SÁTÃO (O) NA”GEOGRAFIA SENTIMENTAL” DE AQUILINO RIBEIRO

por Alberto Correia | 2017.04.24 - 11:00

 

 

Aquilino Ribeiro, na Primavera de 1951, os sessenta e seis anos feitos, volta à sua terra, não exactamente a esse território paroquial do Carregal ou da Soutosa que a ambos, quase, podemos chamar berço, mas às Terras do Demo, essa pátria de mais largas fronteiras cujos limites ele estabelece mediante essa metafórica medida, o badalar do sino, talvez o Barradas, da torre do Carregal, que ecoava a seus ouvidos desde o berço, nas manhãs de Domingo, chamando para a missa, ou quando badalava ao Senhor Fora, quando ecoava na limpidez do ar das alegres manhãs de Páscoa, quando o seu cavo badalar era triste na despedida de um vizinho que cumpria seus dias, quando, a rebate, anunciava a tragédia de um incêndio que devorava o tecto que era abrigo de um irmão, quando prevenia perigos como o efabulado toque dos sinos da Igreja do Mosteiro da Tabosa, os franceses apontando ao longe.

Roteiro chama Aquilino à sua Geografia Sentimental, porque agora é a sua alma que vagabundeia por esses lugares de que talhou, com verdade suprema, o território primevo, bárbaro e agreste das Terras do Demo onde jordaneou no estimulante tempo da sua juventude entrecortada de ausências penosas e estranhas.

Aquilino agora não faz história, diz ele a João Pereira da Rosa, o respeitado Director de O Século, a quem dedica o livro.

O que ele escreve compara-o aos “Paralipómenos” bíblicos, os dois livros sagrados do Velho Testamento que são também o remate dos velhos livros das crónicas de Reis e Profetas.

Aquilino regressa de longe, desses caminhos riscados na soma de tantos dos seus livros e sobe, comovido, à sua serra, essa matriz identitária por si assumida e na obra revelada, sobe desde Viseu até onde lhe alarga, mais a Sul, a indefinida fronteira, trepa para a diligência do Guilherme, e é já de olhos fechados que ouve o trepidar das patas dos cavalos, as palavras de incitamento do cocheiro por esses caminhos vagos que corriam por Cavernães, Cepões, alcantis do Vouga. Entra, impante, em Barrelas, já crismada em seu tempo, diz ele pela boca do Malhadinhas, pelo ajudengado nome de Vila Nova de Paiva, detém-se na Soutosa, a sua aldeia de adolescente que escolherá, mais tarde, para a rotina operosa e criativa dos meses de Verão e segue, descendo, Cabeça d’Alva, Senhor dos Aflitos, terras de Caria Nova e Velha, S. Francisco, com os eternos cheiros da marrã e as recordações de Celidónia, a fadazita e o fauno, ambos inocentes, correndo entre as poéticas ruinas de S. Francisco, Arcozelos, Padre Ambrósio lembrado, segue a deslado de Moimenta da Beira, a vila comarcã dos figuros locais tantas vezes nomeados e detém-se por alturas do Fradinho, Tabuaço sobre o longe, sobre o grande Douro onde já não desce.

Aquilino, na Geografia Sentimental, é o guia sábio e mavioso e conta, como se nós estivéssemos ouvindo, as velhas histórias da sua lembrança, descreve os quadros míticos de uma cultura ancestral que marcou a identidade das aldeias montesinhas dos picotos da Beira onde nunca se perderam as vozes das divindades antigas, onde os faunos continuaram a seduzir as filhas dos homens, onde os monstros antigos se petrificaram em pasmosos rochedos, alguns que choram ainda lágrimas de estranho sentir como o místico Penedo da Fonte Santa onde, no solstício de Verão, há quem vá tentar sarar, com as águas que dele escorrem, os seus males.

 

Feita esta extensa e memorável travessia, Aquilino regressa e solta-se, como se caçador ainda fosse, por atalhos de montanha, por trilhos de almocreves e velhos cabaneiros de Alvite e mostra-nos, guia outra vez sábio e saudoso, o eremitério antigo, o lugar da feira por onde vagueou, o pau de lódão por companheiro, os velhos cenóbios ao abandono, an- corados na meia encosta ou estabelecidos na planície fértil. E é na tessitura desta rede de percursos que Aquilino entra nos territórios antigos que hoje conformam as fronteiras do moderno município do Sátão.

