Sernancelhe – Apresentação da revista literária “aquilino” III, no Colégio da Lapa

por Rua Direita | 2016.06.05 - 13:11

 

 

 

No dia 3 de Junho foi apresentado o nº III da Revista Literária da Câmara Municipal de Sernancelhe “aquilino”.

Desta feita, a primazia, retirados que foram os textos autorais, foi dada a duas centenas de fotografias gentilmente disponibilizadas pela família do escritor, na pessoa de seu neto Aquilino Machado, por seu sobrinho, Manuel Sá Marques e a outras, do espólio da FAR e do acervo pessoal do director da revista.

O local escolhido foi simbolicamente o Claustro do Colégio da Lapa, onde Aquilino estudou de 1895 a 1900, e a adesão de aquilinianos superou as duas centenas e meias de atentos “devotos” e ouvintes.

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O vereador da Cultura, Armando Mateus deu as boas vindas e passou a palavra ao anfitrião, o Reitor do Santuário, Padre José Alves Amorim. De seguida, em representação dos Amigos do Santuário da Lapa, falou Abel Estefânio, historiador.

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Deixamos alguns excertos das intervenções que se seguiram. O director da revista, Paulo Neto referiu:

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“Tentai recuar 120 anos no tempo. Imaginai que dali, daquela janela do quarto nº 33, por Aquilino ocupado durante parte dos 5 anos que aqui estudou, ele nos está a ver, a olhar-nos espantado por detrás daqueles vidros. Que lhe passaria pela cabeça? Boa pergunta! Que a Vª imaginação lhe responda…

No nº1 da “aquilino” registei e qui o reitero: “Da nossa parte, o nosso melhor será sempre pouco para o muito que Aquilino Ribeiro merece, em particular, e merecem todos os sernancelhenses, e geral.”

No nº2 da “aquilino” escrevi e aqui o enfatizo: “A CMS tem sido o mais vivo exemplo deste empenhamento, desta devoção, desta vontade de fazer ler Aquilino, deste desejo de falar e escrever sobre Aquilino.”

No nº3 da “aquilino” lavrei e aqui o cito: “A CMS, na pessoa dos seus autarcas, o anterior, José Mário Cardoso e o actual, Carlos Silva Santiago, foram e são duas traves mestras nesta edificação, pois nada negam a quanto em prol de Aquilino lhes é proposto fazer. Talvez por isso sejam, a nível nacional, uma das raras autarquias – senão a única – a editar, como propriedade camarária, uma revista literária monotemática, consagrada e dedicada ao autor que é o orgulho e ex-libris mor da sua Terra.”

E dito isto, minhas senhoras e meus senhores, preclaro anfitrião, estimados autarcas e demais individualidades, caras amigas e amigos, fraternos sernancelhenses… sejam muito bem-vindos e recebam a minha gratidão pela porfia da Vª peregrinação.

Como se construiu este número da “aquilino”?

O saudoso senhor Engº Aquilino por mais de uma vez me falara em quão interessante seria a publicação de fotobiografia de seu Pai. Não a pudemos publicar em sua vida.

O médico e escritor Fernando Namora escreveu-a primicialmente em 1963, publicada pela Novartis, aqui lhe rendemos homenagem. O nosso ensejo foi o de a actualizarmos…

Na derradeira casa onde Aquilino Ribeiro residiu, em Lisboa, na Rua António Ferreira, nº 7, o neto abriu-nos as portas do acervo de seu avô. Munidos de 2 câmaras fotográficas fizemos uma sessão de 6 horas…

Como irão constatar, a revista tem o meu editorial e 3 prefácios, os do Dr. Alberto Correia, Dr. Aquilino Machado e Dr. Carlos Silva Santiago.

Propõe de seguida uma bibliografia de forma pioneira e original, pois fotografei todas as obras do Escritor presentes na minha biblioteca pessoal.

O Dr. Alberto Correia escreveu as tábuas cronológico-biográficas para cada uma das 4 sincronias que considerámos e nas quais demos a plena palavra às imagens, recusando textos autorais:

1ª sincronia – 1885/1907 – A Águia com Uma Luz ao Longe (48);

2ª sincronia – 1908/1932 – Os exílios de O Homem que Matou o Diabo (30);

3ª sincronia – 1933/1963 – Lutar… numa Batalha sem Fim (32);

4ª sincronia – de 1963 a 10 Set. 2007 – Um Escritor Confessa-se (63)…

As dificuldades foram muitas… a qualidade das imagens originais, algumas com mais de 100 anos, as datas exactas, os locais precisos, a identificação de alguns dos presentes nessas imagens. Tarefa que nem nós, nem seu neto, nem sua nora, Dª Alexandra Oliveira, nem seu primo, o Dr. Manuel Sá Marques conseguimos, pontualmente dilucidar, aqui e além…

