Aeródromo de Viseu a voar

por Fernando Figueiredo | 2019.06.15 - 09:05

A infraestrutura aeroportuária de Viseu, a quem alguns chamam Aeroporto Internacional da Muna, conhecido por Aeródromo Municipal Gonçalves Lobato tem, nestes últimos anos, ganho importância e afirma-se como factor de crescimento do turismo na cidade e na região, de criação de emprego e de atratividade de investimento.

O espaço tem conhecido várias dinâmicas, esteve prestes a encerrar em 2014, mas com o retomar das ligações Bragança x Viseu x Lisboa x Portimão, em Dezembro de 2015, a par de algum investimento municipal na sua reabilitação o espaço ganhou novo alento. Ao longo dos dois últimos anos consolidou o transporte regular, o transporte não regular, o movimento dos aviões de instrução, a aviação privada, as aeronaves de emergência, os aviões militares e os meios de combate a incêndios.

2019 traz novidades, a este importante equipamento, com o anúncio da criação de um Centro de Formação Aeronáutica. Viseu ganha um espaço de formação de pilotos, assistentes de cabine (assistentes e comissários de bordo) para aviação, técnicos de manutenção e outros profissionais da aviação, devendo os cursos arrancar em Setembro de acordo com o vertido na imprensa nacional.

Naturalmente que nada disto acontece por acaso e muito do que ali está a acontecer resulta da competência e experiência do seu director Paulo Soares. A actual direcção tem sido uma aposta ganha no sentido da afirmação da importância regional do Aeródromo. Se fosse necessário justificar esta afirmação basta estar atento à evolução dos números de voos e movimentos naquela infraestrutrura: Em 2014 – 273; em 2015 – 1537; em 2016 – 9119; em 2017 – 10.976.

As principais razões que têm levado ao aumento da procura por Viseu são a facilidade da infraestrutura e o quase anonimato da chegada, sem as filas de espera dos aeroportos de Lisboa, Porto ou Faro, a facilidade no estacionamento dos pequenos aviões e o preço muito competitivo do combustível para reabastecimento, ao que julgo saber. Parte do êxito dos voos regulares que ligam Viseu explica-se pela rapidez das ligações aéreas ao norte e ao sul, e sobretudo pelo preço dos bilhetes na expectativa que o Governo continue a subsidiar a interioridade pois a não ser assim, dificilmente a operação aérea agora em vigor será sustentável. O aeródromo de Viseu tem condições para evoluir para o próximo patamar se forem realizadas as adaptações e melhorias necessárias como disso prova a recente certificação pela Autoridade Nacional da Aviação Civil para voos noturnos em detrimento de outros como por exemplo Coimbra onde um aeroporto internacional está prometido pelo actual executivo.

Aqui chegados até pelo desafio da escola de formação é necessário perceber que o facto de o aeródromo ter capacidade de aproximação de “non-precision instruments approach” mas não de precisão, obriga a investimento para colmatar esta lacuna, em radares, nas condições actuais da torre de controlo, ILS, etc assim como será necessário adaptar as infraestruturas em hangares, salas de aulas, simuladores, taxiways que permitam melhor escoamento de tráfego, na visão de um leigo por mera comparação com o que de melhor já existe neste campo, no caso Ponte de Sor.

Acresce que na aterragem actualmente entra-se na pista a meio, implica “backtrack” e isso é tempo com a pista ocupada, sendo que não também o que se pode considerar uma pista fácil onde por vezes há “windshear reports” onde os trens dianteiros ou as asas podem sofrer danos na aterragem, sobretudo de sul para norte, salvo melhor opinião de experimentados pilotos e nunca tão só a minha dado que nas vezes que andei de avião foi como passageiro ou paraquedista noutros tempos e melhor idade, o que significa que terá que se construir uma segunda pista maior e melhor alinhada o que tecnicamente é viável e possível.

Ponte de Sor enquanto Aérodromo oferece melhores condições que Viseu e enquanto Academia de Formação é uma das maiores e a melhor equipada da Europa sendo que já dispõe das condições que Viseu para a igualar terá que criar. As instalações de tecnologia de ponta localizadas numa área de 260.000 m² que incluem uma pista de 1800 metros e um ILS dedicado, além do restaurante, alojamento incluído e as zonas comuns, permitem aos cadetes relaxar e confraternizar quando não estão a trabalhar, facilidades que Viseu também terá que dispor para almejar vir a ser no mínimo concorrente nesta valência.

As vantagens de Viseu dispor desta escola são mais que evidentes, da criação de mais e melhor emprego, directos e indirectos, ao maior movimento de aviões e passageiros, ao aumento do consumo e por força disso ao maior retorno económico na região entre muitas outras pelo que não aproveitar desta expectativa agora criada envolvendo autarquia e oposição na prossecução deste objectivo é matar a galinha dos ovos de ouro. É preciso certamente ajustar as prioridades, cativar fatia pesada no orçamento para este investimento e naturalmente assumir escolhas políticas. Das festas o que fica é a memória disso. Do investimento na escola o que pode resultar é colocar Viseu na rota do futuro. Por mim a escolha seria simples… mas o povo também raramente nas urnas acerta nas escolhas!

Fernando Figueiredo

Forjado na Beira Alta, aos 56 anos dá-se por bem casado e aprecia a companhia de três filhos, dois ainda na fase de espalhar magia a toda a hora; em família dá-se como feliz, apenas por o fazerem feliz. Como os duros estudou na Academia Militar, que não é para meninos e na época em que ainda se viajava de pé no comboio mas teve ainda tempo para queimar as pestanas em Gestão de Recursos Humanos. 36 anos “militarizado” vê-se agora na reforma a procurar ser “civilizado”. Em termos profissionais esteve no Iraque e voltou para contar, também esteve em Timor onde bebeu água de coco e visitou Jaco, erro fatal que lhe deixou o coração preso nas valorosas gentes timorenses e nas paisagens únicas do País que ajudou a ver nascer independente já no Séc XXI. Nos tempos livre actualiza o blog mais lido e odiado do delta do Dão, o Viseu Sra da Beira, e ainda escreve textos para jornais mas, poucos o lêem. Homem sem grande preocupação em fazer amigos, escreve o que entende sobre quem não consegue entender. Tais liberdades já lhe valeram um par de processos em tribunal, sem nunca se ter declarado Charlie. A genética deixou-o sem um único cabelo mas está careca de saber que os valores do trabalho, da honestidade e da amizade são o maior legado que o pai lhe deixou. Benfiquista moderado, gosta mesmo é de um bom jantar na companhia dos melhores amigos. Agora como empresário e homem de negócios só aceita de lucro o necessário para viver e distribuir por outros e de comissão a 100% a ética, a responsabilidade e o profissionalismo. É garantidamente mais bonito ao vivo que em foto.

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