Vilar – Aldeia submersa – Uma história…

por Paulo Neto | 2015.04.29 - 13:27

Há precisamente 50 anos atrás, em 29 de Abril de 1965 Américo Tomás, Presidente da República à altura, embarca numa viagem de estado rumo a terras beirãs, na agenda tem várias visitas e algumas inaugurações, das quais a de maior destaque pela imponência e perpetuação dos seus objectivos, foi a inauguração e bênção do Aproveitamento Hidroelétrico de Vilar-Tabuaço, realizado sobre o Vale do Távora, afluente do Rio Douro. O complexo aproveitamento compreende a Barragem do Vilar e a Central de Tabuaço, tendo sido ambas objecto de demorada visita e revista pela comitiva de estado e em especial pelo Ministro das Obras Públicas Dr. Arantes de Oliveira.

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Esta inauguração que hoje atinge o seu 50º aniversário foi alvo de comemorações conjuntas pelos concelhos envolvidos e afectados, no passado domingo dia 26 de abril. Sernancelhe, Moimenta da Beira e Tabuaço, associaram-se pela primeira vez numa efeméride à qual estão umbilicalmente ligados desde a decisão final da construção do aproveitamento no ano de 1957. Foram descerradas placas comemorativas pela mão do Secretário de Estado da Administração Local Leitão Amaro, junto da Central, no paredão da Barragem e no Centro Interpretativo Aldeia da Faia, obra erguida em homenagem ao povo da Faia e da sua memória, a primeira aldeia totalmente submersa em Portugal pela construção de uma barragem.

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Esta comemoração conjunta foi também o rosto público das boas ligações mantidas pelos três municípios, teve o cunho da Associação Regional dos Municípios do Vale do Távora, que estes formam, e os quais reafirmam que se quer mais dinâmica e interventiva num futuro próximo, com o objectivo de relançar uma verdadeira intermunicipalidade e tornar a área de intervenção mais abrangente e integradora.

Destes 3 concelhos grandes esforços foram exigidos no empreendimento desta obra, com promessas de trabalho imediato mas muito poucas garantias de uma melhoria económica no médio e longo prazo, não se vislumbrando um futuro garantido. Mas nenhum sofreu as agruras sociais, humanas e económicas a que Sernancelhe foi obrigado, e obrigado foi também a calar-se, pois o regime assim o impunha. Tornou-se assim o palco mais evidente da destabilização agrícola, operada por perda de terras e campos de cultivo, nas freguesias de Faia, Fonte Arcada, Freixinho e Vila da Ponte.

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A submersão total da aldeia da Faia, obrigando à construção de uma aldeia nova e deslocalização de toda a sua população, foi sem dúvida o maior impacto negativo. A população residente na nova aldeia passou para menos de metade do seu número na antiga, fruto do desprovimento do único meio de obtenção de riqueza, os campos agrícolas. Não havendo perspectivas de futuro, nem maneira de subsistir, a grande maioria das famílias pegou no valor da sua indemnização e “fez-se ao mundo”. Este impacto, ainda tão cravado na história e lembrança dos que resistiram à mudança e por aqui se mantiveram e mantêm, agora habituados a olhar as magníficas paisagens proporcionadas pela Albufeira do Vilar, foi o mote para a recuperação da antiga escola primária e a sua reconversão para Centro Interpretativo, onde se expõem os sentimentos, as lembranças, as memórias, os medos, as obras…é repositório histórico e cultural, mas também plataforma de divulgação, dinamização e promotor de iniciativas culturais e de preservação do ambiente e da biodiversidade.

Neste espaço ocorreu também no passado domingo, completamente integrada nas comemorações, a inauguração da II Exposição Temática, composta por 2 elementos visuais de naturezas diferentes, uma Exposição Fotográfica denominada de “Barragem do Vilar – A Obra”, onde se faz uma retrospetiva muito completa do que foi a obra e a engenharia, desde os primeiros estudos em 1950 até à data da inauguração em 29 de abril de 1965, fazendo uso de fotografias de acompanhamento da obra e dos estaleiros, mapas e esquemas técnicos, e outros elementos e curiosidades retirados dos Relatórios Técnicos mensais e finais; e um Filme com o título “Barragem do Vilar – A Produção”, onde se mostra todo o processo necessário à produção de energia elétrica no aproveitamento Hidroelétrico Vilar-Tabuaço, passando por todas as etapas e locais mais relevantes, sempre suportado por informações técnicas. Este filme tem o cuidado de fornecer os conceitos e as leis da Física de uma maneira simplista, para que os jovens a partir do 2º Ciclo Escolar possam sem quaisquer dúvidas e à sombra dos fundamentos teóricos que apreendem em aula, entender todo o processo que conduz à obtenção da Energia Elétrica e a sua colocação na Rede Elétrica Nacional – REN.

A I Exposição Temática do espaço foi dedicada à Aldeia da Faia, também suportada por uma exposição fotográfica e um filme, mas fica a promessa de este ser o primeiro de vários artigos onde se explanarão vários períodos temporais e eventos históricos particulares, desta região do Vale do Távora.

Com uma atitude evidente de promoção dos recursos turísticos e culturais, apoiada num património rico e vasto de variadas naturezas, muito dele conseguido à custa dos esforços pessoais e colectivos desta gente das Terras do Demo, o Centro Interpretativo Aldeia da Faia torna-se assim a cada dia que passa, uma iniciativa que valoriza todas estas temáticas levando-as a públicos variados por intermédio de plataformas de comunicação dinâmicas, começando a obter excelentes resultados em termos de reconhecimento e procura.

Hoje pode ver em primeira mão na página do facebook do Centro Interpretativo Aldeia da Faia um filme evocativo produzido com as imagens adquiridas ao Arquivo da RTP, e que compunham a reportagem realizada há 50 anos atrás acerca da visita de estado de Américo Tomás às terras beirãs. O discurso do Presidente da República é reproduzido na íntegra e serve de enquadramento sonoro a esta revisitação, que tão dignamente quase se torna um registo etnográfico da altura

https://www.facebook.com/centrointerpretativo

https://www.youtube.com/watch?v=AbaIQ_rh3DI

Maria do Céu Sobral