CGD um banco para ricos que não pagam?

por Paulo Neto | 2019.01.22 - 10:02

 

É esta a sensação que se consubstancia quando se lê o Relatório da EY que põe a nu os milhões concedidos de empréstimo e os financiamentos feitos a empresas, entre 2000 e 2015 pelas sucessivas administrações regentes.

Para já, um bilião e duzentos milhões de euros – há-de ser muito dinheiro! – já se percebe que se volatilizou em 46 financiamentos feitos.

Os senhores administradores faustosamente pagos e cumulados de mordomias – basta olhar para o bunker luxuoso onde se encontra a sede da CGD e de onde pontificam – desrespeitaram todas as regras, ignoraram os pareceres de risco apresentados e concederam toda a espécie de créditos sem, em contrapartida, terem na mão as garantias exigíveis para a recuperação desses empréstimos. É obra!

O leitor, provavelmente como eu cliente da CGD desde 1974, sim há 45 anos, se algum dia pediu um empréstimo ao banco ao qual sempre foi unilateralmente fiel, para comprar um apartamento, por exemplo, teve que dar todas as garantias possíveis e cauções naturalmente requeridas, tendo o bem “penhorado” à emprestadora até cumprimento das suas obrigações de devedor. E muito bem.

Pois, mas isso é para os pequenos milhões de clientes e para as centenas de milhares de funcionários públicos a quem era exigida conta na CGD para depósito dos magros salários.

A quase meia centena de indivíduos/empresas, os créditos eram concedidos de qualquer forma, irregularmente, apesar das análises de risco absolutamente negativas o que, sabe-se agora, provocou brutais imparidades, em pelo menos 46 situações.

É fácil saber quem administrou a CGD de 2000 a 2015, o que parece ser difícil é obter explicações dos responsáveis e conseguir a sua exemplar punição. Sem demora.

Se é sabido que a PGR requereu à CGD a auditoria em questão, sabe-se também ter sido ele pedido pela Assembleia da República. Sem sucesso e ao abrigo dos malfadados sigilos bancário e de justiça. Véu e capa para deixar os cúmplices impunes?

Mas se estes créditos de risco concedidos, numa teia de interesses políticos e pessoais a averiguar, foram dramáticos para o bolso de todos os portugueses (e somos 11 milhões), também e curiosamente nesse período de tempo de 15 anos foram cometidos inúmeros investimentos ruinosos, bastando ter presente as acções do BCP que deram uma perda de 555 milhões de euros. É muito dinheiro! Mais 340 milhões com a Operação Caravela, nos ditos eurobonds emitidos em escudos, em parceria com o Crédit Suisse. É muito dinheiro!

Depois da tormenta e passada a vergonha da nomeação de um tal Domingues – parecida com uma telenovela indiana de terceira – e a nomeação em segunda escolha do “milagreiro” Macedo, cobrador de impostos apurado no MF e “auxiliar do naufrágio” do SNS, os resultados aí estão.

Fecho de agências por todo o lado.

Despedimento de colaboradores, os inocentes, que nunca tiveram nada a ver com a “ruína”, claro.

Implementação de uma política de quase “extorsão” para os “pequenos clientes”, aqueles que sempre cumpriram as suas obrigações exemplarmente, com comissões de manutenção exorbitantes, taxas de transferência obscenas, juros quase nulos, etc.

Agora, mesmo difícil, é apurar a responsabilidade do Banco de Portugal, das sucessivas administrações, e dos políticos em acção durante esse tenebroso período de uma década e meia: 2000 e 2015…

E saber quem são está ao alcance de um clique de um qualquer motor de busca.

Saber porque ficam impunes depois destes escandalosos assaltos às carteiras depauperadas de milhões de portugueses, já será olímpica tarefa, muito dificultada pela actual administração e pelos actuais membros do Governo que, em ano eleitoral, têm mais medo de escândalos do que de uma alcateia de lobos esfaimados ou de uma cela no estabelecimento prisional de Évora.