Crise de valores

por Nuno Rosmaninho | 2020.01.05 - 14:25

Enquanto na Curia se corriam as sessenta voltas ao parque, o público interessado na obra de Mário Gonçalves Viana festejava o aparecimento de A Psicologia da Amizade, livro que praticava o elogio deste nobre sentimento para melhor depreciar um presente considerado egoísta e dar brilho a um passado de ouro.

Já então se celebravam os livros que se lêem de um fôlego e se lamentava a crise do presente. No meio de uma guerra mundial, o autor da nota bibliográfica, Luís de Oliveira Guimarães, supunha que «a secura do sentimento e a esterilidade do coração são os dois grandes males da nossa época». Só reparei nestas palavras, impressas na revista semanal Vida Mundial Ilustrada, porque me lembro que António Sérgio e Belisário Pimenta trocaram correspondência sobre a psicologia do medo em 1942. Em todas as épocas há gente disposta a acreditar que vive numa crise de valores. Na verdade, sobre a percepção constante da crise, mudam agitadamente os valores que lhe dão sustento.

Leio também, facto que muito ameniza a perturbação, que o escritor e crítico João Gaspar Simões foi visto em fato de banho na praia de Cascais. Certa vez, Guerra Junqueiro deu uma resposta mordaz quando encontrou uma pulga numa hospedaria. Maria Amália Vaz de Carvalho produziu um comentário vivíssimo numa conversa com Eça de Queirós. Ora, confrontando a tal crise de valores com estes episódios anedóticas, sou levado a concluir que, numa mesma página, as ideias perturbantes se curam com sulfamidas de leveza. Aliás, ao verificar que também Luís Forjaz Trigueiros se queixa da falta de simpatia com que alguns escritores caminham em direcção à obra dos seus correligionários, temo descobrir que alguém escreveu um ensaio sobre A Psicologia da Simpatia, seguido de A Psicologia da Ira e A Psicologia do Triunfo, uma instrutiva trilogia sobre a natureza humana e os seus lugares-comuns.

Se houvesse uma maneira de juntar o profundo ao superficial, sem querer a glória do difícil nem o sucesso da moda, o escritor faria acolher o vasto no simples. Se lhe fosse possível atender ao presente sem se deixar arrastar pelas vacuidades que corroem os dias, poderia pôr os ecos do mundo na aldeia.

No Verão de 1943, Aquilino Ribeiro preparava-se justamente para oferecer um novo romance. A guerra, que ia da Europa ao Japão, reforçava a escassez e a miséria dos beirões e era, para alguns, uma oportunidade para se remediarem ou enriquecerem. Intitulava-se Volfrâmio. Depois do seminário, da acção republicana, da prisão e dos exílios, Aquilino Ribeiro chegava a mestre sem precisar de subjectivismos nem da psicologia das massas.

(Caricatura de Santana na Vida Mundial Ilustrada de 5 de Agosto de 1943.)

Nuno Rosmaninho