Viseu é um museu…

por Paulo Neto | 2017.06.06 - 20:22

 

 

… e quem de tal duvidar basta-lhe passear-se pela cidade, do centro histórico à periferia, sem esquecer as explorações de alguns viticultores mais felizardos, para ficar cabalmente elucidado.

Por todo o lado surge arte em expressões artísticas fantásticas, da pintura à escultura, da música ao teatro, da literatura à pantominice e sabe-se lá mais por onde. Rendemo-nos. Viseu não deve nada a Florença, nem à Broadway, nem, agora, ao bacalhau islandês…

…Basta passarmos pela Ribeira onde, como a caravela voadora de Gusmão, entre freixos poisou, não uma qualquer plausível ave, mas, nesta milagrosa urbe, um exemplar da fauna piscícola local, talvez gambusia, perca-sol, achigã… ou mais prosaicamente um asas-vermelhas, bordalo, boga, barbo ou pimpão. Logo ao lado, na Escola da Ribeira, um senhor de aspecto ilustre, quem sabe? O capitão Almeida Moreira? rodeado de chapéus voadores. Nesta linda terra tudo voa…

Mais acima, baquianas cubas no seu esplendor rosé foncé, em nada a invejar Bordéus. Segue-se um pavão, que também já foi ex-libris urbano e muito provavelmente será a projecção, por magnânima encomenda, de algum alter-ego autárquico mais pundonoroso.

Além, dizem-nos que “in vino veritas”. E quem duvida?

Porém, foi na Cava do Viriato que instalámos a nossa perplexidade por mor de uma estrutura escultórica ali patente. De generosas dimensões, em aparente ferro maciço, é obra para nos sentarmos na relva em frente e nos questionarmos concentradamente sobre a sua polissémica mensagem.

Ouvimos três passantes a quem pedimos opinião: um deles, com um ar erudito, referiu assertivo “chuços” para obstar à invasão dos Romanos; uma menina com ar cândido sugeriu-nos ser um conjunto de lanças terçadas em pugnitivo e vital enlace; um senhor dos seus 60 anos reflectiu, ponderou e prosaico afirmou: faz-me lembrar o “peido geométrico” que um dia plantaram à porta da faculdade de Ciências da Universidade de Coimbra, assim baptizado pelos estudantes mais madrações, boémios, irreverentes e ignaros.

Seja o que for, arte será, e é necessário perceptibilizá-la no seu compósito material, espacialmente e no contexto em que se insere. Se a ondulação parecia seareira ao zéfiro batida, nunca poderia ser um carapau da Ribeira. Porquê? Porque conforme supra ilustrámos, no Pavia, de entre a imensa fauna existente, nunca houve sinal de carapaus, como por exemplo, no Rossio. De espécie corredora, assim como as lebres, que são – toda a gente sabe – uns coelhos GT.

O Bairro da Balsa também ficou de topos muito arrumadinhos, gaios, num cromatismo que distrai das outras fachadas, as principais, onde já ninguém consegue entrever a sordidez, com os olhos cegos por deslumbrados fixados naquelas duas paredes mais visíveis.

Viseu prepara-se como a ganapada de antanho ao domingo de manhã, antes de ir à Sé, escarolada, brilhante, asseada e prenhe de ufania e cor. O surro, esse, vai-se lixiviando por quase todo o lado…

Além de que a arte nos museus é conceito decadente. A arte quer-se na rua, nas mais ousadas figurações, desafios, contestações e até, nas mais isotópicas temáticas… se alguém vê vinho por todo o lado é porque, provavelmente, estaremos numa cidade neo-geminada com as regiões de Cognac, de Champagne ou da Alsácia… ah, aquele frutado hugel riesling gewurztraminer!

 

E se para dar novo rosto à cidade preciso é um botox, um peeling, um facelift, faça-se… Não se olhem a tostões, nem se apertem os cordões… Se não, ainda haverá quem pense que nem com camadas de verniz cosmético conseguimos atrair visitantes, moradores, indústria, comércio, prosperidade, emprego jovem e… façamos da variante de Verlaine (que também gostava da “pinga”), “de l’art avant toute chose”, o climax deste nosso mecenático executivo.