A arte de pagar com palavras e o quilate da mentira

por Paulo Neto | 2019.12.08 - 21:06

“A dissimulação não é mais do que um subgénero da política ou da sabedoria, pois saber quando dizer a verdade e dizê-la exige argúcia cortante e uma coragem igualmente forte; portanto, os políticos mais fracos são grandes dissimuladores.” (Bacon, F. – Ensaios, 6)

Hoje é constante, na boca dos políticos, a arenga da expectativa. Ou seja, criar nos reclamantes que ingénuos os procuram a ideia de que a petição de tão bem acolhida logo estará deferida, não obstante, costas voltadas do requerente, ela caia sem estrondo no mais próximo e fundo caixote de lixo.

Duas palmadas nas costas, um sorriso de boca limpa e dois parágrafos de assentimentos servem para vender o ar.

Há políticos que fazem da mentira o alicate da função. E assim, dela se servem tão assazmente que, a dada altura, eles próprios perdem a noção da realidade, ignorando o que é falso ou verdadeiro e mais, esquecendo anteriores patranhas, enrodilham-se num desacreditado e cíclico discurso de sucessivas encravações geradoras de um buraco negro de contradições.

Quanto mais fraco é um político mais mente. Até e porque a realidade, à vista de todos quantos têm olhos para a ver, lhes é adversa e factualmente contraditória de tudo quanto fuxicam.

O povo sapiente e ciente de toda a farsoleirice diz que “A mentira tem perna curta”. Ou seja, com passos pequenos não alcança o longe. Quando o farfante é desacreditado, tal é a sua competência farofeira que, dissimulando com artifícios retóricos, indignação, contradição, surpresa e uma fácies imaculada de arcanjo Gabriel, de imediato inventa nova galga ou atoarda para adiar nos crédulos a colisão com a veracidade.

Andam por aí. Dão-se ares de sinceros cidadãos, dormindo à noite nas trevas ocultados e acalentados nas palhas da falsídia, cientes de que as coisas não se consideram pelo que são, mas pelo que parecem ser.

Assim dito, a verdade é coisa que exige muita cautela

Paulo Neto