E nós lá vamos, Aquilino chamando, caminhos de pé posto iluminados pelos coloridos tons da urze, do tojo, da giesta, passamos poldras, trepamos carreiros e pousamos face a esse ermitério da Senhora de Penha Vouga, ou Senhora Velha do Vouga, sítio de romaria bem mais antiga que a da Senhora da Lapa, que Aquilino conhece de visu e através da legenda colhida no Olympo Mystico,1 o desaparecido manuscrito que ele pôde, por felicidade, ter tido em suas mãos, território de indecisa fronteira de onde a gente de Águas Boas, num “domingo de rebentina”, diz Aquilino, “ arrancou a Senhora bonita e a talha especiosa do altar para a sua igreja, depois de escaqueirada devotamente, e levou a telha para as pocilgas”.2

Aquilino desce atravessando territórios de velhas quintas – Navainhos, Madalena, Barroca, Carvalhas e segue depois o carreiro que corre entre alcantis perigosos que o monge Viterbo deve ter subido quando exerceu um temporário ministério no Colégio da Lapa e sobe devagar a esse pouso de águias onde demoram hoje, a igreja do Convento da Fraga que abriga a miraculosa imagem do Senhor Santo Cristo e as ruinas da construção conventual, desventrada do seu claustro e de tantas memórias mais.

Aquilino demora-se sobre a varanda do chão do convento que, diz ele, ergue-se sobre uma sapata de grosso granito, tão alcandorado que já o pátio fica sobranceiro ao voo dos andorinhões quando cruzam em alta sarabanda a veiga da outra margem.3

Aquilino demora-se por ali, poeta que ele é também, contemplando o chão que já foi mimoso do amplo Vale de Ferreira que as águas de Verão do rio Vouga ainda tinham dificuldade em regar, mas quem ele gosta de lembrar é Frei Joaquim de Santa Rosa de Viterbo, natural de Gradiz, paróquia do município vizinho de Aguiar da Beira, que dali fez sua casa de oração e trabalho, última morada também.

Lembra-o a cada instante como incansável estudioso dos tombos monacais da Beira e não só, recorda o seu virtuosismo de investigador, testemunha a importância dos seus textos, particularmente do Elucidário, o livro que lhe ensinou a conhecer a Beira, como se Bíblia fosse, afirma Aquilino, agradecido ao frade da sua afeição.

Na desdita, o velho Convento da Fraga ainda teve um curto momento de glória quando os frades espanhóis da Ordem dos Missionários do Coração de Maria instalados na sua Casa-Mãe, na fronteiriça Aldeia da Ponte, se acomodaram também na Fraga na última década do século XIX, até serem expulsos do reino no ano de 1910, ainda em tempo monárquico.

Aquilino não os refere explicitamente, mas serão porventura eles quem traz à Lapa, como pregadores, a convite do Padre Francisco Ferreira, alguns padres da Ordem, o padre Baldomero Ciriza, por exemplo, durante a novena de S. Barnabé, no ano de 1900, data em que Aquilino se encontraria no Colégio de Lamego e durante a novena de 15 de Agosto do mesmo ano, quando Aquilino se deslocara já para as explicações de Filosofia em Viseu. E é este padre Baldomero que Aquilino nos traz ainda, como figura efabulada, no romance Andam Faunos pelos Bosques, guia espiritual da esotérica beata que foi a Maria da Encarnação que, fazendo por escapar a todas as mundanidades da terra, renegara o amor de Pedro Jirigodes que dela se tomara de doentia paixão.4

 

Da Fraga o Roteiro segue caminho até às ruinas que o tempo preservou do Mosteiro feminino de Santa Eufêmia de Ferreira de Aves e Aquilino evoca, como só ele sabe, a paisagem que atravessa.

A serra, que ia do convento de Ferreira de Aves ao da Fraga, foi sempre espaço negregado. Não há memória de se erguer lá pinheiro, esta árvore que resiste tão bem em cima da rocha como na areia ou na água, e até nem lhe falta aguentar-se em pleno mar, nas naves, para ter o domínio do espaço. Pois ali não lançou raízes a denodada espécie vegetal(…)

A serra era escalvada e agreste, sala do vento e dos lobos.5

 

Esquecendo a história pícara de Frei Tomé que descia da Fraga a confessar as religiosas do Mosteiro de S. Bento desçamos com Aquilino aos plainos onde assenta o seu casario antigo.

