Opinião Pública

por Norberto Pires | 2018.08.04 - 19:55

O momento atual, as dificuldades que vivemos, implica a capacidade de dialogar e criar pontes com várias sensibilidades políticas. Como sempre disse, o que há a fazer em Coimbra e no país exige capacidade de juntar pessoas de várias competências, para que o esforço seja consequente, partilhado e focado no interesse nacional.

Lamentavelmente, muitos estão especialmente focados nos seus interesses pessoais e de pequeno grupo e promovem o clima de guerrilha que vivemos em Portugal. O foco em ideias e na capacidade de as realizar, definindo políticas públicas eficazes que nos permitam recuperar o atraso relativamente a outros países europeus, fica, por isso, muito diminuído.

Procurei atuar de forma diferente, mesmo quando fui militante de um partido há alguns anos atrás. Mas confesso a minha desilusão com a incapacidade que este tipo de organizações tem de dialogar com outras forças políticas, de apreciar pontos de vista diferentes e incluir, na definição das suas propostas, ou até de equipas de trabalho, pessoas e ideias que não sejam estritamente da sua esfera de ação. Confesso também a minha total falta de paciência para compreender e aturar as lógicas de “nós, os bons” e “eles, os maus” que constitui o raciocínio básico de grande parte dos “debates” nesses ambientes.

O afastamento dos cidadãos da vida pública, a incapacidade de os mobilizar (veja-se a crescente falta de participação em eleições), mesmo para causas nacionais, a desconfiança que revelam sobre as motivações e boas razões dos que se disponibilizam para a ação política são consequências de tudo isto.

Ainda esta semana, num artigo muito interessante no jornal Público, Nuno Garoupa, um dos poucos pensadores livres deste país, defendia que a justificação estrutural da nossa estagnação como país e como economia era a “nossa incapacidade de dotar as políticas públicas da qualidade necessária para a convergência real”. E acrescentava que “a captura do Estado por grupos de interesse induz um desenho institucional fundamentalmente extrativo e pouco inclusivo, o que atrasa sistematicamente melhorias significativas na qualidade das políticas públicas. Metaforicamente, o comboio chega sempre atrasado à estação seguinte e nunca recupera do tempo perdido. E os restantes países não esperam pelo nosso “catch up”. Politicamente, como já se vai notando, o “otimismo que faz bem a Portugal” dilui-se pouco a pouco no “fez-se o que é possível””.

Concordo com o Nuno Garoupa sobre a importância da má qualidade das políticas públicas na nossa “sina” como país. Faz-me aliás lembrar um especialista da OCDE que dizia, sobre o estado da nossa educação, “please hurry and make the changes. The world will not wait for you to catch up”. E isso até reforça o exemplo dado pelo Nuno no artigo: o país como um comboio que chega sempre atrasado à estação e se mostra incapaz de recuperar o tempo perdido. No entanto, não é essa a razão do nosso sistemático atraso. Na verdade, tudo isso é uma consequência daquilo que verdadeiramente nos atrasa e impede de recuperar: a ausência de cultura de avaliação, responsabilização e participação. Sem essa cultura, sem essa forma de estar na vida, sem a capacidade de perceber, sem clubismos partidários bacocos, que temos de ser capazes de dialogar e estabelecer metas comuns que estão para além das ideologias, nada funciona e andamos, uns quantos, a falar para ninguém ou para muito poucos. E a ser cobardemente apontados a dedo porque falamos com este e com aquele, fomos a um evento que na sua cabeça não era suposto, ou, num determinado aspeto, concordamos com alguém que, por acaso, não está ideologicamente alinhado connosco. Aliás, basta olhar para a total ausência de opinião pública e de capacidade de intervenção para perceber essa enorme falha que não conseguimos resolver desde o 25 de Abril de 1974: a liberdade não foi acompanhada de uma cultura de exigência, avaliação, responsabilização e participação. Sendo, portanto, um problema cultural isso significa que teremos mais de que uma nova década perdida, serão várias e cada vez mais difíceis. A consequência é a ausência de reformas estruturais: as alterações que são necessárias deixam de ter suporte na população, que não as exige e não percebe a sua urgência.

Portanto, tudo isto parece armadilhado. Como se resolve esse problema? Não há soluções de curto-prazo e são, de facto, necessárias políticas públicas eficazes. No entanto, como elas não têm suporte da população nunca se realizam na totalidade. Ou por outra, até acabam por se realizar, mas com 20 anos de atraso. Por isso eu tinha uma grande esperança no período da bancarrota. Era uma oportunidade para promover alterações participadas pela população, a qual esteve disponível durante um muito curto período de tempo. Mas até isso falhou.

 

(Publicado no Diário As Beiras de 4 de Agosto de 2018)

Professor Associado da Universidade de Coimbra foi Presidente do Conselho de Administração do Coimbra Inovação Parque e Membro do Conselho Nacional para a Ciência e Tecnologia. Possui Mestrado em Física Tecnológica e Doutoramento em Robótica e Automação pela Universidade de Coimbra. É o Editor do jornal "Robótica". Autor de cinco livros na área da robótica e automação tendo publicado mais de 150 artigos científicos e tecnológicos.

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