Paixão pela Educação

por Alexandre Borges | 2016.05.29 - 21:09

 

Nos últimos tempos temos assistido a uma troca de palavras no éter comunicacional a propósito da intenção do Ministro da Educação deixar de financiar turmas em escolas privadas que, em regime de complementaridade, supriam falhas de oferta de ensino em determinadas localidades. Digo palavras e não razões porque, até agora, não as descortino aos que defendem o inadmissível apoio estatal a empresas que aparentemente sem esse mesmo apoio não são viáveis. Ao ver os argumentos utilizados só me apetece sugerir que o ensino da filosofia nestes colégios seja reforçado, tão fracas as razões aludidas para nos convencer a todos a financiar uma escol(h)a de tão poucos.

Considera o Ministério que nos locais onde a rede pública existe, e tem condições para assegurar esse serviço fundamental, deve ser o próprio Estado a administrá-lo directamente.  Não poderia concordar mais com esta intenção e espero que o Governo não claudique às pressões.

O argumento da liberdade de escolha é falso e um acto de desespero. Como se houvesse escolas privadas espalhadas pelo país para possibilitar a todos os cidadãos escolher entre público e privado. Ou a escolha financiada pelo Estado é só para alguns cidadãos?

O Estado deve assegurar a todos os portugueses uma educação de qualidade e livre de barreiras ideológicas ou de fé. Deve-o fazer para assegurar a pluralidade de pensamento e por ética republicana. Não pode, a não ser por impossibilidade própria – e deve trabalhar para que nos casos existentes isso seja ultrapassado – financiar colégios onde há doutrinas predilectas de ideologia ou de fé.

A República Portuguesa é por definição laica e essa laicidade é já bastante frágil para ser a própria a financiar o contrário do que é constitucionalmente obrigada a defender.

Ver o PSD e o CDS, os campeões da austeridade e dos “cortes nas gorduras do Estado”, defender o financiamento redundante a uns quantos privilegiados é apenas e só a constatação da ausência de seriedade que se instalou nalguns dirigentes destes partidos.  Esta paixão momentânea e assolapada, certamente de inspiração divina, reforça apenas o carácter de pacotilha dos que se arvoram em liberais, mas desde que as contas sejam pagas por todos. Já no “saudável” sistema bancário a regra utilizada foi a mesma – lucros particulares, contas públicas.

Pergunto qual seria o posicionamento destes partidos se, por hipótese, o PCP (ou outro “perigoso extremismo”) fosse proprietário de escolas com contrato de associação?

Natural de Canas de Senhorim. Licenciado em geologia pela UC.
Virulentamente bombeiro.
Gosta de discussões cordiais, de vaguear pelo mundo munido de auscultadores.

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