Tempos de indecente total demência

por Paulo Neto | 2016.04.17 - 22:37

Hoje não quero escrever sobre política… Ou, vá lá, apenas um bocadinho, mais para o fim.

Vivem-se tempos estranhos, com bizarras excentricidades, rupturas absolutas com a razoabilidade, o mais básico bom senso e o despropósito total com a legislação e o rigor vigorantes.

Acabo de ler uma revista estrangeira de automóveis que me deixou a reflectir sobre um novo modelo apresentado.

O recém-criado Bugatti, com a designação de Chiron, marca criada por Ettore Bugatti em 1901, em Molsheim e desaparecida em 1939, supera todos os modelos entretanto ressurgidos e incensados por uma esplendente aura de prestígio e exclusividade.

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Esta nova criação vem com um motor de 1.500 cavalos de potência, com 16 cilindros em W, com 8 litros de cilindrada e quatro turbocompressores.

A velocidade máxima anunciada é superior aos 420 quilómetros/hora, tem um binário de 1.600 Nm e o 0 aos 100 são cumprido em menos de 2,5 segundos…

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Tudo isto, é claro, com uma sofisticadíssima tecnologia electrónica, mas sem pôr de lado um luxo sibarita e um taquímetro graduado até aos 500 quilómetros/hora! Fantástico para o ego…

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O preço deste míssil das arábias será, em França de 2,5 milhões de Euros (ou seja, de 10 vivendas de 250 mil € cada, ou de 50 BMW’s série 5), o que não impede que, apesar de ainda não estar no mercado, já tenha vendido 200 das 500 unidades previstas.

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E porém, a Europa (e o mundo) vivem tempos dificílimos em matérias financeiras; as abissalidades sócio-económicas nunca foram tão ensurdecedoras; as limitações de velocidade são taxativamente assertivas; as multas por excesso de velocidade, a partir de um certo patamar são penalmente consideradas “crime”, sujeitas a coimas altíssimas e até a prisão e inibição total de condução (a carta por pontos…); os consumos deste veículo são “estracassantes”; 4 pneus (que se derretem como manteiga em focinho de cão) custam mais de 5 mil €; nem imagino quanto custará uma revisão de rotina,  nem qual será o preço deste Bugatti em Portugal, quanto pagará de imposto ou sequer de mero IUC, que tanto a todos nós aflige…

Claro que isto são “peanuts” para quem adquirir um “bombardeiro” destes… Mas a verdade é só uma: os paradoxos aqui apercebidos são tantos, que mais parece estarmos no domínio da demência, e contudo, hoje, nesta Europa das crises e da miséria, há cada vez mais fortunas incontáveis geradas pelo neo-liberalismo pirata, e um tédio profundo dos recém-arquiricos que não sabem, sequer, o que fazer a tanto dinheiro, na sua colossal desmesura.

Isto não augura nada de bom… Estranhos tempos, estes!