OBESIDADE INFANTIL: EPIDEMIA GLOBAL EM PORTUGAL

por José Carreira | 2017.06.26 - 10:00

 

 

A obesidade é um assunto que me preocupa bastante há muitos anos, desde logo, porque, enquanto criança, sempre fui gordo e, há alguns anos a esta parte, voltei ao sobrepeso. Os 4,450kg, pesados à nascença, talvez já o indiciassem, a julgar pela exclamação da parteira: “Este já vem criado!”.

Até aos 10 anos sempre tive peso a mais, apesar de algumas tentativas goradas para inverter essa evolução. Ser gordo e usar óculos nem sempre foi fácil… Algo a que os pais devem estar atentos, muitas das crianças obesas são vítimas de bullying, confrontado-se pcom um duplo problema: a rejeição do seu corpo e baixa auto-estima e dificuldades de socialização com os pares. Este quadro pode levar à depressão e, eventualmente, ao isolamento: “A maioria dos miúdos que chega à consulta de obesidade infantil precisa de psicólogos. Muitos comem muito porque estão deprimidos e mais deprimidos ficam ao perceber que se tornam obesos.” [1]

A prevalência de pré-obesidade e obesidade em crianças e adolescentes tem vindo a aumentar a nível mundial a um ritmo alarmante, sobretudo nos países desenvolvidos e em alguns segmentos de países em desenvolvimento.

Sendo a dieta mediterrânica considerada uma das melhores do mundo, Portugal não deveria ser o 5.º país da Europa a 27 com maior prevalência de obesidade total, atrás da Grécia, Macedónia, Eslovénia e Croácia.

O inquérito HBSC-Health Behaviour in School-Aged Children[2] revela, um bom indicador, que as crianças e jovens portugueses estão a consumir menos doces e refrigerantes. Um passo importante porque o açúcar é um inimigo poderoso: “O açúcar é mais viciante do que a cocaína.” (conclusão de um estudo científico realizado pelo Instituto Nacional da Saúde e Investigação Médica de França – INSERM). Já os indicadores de consumo de vegetais e frutas, bem como da prática de atividade física regular estão aquém do desejável…

As origens da obesidade são múltiplas e a identificação dos fatores associados ao seu desenvolvimento ainda não estarão totalmente identificados, mas será inquestionável considerar que as modificações da alimentação e a escassa atividade física são fatores determinantes no que concerne à emergência da obesidade, um flagelo de saúde publica mundial. Esta patologia, a curto e a médio prazo, será responsável por múltiplas e graves repercussões. Uma boa parte das crianças e jovens não gosta da comida das cantinas e opta por investir numa fatia de piza ou hambúrguer, regado a refrigerante, no estabelecimento comercial nas imediações da sua escola. Arrisco-me a afirmar que a qualidade da comida nas escolas do 1.º ciclo tem piorado, o resultado de uma política de contratação pública que arrasou com as cantinas “familiares” que faliram, incapazes de competir, com os grandes grupos económicos.

As escolas são instituições chave para a urgente e indispensável reeducação alimentar das famílias, mas terão que ser exemplares na promoção de uma alimentação saudável dos alunos, investindo em ementas ricas nutricionalmente e erradicando os alimentos desaconselhados.

Urge a implementação de estratégias de prevenção e a aposta no diagnóstico precoce e intervenção atempada.

Dois bons exemplos do caminho a seguir são o Projeto Heróis da Fruta[3] e Minuto Azul[4].

A Organização Mundial de Saúde alerta: “Quatro em cada cinco jovens que se tornam obesos continuarão a ter problemas de peso em adultos.” (WHO European Childhood Obesity Surveillance Initiative)[5]

 

 

 

[1] Declarações de Júlia Galhardo (responsável pela consulta de obesidade no Hospital Dona Estefânia em Lisboa, à Revista E, do Expresso de 27 de maio de 2017.

[2] http://www.hbsc.org

[3] http://www.heroisdafruta.com

[4] https://www.sns.gov.pt/wp-content/uploads/2016/10/MINUTO-AZUL_Healhy-Food-on-the-Radio_KEY-MESSAGES_EEB_CMViseu_IMPSP_TSF_2016_10_12.pdf

[5] http://www.euro.who.int/en/health-topics/disease-prevention/nutrition/activities/monitoring-and-surveillance/who-european-childhood-obesity-surveillance-initiative-cosi