SERNANCELHE – UMA ALDEIA CHAMADA MACIEIRA

por Alberto Correia | 2017.10.14 - 11:42

 

 

 

Macieira é uma pequena aldeia do concelho de Sernancelhe, nas extremas da sua fronteira, lá onde o Norte declina já para Poente. Até meados do século XIX pertencera ao concelho de Fonte Arcada, era o seu Reitor que ali colocava o cura a quem pagava módica quantia de sessenta mil réis das rendas da Universidade que tinha por posse a sua igreja e terras de cultivo que assinalava com marcos de granito e a sua sigla gravada, como pode ainda ver-se em alguns que vieram até nós.

Macieira não vem nos mapas antigos e as remotas Corografias passam pelo seu nome como gato sobre brasas. Apenas o cura, Manuel de Távora, se demora um pouco na Memória que escreve em 1758 a mando do seu bispo para nos dizer que na terra “situado num monte no cimo de um vale” moram 239 pessoas que, dentre os frutos da terra, colhem “com mais abundância… centeio, milho, castanhas, feijões e linho”, o linho tão necessário, como o pão, para o agasalho, colmatado com a lã das ovelhas que tinham pasto na vastidão da serra. Batatas não havia então. Vieram mais tarde. Como vieram outros bens de uma fruste economia de mercado garantida pelos Malhadinhas antes de as furgonetas lá chegarem, que tarde foi.

Vem isto a propósito do livro de título “Macieira, aldeia, gente e identidade”, de José Maria Caria, editado neste Verão pela Câmara de Sernancelhe que assim integra, nesse mapa de identidades, a aldeia que há tão pouco tempo escapara ao quase medievo jeito de viver e hoje, rompendo um tempo novo, se despovoa.

O autor nasceu em Macieira, viveu ali pouco mais tempo que a idade de menino, mas guarda-lhe o retrato desse tempo, amoroso retrato emoldurado, ao jeito de madre-pérola, com rochedos, gados, canto de grilos, rosmaninho, rezas de avós, sinos tocando e ilumina-o com récegas do sol e do luar desses dias antigos que viveu e onde de tempos- a-tempos retornava.

O autor nele, no livro, constrói a identidade, a sua e a da terra, pátria de avós, chão de vizinhos que irmãos ficavam entre o berço e o caixão, terras lavradas durante seis dias, a vida inteira, com o Domingo que Javé lhes deu para descansar e a festa da Senhora da Apresentação.

O autor quis deixar esta história escrita em verso, quase toda, como faziam os aedos antigos ao escrever as epopeias. E são estes versos o caminho que levamos, as linhas cruzadas num chão de memórias que atravessa uma vida. Enriquecedoras as icónicas imagens de Paulo Pinto.

Ao autor quero agradecer a referência bonita que faz ao meu nome na última página do seu livro.