As fotografias fotografadas e refotografadas foram seleccionadas, seriadas, tratadas, enquadradas, contextualizadas, retiradas, recolocadas, pensadas, repensadas, ponderadas, reponderadas…etc. Também na FAR o fizemos, juntámos-lhes as que já tínhamos, o resultado foi-se perfilando, desenhando, emergindo…

A Vª tolerância por qualquer falha: às vezes um exacto local, Vigo, Baiona, Tui? Um ou outro figurante pontual, que nem sempre almejámos identificar na sua globalidade. Por vezes, uma data: esta fotografia é de 1935 ou 1936? (…)

Cumpre-me aqui agradecer: À CMS, ao seu executivo e aos seus funcionários; ao Dr. Alberto Correia; ao Dr. Aquilino Machado; ao Dr. Manuel Sá Marques; à FAR na pessoa das suas sempre cooperantes colaboradoras, Dª Cecília e Dª Fernanda; ao Dr. Paulo Pinto e Dra. Cristina Morais – a equipa dos porfiados dias-a-fio de intenso labor. Ao Senhor Reitor do Santuário, Reverendíssimo Padre José Alves Amorim que nos abriu este Claustro tão simbólico das primícias vivenciais de Aquilino, um profundo bem-haja.”

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De seguida, Paulo Neto leu a comunicação enviada pelo neto Aquilino Machado, retido por outros compromissos:

“Não podendo estar presente no lançamento do terceiro número da Revista “aquilino” muito gostaria de vos transmitir umas breves palavras através do meu querido amigo Paulo Neto:

– A primeira leva de encómios reparte-se pelo elenco da Edilidade de Sernancelhe, mas muito particularmente ao seu Presidente da Câmara, Sr. Dr. Carlos Silva.

Na verdade, a aposta que a Câmara Municipal de Sernancelhe tem dedicado à obra e vida de meu avô assume-se como um feito extraordinário e, simultaneamente, muito comovente.

O meu avô asseverou um dia: “a minha obra sou eu próprio”. Sempre foi um homem avesso, por sistemática rebeldia, ao enclausuramento das palavras. Era totalmente intransigente com todos os entraves ao pensamento. “Cada homem é um mundo. Por isso mesmo, cada homem que se sabe contar é um livro nunca igual a outro livro. O princípio da originalidade está no partido que se tira de tal circunstância”, disse Aquilino.

Por isso, a investigação e divulgação da sua obra que é acarinhada pela Câmara de Sernancelhe revela-se também como um compromisso permanente e crescente de cidadania e de duradoura preservação do seu edifício literário;

– A segunda leva de devidos elogios recai no admirável trabalho desenvolvido pelos meus estimados amigos Paulo Neto e Alberto Correia e demais colaboradores da revista “Aquilino”.  O que foi vertido para este magnífico número da revista merece ser acarinhado e profusamente difundido. É esta dimensão de trabalho que assegura e resguarda a  espantosa geografia emocional aquiliniana;

– A terceira leva de agradecimentos reparte-se por todos os meus amigos beirões presentes neste cerimónia e que de certa forma simbolizam a recordação de uma memória muito bonita que retenho dos territórios emocionais da minha infância quando passava as férias grandes na Soutosa.

Esta geografia harmoniosa e familiar perdurou para sempre e ficará guardada como o território memorial mais intensamente belo da minha infância. E confesso-vos que sempre que retorno a esta geografia sentimental e deparo-me com “as tempestades de penedos suspensos de morros e encostas”, é como regressasse a esse território longínquo  que se encontra tão bem cuidado e de braço dado com as boas memórias que acompanham a minha caminhada.

Para todos a minha profunda amizade e gratidão.

Aquilino Machado”

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Alberto Correia, o historiado, o aquiliniano e o sernancelhense proferiu esta evocação:

“LUZ AO LONGE, SALVE!

Lisboa, pátria dos meus amores sonhados, mão gentil a acenar-me, teatro onde se propunha representar a minha humanidade ambiciosa, luz ao longe, salve!

Aquilino Ribeiro, in Uma Luz ao Longe.

