Incêndios florestais

por Nuno Rebocho | 2017.08.17 - 20:55

A “enxurrada” de incêndios florestais em Portugal não se apaga com demagogias e populismos, nem com as toleimas do costume e que fizeram a sua época. Sabe-se hoje, de ciência certa, que os incêndios não refletem a resistência dos pastores contra os latifundiários do eucalipto e do pinheiro (ao contrário dos anos 40 do século passado, os “lobos” que uivam – caso os haja – são outros) e que as matas exploradas diretamente pela indústria de celuloses são as únicas que não ardem: porque estão limpas, ordenadas, tratadas com rigor e protegidas.

Sabe-se que a larga maioria dos incêndios florestais espoletam de noite, o que (desde logo) sugere que têm origem criminosa. E aí surgem, imediatamente, interrogações: se os incêndios causam mortes, os incendiários são homicidas – porque não se tratam como tal? Porque é que a legislação punitiva não é adequadamente corrigida? Que espécie de falso humanismo é este? Haverá um humanismo desumano? Porque é que facilmente se libertam presumíveis incendiários após as agruras das épocas de incêndios?

Sabe-se que existem graves falhas no sistema de combate ao fogo: os bombeiros estão impreparados; perdeu-se o escol dos antigos comandantes que dominavam tecnicamente o combate e que os novos comandantes não “herdaram” essa ciência, chegando mesmo a desconhecer os terrenos aonde são chamados a intervir; não há coordenação entre os meios aéreos e o combate pedestre (recorde-se que, há alguns anos, quando as aeronaves despejavam as caldas retardantes , os bombeiros fugiam a sete pés para não levarem em cima essa carga).

No momento atual, parece óbvio, o combate às chamas exige uma ocupação que não se coaduna com voluntarismos. Por isso, pergunta-se: porque não alargar, de modo sensível, o profissionalismo dos bombeiros? Cantam-se loas sobre intenções de reduzir desemprego e não se empregam bombeiros? Quando milhões de contos ardem nas florestas, tem lógica afirmar-se que não há dinheiro para profissionalizar bombeiros?

Os meios informáticos de prevenção e combate (SIRESP, etc.) estão desatualizados, inoperantes, falham nos momentos cruciais… e os senhores políticos dão-se ao desplante de sacudir a água do capote, de mostrar condoídas lágrimas de crocodilo diante dos écrans de televisão, a modos do “tout va bien, madame la marquise”!!!! É sórdido.

Perante tudo o que se conhece, assiste-se a um sinistro passa-culpas, em que ninguém quer assumir responsabilidades! Chega-se ao ponto de uma desgraçada ministra considerar que o ministro (do seu próprio partido) que há anos se demitiu em consequência do desastre de Castelo de Paiva… fugiu às suas responsabilidades. Se a ilustre não entende as repercussões das suas palavras, pode ser ministra? Se ela conclui que a coerência é um chimpanzé (dando de barato que o chimpanzé não tenha coerência), não há quem lhe indique a porta da rua?

São estas questões periféricas à que, objetivamente, é de fundo: está por fazer a reforma florestal em Portugal. Há 40 anos que dela (apenas) se fala, enchendo volumes de discursos e promessas sempre adiadas, por uma razão ou outra. Neste domínio, não houve – até à data – um pensamento que a defrontasse, que neste aspeto rivalizasse com o que foram (cada qual no seu setor) António Barreto, Maldonado Gonelha, António Arnault ou Leonor Beleza. As matas continuam por ser ordenadas, limpas, rasgadas por contrafogos e pontos de água; continuam por ser equilibradas as matas facilmente incendiáveis com as resistentes a incêndios; continuam por ser limitadas as matas de pinheiro e de eucalipto; continua por se proteger a mata endógena; por se rasgar as matas florestais com estradões; por afastar os cobertos vegetais dos povoados e dos acessos, etc. Invocam-se sempre outras prioridades (como se a floresta portuguesa e o ordenamento do território não fossem prioridades); invoca-se a falta de verba (como se os incêndios não consumissem inutilmente verbas muitíssimo superiores). Há povoados ameaçados. Há vidas ameaçadas. Há regiões devastadas e destruídas. E sempre que há trovões (e enquanto há trovões), os senhores políticos gritam por “Santa Bárbara”, rasgam os peitilhos e clamam “rakka”!

A seu modo, por si só, os incêndios vão fazendo por si o que os senhores políticos são incapazes de fazer – a sua reforma florestal! A contragosto… Com a cumplicidade (ou não) dos fogos postos. Ou seja, e resumidamente: o fogo faz o seu dever, os senhores políticos é que não. E o povo português sofre – com a perda de bens e de vidas. O conceito de que a mata é o “mealheiro do povo” há muito que se foi. Por obra e graça dos senhores políticos, a árvore transformou-se agora no “caixão” do povo. Pelo menos, enquanto as labaredas que roubaram vidas da população (como em Pedrogão Grande) não queimarem também algum senhor político…

 

(foto PN)