto Rojas conta a arrepiante história de Aisha que, ao negar-se a ter relações sexuais com um dos “barbudos, mal-humorados, vestidos de negro”, tinha como destino entrar num mercado, simular um desmaio, esperar que as pessoas se aproximassem dela para a socorrerem e apertar o detonador do seu colete-bomba, até ter sido salva pelo exército nigeriano.

A população estigmatiza as meninas-bomba porque não tem a certeza se muitas querem fazer-se explodir por sua livre iniciativa ou sob ameaça. A UNICEF presta apoio psicológico às crianças e trabalha com as famílias e comunidades para promover a sua aceitação quando regressam, explicando as alternativas a que ficam sujeitas.

“As crianças usadas como “bombas humanas” são, acima de tudo, vitimas, não criminosas.”

Os bárbaros sanguinários recorrem, cada vez mais, às crianças para não chamarem tanto a atenção dos alvos. Ao não consentirem o casamento, passam para as lavagens ao cérebro com a utilização de drogas e injeção de mensagens como: “Amanhã estarás no paraíso”; “Não te preocupes porque eles não são verdadeiros muçulmanos” …

As crianças não estão imunes à violência que se vive em muitas zonas do globo como deixa bem claro o relatório Uma Criança é uma Criança: proteger as crianças em movimento contra a violência, abusos e exploração:

“há́ milhões de crianças em movimento através de fronteiras internacionais – fugindo da violência e de conflitos, de catástrofes naturais ou da pobreza, em busca de uma vida melhor. Centenas de milhares viajam sozinhas.”