Lá está o mirante, com arcaboiço de torre de menagem e a fieira de janelas em rectângulo, hoje votado a palhal de feno. Lá está em iguais circunstâncias, o pavilhão que era a botica.

Um cedro esfrançado estende um ramo, tal uma asa de coruja, por cima do cruzeiro que se ergue defronte. Um e outro viram passar séculos e séculos místico-românticos, com outeiros, visitadores, morgados em suas bestas rabonas, ondas de povinho a cobrir como herpes aquelas fragas brancas, procissões garridas de romaria aos santos oragos das aldeias, guiões rubros e claros a esvoaçar contra a fronde verde das macieiras e castanheiros.6

 

Lamas segue neste entrecho. Lamas de Ferreira de Aves, senhorio dos Senhores de Ferreira, alongada de um e outro lado do corredor de uma estrada que deixa à banda o alargado Terreiro de uma feira de memória.

Eis como a descreve, Aquilino, nosso guia:

A feira quinzenal de Lamas, espécie de Samarcanda do distrito, onde tudo se compra e se vende, desde a réstia de alhos à junta de bois, era olim o lugar de encontro da gente que se prezava em vila e termo.(…)

E também eu era perdido e achado na feira de Lamas, a um tiro de espingarda da minha aldeia natal.

Houve um tempo em que tudo ali me era grato e familiar: marchantes, cortadores de vitela, mais tenra e saborosa do que a tão afamada vitela de Lafões, padeirinhas, mulheres da fruta, tendeiros, proprietários, empregados da comarca, gente de todas as condições e de todas as procedências da vasta região; padres, esses in magna quantitate, não só da freguesia como dos povos e concelhos limítrofes.7

 

Aquilino voltará a Lamas no livro das pícaras crónicas de O Malhadinhas que, à revelia de Brízida, se apresenta na feira sabendo que o Tenente da Cruz o espera para um tardio ajuste de velhas contas, ignorando a baixeza do adversário que se mancomuna com a vil seita de malfeitores que reuniu. Malhadinhas, riscada no chão, com o lódão a fronteira do curto território a defender, escapa ao confronto graças à intervenção generosa e autoritária do Bernardo do Paço, então senhor dessa moradia fidalga, o Paço de S. Miguel de Lamas, que fora dos velhos Pachecos, depois dos Marqueses de Ferreira, e que ainda hoje deixa perceber, na arquitectura da sua torre e na arqueologia dos traços residuais de um fosso a primazia da missão militar que era a sua.

 

Aquilino quis ainda passar, ali perto, no Carvalhal. Era dali o seu caseiro José Januário que trocara o amanho da sua pequena quinta da Soutosa pela miragem do volfrâmio, o ouro negro que então por ali corria.

 

As velhas terras de Ferreira de Aves são para Aquilino um rosário de memórias. Sempre gratificantes.

Aquilino, que as conhece por dentro, às vezes mais não faz do que aproveitar-lhes o nome com que baptiza alguns dos seus heróis, o franganito Navainho, do sangue dos Gaudêncios da Soutosa e Mioma, o fidalgote de débil carácter que envergonha, com as suas debilidades, o estuante comportamento, a firmeza de carácter, a âncora da honra dos serranos das Terras do Demo.

 

Mereceu larga atenção a Aquilino a cavaleiresca história do Indiático, designação com que ficou conhecido Francisco de Almeida Gouveia, natural de Vila Boa que no início do primeiro terço do século XVII embarca para a Índia em busca de riqueza e glória e que o manejo das armas acabará por conferir-lhe tal fama e proveito que irão promovê-lo a governador da praça de Moçambique.

E é nesta situação, conta Aquilino, apoiado no texto depois desaparecido do Olympo Mystico, que ocorre o trágico episódio de um assalto de aligator nas margens do Zambeze de que escapou com vida graças à intercessão da Senhora da Lapa a que, no instante do perigo, se confiou.

A fera acaba por ser morta e esquartejada, o Indiático manda retirar-lhe a pele que, a seu mando, é salgada e conservada.

