Primeiro, o Grande Prémio de Anadia foi pelo Caramulo até Tondela

por Nuno Rosmaninho | 2019.07.30 - 10:51

O Grande Prémio de Anadia decorreu no dia 3 de Agosto de 1941, dividiu-se em duas etapas e contou com catorze ciclistas. A primeira partida foi dada às 13h30. Os atletas dirigiram-se para Águeda, perto da qual o sportinguista Raposo e o portista Albuquerque tentaram, sem sucesso, escapar do pelotão.

– Está ali a ver aquele ciclista mais velho? – perguntou o Anastácio.

Disse-lhe que sim, que é o que se costuma responder nestes casos. E ele redarguiu com uma notícia feliz:

– É o Pires. Corre a título individual. É o único a fazê-lo.

– O Manuel Alves Pires, da Pedralva?

– É o que me parece, embora seja tratado apenas por Manuel Pires.

Achei que isto me obrigava a um maior grau de objectividade.

– Sendo assim, vou seguir o que escreve o jornalista de Coimbra.

Entre Águeda «e Bolfiar, já em plenos contrafortes da serra do Caramulo, Império dos Santos, seguido do encarnado Noé de Almeida, tentam uma sortida»…

Sortida com o, senhor Escrivão?

– É o que está no jornal. Dizia eu que Império dos Santos e Noé de Almeida «tentam uma sortida e conseguem, num esforço lindo que espevita a gana dos restantes, distanciar-se uma centena de metros. Nesta altura a marcha começa a tornar-se mais interessante, com um andamento mais veloz e várias tentativas a que todos respondem.»

– Prossiga. Estamos a chegar à parte realmente inclinada do Caramulo. Vamos ver quem tem pernas.

E eu prossegui. «Antes de entrarmos propriamente na subida da montanha, os rapazes das camisolas coloridas já se tinham fragmentado em três pelotões. Martins, Aniceto e Raposo vão à frente a ganhar terreno… O primeiro credita-se como um esplêndido trepador e os segundos tiveram que desarmar quando ainda faltavam dez quilómetros para alcançar o ponto culminante. O segundo pelotão vinha a ser chefiado por Fernandes e o terceiro por Albuquerque que tem vindo a queixar-se de fortes dores de estômago. David Silva, o melhor da região, também se atrasa por via de dores que o apoquentam. No entanto, a mala-pata passa e eles não desistem…

Martins atravessou a meta da montanha com cinco minutos de avanço dos adversários e entra na descida como uma flecha.

O nosso carro – escreve o jornalista de A Voz Desprtiva – vê-se em apuros para alcançar o terrível fugitivo e só o consegue já próximo da vila términus da primeira parte da prova. O diabo vermelho atirou-se para a descida sem amor ao pêlo, chegando a Tondela com cerca de sete minutos de vantagem.

A meta estava montada no campo de jogos desta vila, no qual tinha sido improvisada uma pista.

Nas estradas do percurso, de vistas panorâmicas grandes e encantadoras, foram os corredores muito saudados pela numerosa gente que se juntava na berma das estradas. Todavia o Caramulo levou a palma às outras localidades do trajecto. Foguetes e uma multidão ruidosa vitoriando os homens da caravana, foi a nota alegre desta estância climatérica.

A ordem de chegada a Tondela foi a seguinte:

1.º Martins (Benfica) com 2 h. 28 m. e 50 s.

2.º Fernandes (Porto) com 2 h. 35 m.  e 10 s.

3.º Albuquerque (Sporting) com 2 h. 36 m. e 5 s.

4.º Raposo (Porto).

5.º Pires (individual).

6.º Cardoso (Porto).

7.º Aniceto (Porto).

8.º Gomes da Silva (Sangalhos).

9.º Império (Porto).

10.º Simões (Sangalhos).

11.º Paredes (Porto).

12.º Herdeiro (Sangalhos).

13.º David Silva (Sangalhos).»

Agora, resumiu o Anastácio, é preciso regressar a Anadia.

Nuno Rosmaninho