A bicicleta e as meninas

por Nuno Rosmaninho | 2019.11.25 - 21:29

E assim o ano de 1942 se foi esvaindo na chuva e no frio que antecede o Natal, na guerra quem assolava o mundo e não ia senão a meio, nas noites longas iluminadas a velas e petróleo, nas terras alagadas, na miséria dos jornaleiros sem trabalho, nas igrejas frigidíssimas durante as missas dominicais, nas brincadeiras descuidadas das crianças ao domingo à tarde, na leitura de jornais por quem tinha dinheiro para os comprar, na rememoração dos anos passados, sobretudo pelos velhos, que conseguiam ver melhor para trás do que para a frente. A melancolia do fim do ano é a melancolia do tempo passado.

Se vivesse em 1942, também faria as minhas rememorações. Isso levar-me-ia talvez à Gazeta de Coimbra de quinta-feira, 25 de Março de 1926, e à «crónica de Paris» intitulada «Educação física» e incompreensivelmente subintitulada «A bicicleta e as meninas». Concebem epígrafe mais poética? Lembra-me a Balada das meninas de bicicleta, de Vinicius de Moraes, mas o conteúdo é muito diferente. Vinicius usa a forma poética e dá encanto às jovens erguidas no selim. R. E., o cronista, prefere a prosa e aspira à ilustração dos leitores.

O assunto, já velho em 1926, continuava a animar um debate de gerações. «Não é raro ouvir repetir frequentemente», escreve R. E., «que a prática do uso da bicicleta não é boa para as meninas; contudo, aqueles que tal dizem não apresentam, como justificação do seu asserto, nenhum argumento.» Sugerem que curva o dorso das donzelas e, sendo um «exercício muito violento», lhes prejudica o coração.

A estas calúnias, o cronista responde que o dorso não curva, nem nos corredores profissionais, porque estes mantêm as costas rectas, mesmo quando descem a cabeça. O guiador baixo evita as cifoses, estende os ossos da coluna, impõe o retesamento dos músculos peitorais, desenvolve a caixa torácica e melhora a respiração. Alguns campeões de ciclismo atingem um volume torácico de cinco e seis litros, medidos no respirómetro. O uso da bicicleta pode ser um remédio para as afecções cardíacas. O coração, submetido a um treino bem medido, fica mais forte e saudável.

Tendo lido dois terços do artigo, comecei a ver que não concedia às meninas a atenção que eu esperava. Era apenas um sóbrio elogio dos efeitos virtuosos da bicicleta na saúde. E eu, que nunca passei dos setenta e dois quilómetros por hora, fiquei a saber que em 1926 se ultrapassa os cem: «A forma de regular o cultivo deste desporto é muito fácil, pois pode ir-se do percurso mais fraco, cinco quilómetros por hora, por exemplo, às maiores acelerações [de] cem quilómetros e mesmo mais. Além disso,» instrui o cronista, «o esforço ainda pode ser graduado pelo declive mais ou menos pronunciado do percurso.»

As virtudes terapêuticas são muitas. O «movimento rotativo e agradável das pernas conduz a um descongestionamento dos órgãos da bacia e regulariza a sua função». Já neste tempo as mulheres temiam o volume das pernas. E o cronista tranquiliza-as: «Quanto ao receio de engordarem demasiadamente as pernas, podemos afirmar que o ciclismo, embora desenvolva sobretudo a região das coxas, dá uma linha harmoniosa aos membros inferiores fazendo-lhes perder o excesso de tecido adiposo.»

O cronista só encontra uma crítica justificada ao ciclismo: não age sobre a parte abdominal. Eu, por mim, duvido desta objecção, porque o ciclista que segue com a coluna direita mantém o abdómen contraído. Mas não estou aqui para sobrepor a minha voz à do desconhecido autor, que alinhou estas ideias quarenta anos antes do meu nascimento. Estou aqui para o corroborar. Se a falta de acção abdominal é um inconveniente, devem as senhoras e os cavalheiros adoptar exercícios físicos complementares, necessários em qualquer desporto.

E assim cai outro ano. Imagino em 1942 a leitura de uma crónica de 1926, quando termina o ano de 2019 e medito no que vou encontrar em 1943.

Nuno Rosmaninho