Mais premonitório do que estranho é este parágrafo, o último, o que encerra a tessitura do pequeno romance, dito de Internato, Uma Luz ao Longe, evocação saudosa desse tempo do primeiro crescimento fora do ambiente familiar, lição primeira sobre o curso de uma existência que apenas se vence, se empreendida com afoiteza e engenho; efabulação dos cinco anos mal contados que Aquilino Gomes Ribeiro traça, como saga correndo numa estranha Terra do Nunca, a Lapa, onde a natureza e o céu se encontraram e onde o mistério que foi segredo de Joana, a pastora, jamais, inteiro, se desvela.

Primeiro, foi no Pátio dos Sanhudos onde moravam seus pais, ao Carregal, através do boqueirão do pórtico já deslavado de uma fidalguia antiga, que Aquilino pela vez primeira estendeu ao longe seus olhos sem saber ainda de bússola nem de Norte.

Depois veio a Lapa. E foi neste chão que pisamos que as linhas mestras de uma geografia, indecisa ainda, começaram por apontar-lhe um destino, por mais que a agulha de marear se revelasse incerta no balançar da nau em que embarcara.

Aqui exactamente, na envoltura pesada do velho Colégio a quem seu pai o confia no longínquo ano de 1895, era uma meia manhã de um dia de Junho em começo, faz agora 121 anos, Aquilino Gomes Ribeiro que não perfizera ainda os dez anos, menino de sua mãe que o era ainda, aqui vem à luz, num segundo nascimento, sofrido que foi, como o primeiro.

O bom do Padre Leonel, que mais não é senão Padre Francisco Pinto Ferreira, por quem Aquilino sentirá uma terna veneração, então Director do Colégio, colhe-o em suas mãos, como parteira, escuta-lhe os primeiros lamentos e ao jeito também de profeta antigo e lúcido confessa ao vento sobre o destino do rapaz:

– Vai-se carpinteirar daqui alguém!…

Padre ou doutor, pouco importava, então. Camponês é que já não iria ser.

E os caminhos novos passaram a desbravar-se através das páginas dos livros – Latim, História, Geografia ou Francês, construíram-se com o bater dos passos que traziam romeiros e Malhadinhas, uns e outros fazendo da vida milagre de cada dia, anunciaram-se através desse deslumbrado olhar pela vidraça, do vão das janelas, o estendal roxo da urze, o giestal amarelo de Maio em flor, a neve mansa que caia no fio dos dias para agasalhar a serra que outro manto não tinha, inquietos ficaram de espanto, sempre, seus olhos, frente ao rasgo aberto do rochedo sagrado que para sempre permanecerá misterioso.

Cinco anos mal cumpridos, foi o tempo de demora nesta morada que Aquilino nos faz habitar com ele, no romance, quando o lemos. O desmedido peso de uma arquitectura que nasceu, como os rochedos, para durar para a eternidade, o dia-a-dia vencido assente na temperança das magras refeições de carne de cabra repetidas, na água da fonte, de longe-em-longe as guloseimas que a mãe lhe mandava, a disciplina tão austera quanto a pedraria, o companheirismo sadio, cinquenta a sessenta rapazes como ele, razão e força entrechocando-se e assim todos crescendo. E as romarias de gente que vinha pelo Espírito Santo, pela festa de S. Barnabé, pela Senhora do mês de Agosto, e esse olhar compassivo e sagaz sobre essa humana cobertura das Terras do Demo de que não inventara ainda letra de forma, gente que corria em busca dos milagres que ali aconteciam como ao tempo se via nos quadrinhos de votos pendurados nos muros do Santuário.

Exames feitos. Férias de Verão, de Páscoa e de Natal. Caminhos andados a pé ou a cavalo. E as visitas da Maria Lóia, da mãe, da Tia Custódia, o olhar meigo de Adelaide ou de Silvana, a outra face de uma humanidade necessária, amorosa seiva que adormentava a penosidade dos dias.

Até que um dia Padre Leonel manda aparelhar o cavalinho do Colégio. E o tropel dele caminho fora.

A Lapa não seria mais o seu destino. O rapazinho crescera.

“Uma Luz ao Longe” surgia agora na distância, longínqua mas real, tal qual esse fio de luz feito estrela que o salvou quando um dia se perdeu nas sombrias caves do Colégio.

E recordo a última frase do romance que ele escreve, já homem feito, debruçado e comovido sobre esse velho tempo de memória:

Lisboa, pátria dos meus amores sonhados, mão gentil a acenar-me, teatro onde se propunha representar a minha humanidade ambiciosa, luz ao longe, salve!

Lisboa, a luz ao longe, Lisboa que não passava então de metáfora de um mundo bem mais vasto, nem ele sabia, nem ele sabia das sete-partidas que haveria de trilhar. Restava-lhe o sonho e a vontade. O que ele chama ambição.

