Claro que gostamos sempre de saber que pela primeira vez, um Executivo municipal viseense entregou a chave da cidade a um cidadão…

por Filomena Pires | 2016.07.12 - 11:54

Cada vez mais a Informação que recebemos do Senhor Presidente, que é obrigatória por Lei, chega tarde. Não me refiro a qualquer atraso no envio pelos serviços, esses são eficientíssimos e quero felicitá-los pelo seu excelente trabalho, é que o seu conteúdo vem transcrito diariamente nos órgãos de informação locais e muitas vezes nos nacionais, de maneira que, regra geral, acontece como a pescada…

Claro que gostamos sempre de saber que pela primeira vez, um Executivo municipal viseense entregou a chave da cidade a um cidadão, com a novidade de ser estrangeiro, da Costa do Marfim, onde o feliz contemplado é Primeiro-Ministro, não se sabe até quando, pela rapidez com que se sucedem os golpes de estado naquela região. O que nos cria um problema grave. Se o senhor tiver de fugir para outro lugar que não Portugal ou até se sucumbir, lá teremos de mudar a fechadura.

Também parece que estamos a subir nas nossas pretensões territoriais. Para além da assumida ambição de cidade região, passamos agora a querer ser “cidade país”, substituindo-nos aos órgãos do Estado na diplomacia económica e nas relações internacionais.

Sendo que, estas diligências, como é dito, vão contribuir muito e cito: “para o crescimento da Costa do Marfim, ao nível das tecnologias de comunicação, do agroalimentar, da saúde e da construção civil”. E eu a pensar que era para beneficiar a populaça da cidade região. Afinal o benefício é só para as nossas “empresas âncora”, algumas que nem no concelho, nem em Portugal pagam os seus impostos.

Há também agora na propaganda municipal uma verdadeira obsessão pelos números. Tudo é quantificável, para que não falte rigor no que é transmitido. Só que às vezes o excesso de zelo dá errado, como no caso da atribuição das 18 novas habitações no Centro Histórico, aquelas cujo Regulamento contém as irregularidades que aqui denunciei aquando da sua discussão. Pois se foram recebidas 34 candidaturas, dezanove das quais aprovadas em definitivo e 19 condicionalmente, é só fazer as contas, 19 mais 19 são 38, logo, mais que as 34 recebidas. Mas também esta contabilidade criativa há-de ter uma explicação plausível.

A Câmara viu aprovada a sua candidatura ao PEDU, do Portugal 20/20, parabéns. Visa a reabilitação urbana, inclusão de comunidades socialmente desfavorecidas que residem em bairros sociais, promoção da mobilidade urbana. Todos estes referenciais estratégicos constam do próprio PEDU como áreas obrigatórias de candidatura. Quanto ao financiamento, sendo significativo, 11 milhões de fundos comunitários, mesmo assim não fica acima de muitas outras cidades médias que também que também se candidataram e foram contempladas. Fico curiosa por conhecer o Plano de Reabilitação do Bairro Municipal, ao que suponho a contemplar com estes fundos, reabilitação que passou a ser uma prioridade do município, depois de ter sido uma pertinente e justa reclamação da CDU.

É como a louvável “campanha para desincentivar o uso do automóvel no Centro Histórico” entre 1 de Julho e 30 de Setembro. Já faz parte da minha sina nesta Assembleia, trazer propostas que o Senhor Presidente vitupera ou desvaloriza, mas que depois aparecem, às vezes travestidas, como grandes novidades do executivo. Mesmo estando fresca, por ter sido produzida na última Assembleia, aquando da discussão sobre a concessão do estacionamento, deixo aqui a transcrição integral da minha proposta, que podem encontrar na Acta que hoje votámos. Passo a citar: “Para se atingir o objectivo de menos poluição e pressão automóvel no centro da cidade, é necessário que se implemente um serviço que estimule o estacionamento dos veículos vindos do exterior, na Avenida Europa, na Radial de Santiago, na Zona do Politécnico/Quartel, nas zonas que antecedem o Palácio do Gelo e outras (Feira de S. Mateus, Feira Semanal) que um estudo global devia equacionar. À Câmara competiria garantir a segurança dos veículos e o transporte para o centro da cidade, mediante cobrança de um bilhete aos auto-transportados.” Fim de citação.

É evidente que esta campanha, mais uma vez esquece os moradores e é contraditória com a pretensão expressa pela Câmara na proposta sobre a concessão do estacionamento, de construir mais parques de estacionamento no Centro Histórico. Estou esperançada que o que então formulei como solução fará o seu caminho.

Plano Viseu Seguro, só posso estar de acordo com as medidas anunciadas. Sobretudo fiquei impressionada, lá está, com a profusão e precisão dos números. 140 sinais luminosos verticais, 296 marcadores luminosos junto de todas as passadeiras, que são 69 mais 40, 13 escolas mais 12, 11 rotundas, só na cidade, 12 sinais luminosos intermitentes, 4 radares tricolores, eu sei cá, até já me perdi. Com tantos números, vejam lá se não se esquecem de melhorar o atravessamento junto ao Matadouro velho, onde muitas vezes os motoristas continuam a largar as crianças que vêm da Escola do Mundão, de arranjar os passeios no atravessamento do BCP para o Rossio e do Café Central para a Segurança Social, onde no Inverno são diárias e por vezes graves as quedas, devido ao piso escorregadio ou de sinalizar devidamente a Avenida Europa, onde a polícia faz larga colheita de multas, por só se poder circular ali a 50 km hora.

Saudar o início dos Jardins Efémeros, grande evento criativo e referência cultural da cidade e manifestar a minha estranheza pela sua não inclusão na programação institucional da Câmara, ao nível dos “Tons da Primavera” e daquelas iniciativas com nomes ingleses sobre vinhos que a Câmara compra a empresas de produção de espectáculos.

O “Street Art”, com inclusão de 4 artistas locais, por concurso. Nada mau. Passar de zero a quatro é um salto de gigante. Algumas obras magistrais, sem dúvida, que embelezam recantos da cidade.

Feira de S. Mateus renovada, outra boa notícia. Bons espectáculos prometidos. Melhor organização, mais dias abertos. Uma dúvida, têm mesmo a certeza que é a sexcentésima vigésima quarta edição? Falando com um entendido este diz que esses serão os anos prováveis que distam da sua primeira edição, mas as edições sofreram muitas interrupções e por longos períodos. É só um pormenor. O que importa é chegarmos ao milhão de visitantes. Número redondo e de grande alcance mediático, que irá por certo fazer grandes manchetes nos órgãos de informação.

Também eu acabei por ficar obcecada com os números. Quero por isso comunicar à mesa e aos caros colegas que gastei 1074 palavras, com 6.336 caracteres, já com espaços, em 17 parágrafos e 88 linhas. Letra tamanho 14. Provavelmente também ultrapassei os 10 minutos que me cabiam para a intervenção, pelo que agradeço a benevolência da mesa.

 

Professora de Filosofia, Membro da DORV do PCP, Dirigente do SPRC e Eleita na Assembleia Municipal de Viseu pela CDU

Pub