Garraiada p´ra que te quero?

por Alexandra Azambuja | 2018.03.19 - 11:07

A abolição das garraiadas na Queima das Fitas de Coimbra é um enorme motivo de alegria pessoal.

 

Sou convictamente contra touradas há décadas e tudo o que lhe esteja ligado – sendo que uma garraiada é uma encenação de tourada. Não há sofrimento do animal? Talvez, mas há o incentivo e o louvor ao espectáculo da tourada – deprimente, medieval e próprio de um país que se recusa a avançar no seu tempo.
A tradição é em si própria uma coisa boa? Queimar suspeitas de bruxaria na fogueira foi tradição durante muito tempo e isso não era uma coisa boa.
A legalidade? O fascismo foi “legal” durante décadas em Portugal, ou o apartheid na África do Sul e isso não lhes garantiu nenhum tipo de legitimação ética.
A resistência à mudança existe? Existe e faz parte do próprio processo de mudança.
A tourada é uma arte? Quando o sofrimento inútil está envolvido, não é possível falar de Arte.
A tourada está condenada em Portugal há anos. Os espectadores diminuem, as receitas também, as principais marcas recusam estar associadas a uma “tradição” de violência e sofrimento inúteis.
Como em todos os processos de mudança, a História leva o seu tempo a fazer o seu percurso. Quem poderia saber que Mandela esperaria 27 anos para ver o mundo dar-lhe razão, ou que 400 quilómetros da Marcha de Sal fariam a diferença para Gandhi? A História guardou o nome dos que estiveram do lado da violência, ou dos que se lhe opuseram?
Os meus sinceros parabéns aos estudantes de Coimbra que conseguiram a proeza de trazer este assunto para a actualidade. E mesmo que a garraiada ocorra, há uma coisa que não muda: o mundo pula e avança, mesmo quando alguns teimam em não ver a mudança.
É só uma questão de tempo…

 

(Foto DR)