REFEIÇÕES ESCOLARES

por José Carreira | 2017.10.26 - 12:24

 

Na qualidade de aluno comi muitas vezes em cantinas escolares e nelas me habituei à diversidade e qualidade dos alimentos e à simpatia das senhoras que nos serviam como se fossemos seus filhos.

Durante muitos anos, acompanhei as refeições das crianças das Obras Sociais. Era um gosto vê-los saborear a comida confeccionada pela saudosa dona Salete, uma cozinheira de mão cheia que só podia fazer o melhor que sabia para os “seus” meninos…

As refeições, tipicamente mediterrânicas, eram variadas e eram utilizados, essencialmente, produtos frescos e locais. Além da qualidade dos produtos, que permitiam fazer pratos equilibrados em termos nutricionais e igualmente saborosos, era estimulada a economia local, os pequenos comerciantes, os produtores locais e os produtos endógenos.

A opção política pela concessão das cantinas das escolas a privados tem acarretado uma degradação da qualidade das refeições, há cerca de uma década.

As instituições sociais não tendo capacidade competitiva para se abalançarem nos concursos públicos, com cadernos de encargos surreais, têm sido obrigadas a desmantelar os seus refeitórios ou a concessionar esses serviços.

É inimaginável, mas reflete a realidade, pura e dura, as grandes empresas fornecem refeições a preços mais baixos do que as nossas organizações as conseguem produzir para os nossos utentes…

Esmagaram-se os preços; ganharam-se os concursos, liquidaram-se os refeitórios e cantinas; piorou a qualidade dos serviços prestados; despediram-se colaboradores; agravou-se o já ténue equilíbrio financeiro das instituições do terceiro setor…

Só quando, passados alguns anos, a nossa comunidade é confrontada com os problemas é que surgem as queixas e os desabafos: “Agora é que dou conta de como era boa a comida e a preocupação que tinham em que os nossos filhos comessem…

Ainda assim, exigimos, todos os dias, o melhor para as nossas crianças. Já houve dias difíceis, nos últimos anos estamos satisfeitos com a qualidade e quantidade das refeições. Não abdicamos do controlo diário e exigimos o melhor, uma tarefa facilitada pelo fato de não termos, lamentavelmente, muitas crianças.

Não me custa acreditar que, em muitos locais, a qualidade seja duvidosa e a quantidade desajustada.

São estas opções que corroem as instituições locais e impossibilitam a continuidade dos propalados serviços de proximidade. De opção em opção, temo que estejamos no trilho da extinção com as inevitáveis consequências para e na comunidade que servimos solidariamente há décadas.

A cegueira centralista amarra-nos a esta visão fatalista.