RLIS: TRABALHO DE PROXIMIDADE, EM REDE E EFICAZ

por José Carreira | 2017.07.10 - 19:17

 

Fiquei apreensivo e, de algum modo, angustiado com o título da notícia publicada no jornal Público (03 de julho de 2017): “Ação social está mais perto das pessoas, mas nem por isso mais eficaz”.

Desde logo, considero que há uma certa contradição nos termos, se estamos mais perto das pessoas, somos mais eficazes. Ou não? Não será esse o objetivo, estar mais perto das pessoas para que possamos atender e acompanhar mais assertivamente as famílias? Ao ler, atentamente, o artigo, concluo que o título não faz justiça ao seu conteúdo:

“Concluiu-se que existe um atendimento/acompanhamento mais próximo das populações, o que permite uma intervenção social mais ajustada”; “Foi um reforço importante”; “Antes, as pessoas tinham de esperar um ou dois meses pelo atendimento. Agora, se alguém ligar hoje, daqui a dois dias ou três já é atendida.”; “No início tivemos alguns constrangimentos, até porque é uma forma nova de trabalhar, mas neste momento temos uma rede de parcerias montada e consolidada (…)”

Todos nós estamos conscientes de que não há modelos perfeitos, nem instituições infalíveis. Todavia, sabemos que a execução de planos de ação que visam o combate à pobreza e à exclusão social são mais eficientes quando concebidos e implementados pelos agentes que estão mais próximos das pessoas e que conhecem melhor o território.

Quando, em 2014, tomei conhecimento de que o Ministério da Solidariedade, Emprego e Segurança Social iria implementar doze projetos-piloto, no âmbito da Rede Local de Intervenção Social (RLIS), fiquei satisfeito porque se estava a desenhar um novo modelo de resposta social em Portugal, tendo por base a contratualização com as instituições sociais.

Neste sentido, a instituição que dirijo, Obras Sociais do Pessoal da CM e SM de Viseu, candidatou-se, em 2015, no âmbito do Programa Operacional de Inclusão Social e Emprego (POISE) às Redes Locais de Intervenção Social porque nos identificámos, desde logo, com os objetivos e princípios do programa que assenta numa lógica de intervenção articulada e integrada de entidades com responsabilidade no desenvolvimento da ação social e que visa potenciar uma atuação concertada dos diversos organismos e entidades envolvidas na prossecução do interesse público e promover a implementação de novos mecanismos de atuação e diferentes estratégias de ação em resposta às necessidades sociais.

Estamos há menos de um ano no terreno, no concelho de Viseu, e os números falam por si: Atendimentos Sociais -1137; Acompanhamentos – 943; Acordos de Intensão Social – 205; Beneficiários Abrangidos -1852. 

Embora o financiamento decorra das metas e objetivos propostos em sede de candidatura, a “folha de Excel”, não é, definitivamente, o nosso roadmap. O nosso foco são as pessoas, as famílias e as suas necessidades.

O que mais valorizamos, porque todos os dias o vivenciamos, é a empatia criada, no dia-a-ida, entre a equipa técnica e as pessoas que recorrem ao Serviço de Atendimento e Acompanhamento Social (SAAS).

Se é verdade que não temos soluções mágicas nem a resposta que, por vezes, é esperada, é igualmente verdade que ninguém deixa de ser atendido e encaminhado para a entidade que melhor solução apresente, naquele momento, para aquela pessoa ou família, com uma dificuldade concreta que foi devidamente identificada e avaliada.

Neste sentido, apraz-nos registar que a colaboração estabelecida com as diversas entidades, que localmente prestam serviços no âmbito da ação social, tem sido muito profícua. Um sinal claro da existência de uma rede social forte, articulada e empenhada no apoio a quem dele, num determinado momento da sua vida, possa necessitar. A todos os parceiros, muito bem-hajam! Um sublinhado também para as responsabilidades de coordenação e monitorização por parte do Instituto da Segurança Social, ainda que nem sempre estejamos em uníssono, temos tido um relacionamento interinstitucional de excelência.

Logicamente, este é um processo em construção, progressivo e que obriga a uma aprendizagem diária e à discussão e negociação das melhores medidas a tomar. A “máquina”, ainda que burocrática, está hoje muito mais oleada do que ontem e, tenho a certeza absoluta, menos do que estará amanhã.

A RLIS de Viseu tem vindo a “muscular-se” e a capacitar-se, dia após dia, beneficiando de parcerias válidas que procuram, just in time, dar à comunidade o melhor que têm na prossecução da melhoria da qualidade de vida das pessoas, procurando otimizar as oportunidades de segurança, saúde, participação e aprendizagem ao longo da vida.

Há, de facto, constrangimentos orçamentais que poderão ser colmatados, caso os decisores políticos acreditem neste modelo de intervenção, contribuam para que seja melhorado e não o transformem, como referiu Manuel Lemos, presidente da União das Misericórdias Portuguesa, num “nado-morto”.

Deixo, desde já, um apelo para que não se desperdice o trabalho desenvolvido durante os três anos contratualizados, ainda que os moldes da resposta possam ser revistos e melhorados.

 

 

(foto DR)