Uma história de amor?

por Alexandra Azambuja | 2020.01.10 - 11:24

Há uma certa magia delicada em tudo isto embora seja difícil perceber onde começa se nas madrugadas muito frias em que o rio parece parar ou nos fins de tarde onde a hora manchada a ouro chega sempre sem se anunciar sem que saibamos quando começou e como termina acho que são as epifanias que se nos demoram no peito e que queremos guardar para todo o sempre dentro de nós mas posso assegurar que é surpreendente sempre e quando nunca esperamos e estamos perfeitamente desprevenidos às vezes uma fresta entre ramagens e folhas densas outras vezes uma nesga de céu ou um enquadramento inesperado e cores que nem sabíamos existir e depois um rosto desconhecido que fixa um olhar intrigante por sobre nós conhecemos aquela sensação de frenesim do desconhecido serão as mãos ou o olhar onde nos fixamos nunca saberemos nunca é possível rever esse exacto momento em que a magia do inesperado acontece apesar de tentarmos puxar a box da memória para trás sabemos como foi depois mas nunca antes aquela coisa de olharmos e fazer sentido reconhecer um membro da mesma tribo perdidos de anos  décadas  vidas e afinal onde andámos desencontrados neste planeta gigante  onde 7 biliões de almas suspiram rasgam acordam e voltam a cair nos dias e noites sem que os seus caminhos tropecem uns nos outros ou sim  às vezes tropeçam  e caem  é quando os olhares se cruzam que o resto do corpo morre de falta de nexo e sentido quem precisa de um corpo quando os olhares se cruzam esse estorvo feito de pernas e mãos e braços e nucas arrepiadas? é quando a urgência se instala deixando para trás fome sede e sono todos os compromissos da vida inteira papéis e contratos selados a ouro e mirra  ou seria incenso?  e a Natureza emudece de pássaros calados e vulcões que se extinguem repentinamente como se a ordem do mundo obedecesse a um desígnio muito antigo  e as flores resolvessem crescer para dentro inchando de tantas cores violentas suponho ser esse o momento em que as tintas a óleo ganham vida e se espatifam contra a tela desenhando o futuro por acontecer as leis sem gravidade se põem a levitar por todo o lado enquanto cães choram e crianças se escondem de um vento sombrio que se levanta e grita e o rio renasce tilintando pelas margens abaixo porque do cruzamento desses olhares tribos inteiras renascem como um uivo longínquo anunciando a mais velha criação do mundo um amor impossível que nasce e soa como um gigantesco exército que se sabe a caminho da morte certeira mas continua de peito impante às flechas enquanto o espaço se  dissolve e a distância desiste de existir e os olhares já não podem cruzar-se por não haver por onde e de repente o rio a luz os pássaros e o dia – não por esta ordem seguramente – perdem-se do caminho e sobram apenas um amor impossível e dois olhares que se cruzam num dia que quase terminava sem que a fatídica pergunta fosse feita agora que tenho a vossa total atenção:

Prometem fazer alguma coisa para combater as alterações climáticas?

Alexandra Azambuja