 

Mercê da informação transmitida por Agostinho Nunes de Sousa, Cónego da Sé de Viseu, no texto que intitulou Olympo Mystico ou Fraga Prodigiosa, composto na segunda metade do século XVIII, inédito ao tempo de Aquilino, perdido posteriormente o seu rasto, Aquilino que o teve em suas mãos integra no texto da sua Geografia Sentimental uma curiosa história que dele recupera. Trata-se da história de Francisco de Almeida Gouveia, apagada figura natural de Vila Boa que embarca para a Índia como soldado na terceira década do século XVII e nos irá surgir, mais tarde, como governador da praça de Moçambique.

E terá sido nas margens do Zambeze que, atacado por um medonho aligator, sentindo-se perdido, se chamou à Senhora da Lapa que o salvou da fera, logo esquartejada, reservando-se a pele que a seu mando é salgada e conservada.

 

Voltou o Gouveia à sua terra, podre de rico e de glória, escreve Aquilino acerca do Indiático, que assim ficou conhecido este soldado.

E continua, seguindo a lição do Olympo Mystico:

Logo que subiu à sua terra de soutos e penhascais, uma das primeiras coisas que fez foi empalhar a pele do caimão, pintando-a e retocando-a a capricho. E fê-lo de tal maneira que tão singular estampa, ao que ficou de animada, parece mesmo que está a sair do grande rio africano para tragar a gente. E com grande pompa, música e foguetório, a içaram onde hoje se encontra, balouçada de duas cambalheiras de ferro sobre o vão alto do templo.8

Esta figuração, transfigurada na voz popular como imaginal lagarto, loquaz ex-voto dedicado à Senhora da Lapa, permaneceu, quase até hoje, como memória embelezada, distorcida com graça, para a mais paroquial história da tecedeira.

 

Termino com a resumida história de amor e ferocidade do enxundioso Próspero Antunes, já cinquentão, natural de Lousadela que se apaixonara pela Maria Rosa Damas, uma frangainha de alto lá com ela, escreve Aquilino, senhora, além dos agrados, de uma legítima de arregalar.9

Maria Rosa cativara-se entretanto de amores por um tal Artur Tavares, natural da Veiga que, tomado de idêntica paixão, por amor dela abandona o Seminário.

Maria Rosa, cativa da apertada vigilância paterna, já que o pai a quer ver casada com o maioral, intenta mandar notícia a Artur da Veiga, para que venha em seu socorro.

Traída, vê o seu amado ser preso, por mais que inocente.

Sujeita a um casamento de pantomina Maria Rosa será liberta do cativeiro pelo amante que entretanto se escapa da prisão e que corre, ao jeito do Zorro de um filme holiodesco, a libertar a amada pelo escuro de uma noite que tragicamente se ilumina com as chamas de um incêndio que deflagra na mansão onde a mantinham aprisionada. E ambos correm sob o dorso desse imaginal corcel que os transporta para uma nova pátria de liberdade e afeição.

 

O Sátão, na Geografia Sentimental de Aquilino Ribeiro!…

Quanto baste para que os já traçados roteiros que se cruzam nas Terras do Demo possam abarcar estes novos caminhos, trilhos de gente e de memórias tão fecundos quanto os dessas terras irmãs, habitadas, umas quanto outras, desde as orcas, por quem carrega em suas veias o mesmo sangue, por quem carregou, em seu peito, o sufoco e a indignação e esperou que Cristo ali chegasse, por fim, e os apóstolos da liberdade que, esses, também tardaram.

O mesmo chão de penedais, a mesma rijeza de alma dessa pátria que agora pode tornar-se maior.

Aquilino talvez mereça.

 

1 – Olympo Mystico ou Fraga Prodigiosa. Trata-se do desaparecido manuscrito composto por Agostinho Nunes de Sousa, Cónego da Sé de Viseu, no 2.º quartel do séc. XVIII.

Aquilino Ribeiro teve-o em suas mãos, emprestado talvez pelo Dr. José Coelho e dele retirou apontamentos sobejos que lhe valeram para a composição da sua Geografia Sentimental.

2 – RIBEIRO, Aquilino, Geografia Sentimental, Livraria Bertrand,1951, p. 165.

3 – Idem, Ibidem, p. 172

4 – RIBEIRO, Aquilino, Andam Faunos pelos Bosques, Livraria Bertrand. 1983, p. 84.

5 – RIBEIRO, Aquilino, Geografia Sentimental, Livraria Bertrand, 1951, p. 205-206

6 – Idem, ibidem, p. 203-204.

7 – Idem, ibidem. p. 199-200.

8 – Idem, ibidem, p. 159.

9 – Idem, ibidem, p. 244.