OS VELHOS FORNOS COMUNAIS

por Alberto Correia | 2017.04.28 - 23:21

Sernancelhe. Carregal. Tabosa. Pequeno forno comunal implantado no coração da aldeia próximo de velha fonte de chafurdo. O forno propriamente dito mantém-se, servindo o povo, já raramente cozendo pão de centeio, a não ser para qualquer saudosa freguesa. Arde ainda, o dia inteiro, à volta da Festa de S. Brás, no início de Fevereiro ou na véspera da Páscoa quando ali se cozem os estranhos e famosos “fálgaros”, o tradicional manjar conventual feito de trigo, ovos e queijo que velhas memórias ligam às antigas monjas Bernardas do Mosteiro de Nossa Senhora da Assunção da Tabosa.

Desapareceu esta belíssima arquitectura de granito com uma inconfundível patine do tempo que a substituiu por uma pouco interessante arquitectura de blocos caiados.

 

 

 

OS VELHOS FORNOS COMUNAIS

 

No velho casco das aldeias da Beira os fornos comunais eram um privilegiado lugar da sociabilidade aldeã, indo de par, senão suplantando-os, os lugares da taberna ou do soto, designação familiar das velhas lojas de pano e miudezas, no geral abertas para o Adro, onde, às vezes, com a velha mala do Correio se esperava com ânsia a carta de Lisboa ou do Brasil, que as notícias de França chegaram já por outros caminhos. Mais feminino, o encontro, aí, no forno como na fonte, ambos correio de notícias e vozes do universo da paróquia, ambos lugares de poética e de sonho, a água cantando, na fonte, como o coração das moças, no forno a quentura do borralho alourando o volume denso do pão de centeio, esse pão alvo com que me criei, “pão partido em pequeninos”, na lição de Manuel Bernardes, sobre a mesa de lavrador, tantas vezes repartido em fatias que saciavam sacola de pobre.

Raramente arrefeciam as paredes do forno das aldeias, límpidas e quentes como úteros maternos e eu lembro a roda-viva do forneiro, haja quem lhe erga um monumento, mas não, não precisam de monumento, que esses bastariam que ficassem erguidos, os fornos comunais onde se gastaram suas vidas e duras que foram, carregos de urze, de giesta, franças de pinho, de longe, da serra e as caminhadas até à casa das freguesas, que tempo era de amassar, de tender, de carregar sobre a cabeça o tabuleiro até ao tendal. E depois uma cruz assinalando a posse, ou a marca dos dedos de uma mão ou qualquer outra marca de posse, como essa escrita dos pedreiros antigos e essa entrada triunfal sobre a pá de ferro, ânsias das mulheres até a mão tocar o lar quente do pão como se fosse inocente corpo de um filho que acabara de nascer.

Fornos do povo, lhe chamávamos, não que lhe pertencessem, ao povo, de direito, senão de uso, mercê de direitos antigos que deveriam pagar-se a seus directos senhores, nos últimos tempos quando já morgados não havia, a um mais abonado senhor, quando não à Irmandade do Santíssimo, ou à Irmandade das Almas, ou a qualquer outra Confraria devota, poia, normalmente se designava este pagamento em natureza, um pão grande por cada fornada.

Foi assim, por mil anos.

Duas linhas de história têm bastado aos homens para escrever esta epopeia. E talvez merecessem mais, os forneiros. Que lhes conservassem a memória, essas pedras vivas de uma arqueologia de saudade e sentimento. De grandeza sempre. Por minha parte reservo, comovido, sentimentos assim para com os dois forneiros da minha terra que cozeram o pão com que me criei.

 

(Foto de Alberto Correia obtida cerca de 1980)