E cumpriu-se o seu desígnio. E permito-me comentar aqui um fragmento da lição da Revista Aquilino que hoje, neste emblemático espaço, se apresenta em sua essência como trajectória de retratos, de retratos de Aquilino, tão significantes de per si, que escusaram largos textos para a compreensão da sua odisseia, da sua viagem para Ítaca que apenas estará cumprida quando tivermos seguido o roteiro que nos legou.

Da Lapa se guarda, na Revista, o primeiro retrato conhecido de Aquilino, infante de onze anos, e ao fim do caminho então Lisboa, a premonição, a Luz ao Longe, a última fotografia, retrato ainda por mais que imaginal, essas cinzas de memória cobertas por bandeira sob o tecto, também sagrado, da Igreja de Santa Engrácia, o Panteão.

A Lapa, todavia, permanecerá nesta mundividência de Aquilino como lugar de memória. Geografia de sentimento. Onde apetece vir como em novena. Repisando-lhe as pegadas que na Lapa ficaram marcadas como passadas de caçador num branco estendal de neve. Apetecendo o pão das courelas da serra ou dos votos da gente que vinha e se pesava a trigo, apetecendo o queijo de ovelha, tradição que nos chega da mãe de Joana, a pastora, apetecendo o mistério, apetecendo o sagrado que na Lapa se encerra.

E aqui estamos. Aquilino e nós. Lado a lado.”

 

Finalmente, Carlos Silva Santiago, presidente da autarquia, fechou o ciclo:

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“- Exmo. Sr. Presidente da Assembleia Municipal, Dr. José Agostinho Aguiar

– Exmos. Srs. Vereadores

– Exmos. Srs. Presidentes de Junta de Freguesia

– Exmos. Srs. Deputados Municipais

– Exmo. Sr. Reitor do Santuário da Lapa, Sr. Padre Alves Amorim

– Exma. Sra. Diretora da Escola Profissional de Sernancelhe, Dra. Ana Chaves

– Exmo. Sr. Diretor do Agrupamento de Escolas de Sernancelhe, Dr. Carlos Rei

– Exmo. Sr. Comandante do Posto da GNR de Sernancelhe, Sargento Abel Sarmento

– Exmo. Sr. Presidente da Associação Humanitária dos Bombeiros de Sernancelhe, Sr. Varela Roque

– Exmo. Sr. Comandante dos Bombeiros de Sernancelhe, Luís Sérgio Gouveia

– Exmo. Sr. Dr. José Mário de Almeida Cardoso

– Exmo. Sr. Dr. Alberto Correia

– Exmo. Sr. Dr. Paulo Neto, diretor da Revista Aquilino.

 

MINHAS SENHORAS E MEUS SENHORES,

Cumprimento todas as pessoas que, de forma espontânea, subiram, neste fim de tarde, ao Planalto da Lapa, para assistir à apresentação da Revista Literária Aquilino, publicação que tem como principal missão homenagear o escritor da nossa terra e contribuir para que seja cada vez mais conhecido, compreendido e admirado.

“Uma viagem fotográfica” pela vida e obra de Aquilino é o que este surpreendente n.º 3 da Revista Aquilino nos revela.

Através de imagens, muitas delas inéditas, percorremos os momentos mais marcantes do escritor natural do nosso Concelho, da freguesia do Carregal, e que estudou neste mesmo Colégio da Lapa (podemos ver deste ponto a janela do seu quarto, o n.º 33), tornando-se numa das personalidades mais célebres e conceituadas do nosso País, uma referência das letras portuguesas do século XX.

Foi em 2009 que o Município de Sernancelhe assumiu, com particular entusiasmo, o desafio de assinar um projeto literário dedicado a Aquilino Ribeiro. Permitam-se aqui uma palavra de reconhecimento ao Dr. José Mário Cardoso, que então me confiou a orientação, com o Dr. Paulo Neto, deste ambicioso projeto.

O pioneirismo de então foi elogiado pelo facto de uma autarquia do Interior de Portugal assinar, sem reservas, uma publicação literária desta envergadura, mas essencialmente pelo inestimável contributo que dava na divulgação de uma das suas figuras ilustres, na promoção da leitura das suas obras, no incentivo a que novos públicos olhassem para os textos de Aquilino e os quisessem conhecer.

Nascia, nesse mesmo ano 2009, a Revista Literária “Aquilino”, idealiza e dirigida por Paulo Neto, um ilustre admirador e divulgador do Mestre das “Terras do Demo”.

 

Graças à sua capacidade para congregar vontades, recrutou para o projeto dezenas de testemunhos de ilustres aquilinianos de todo o País, inúmeras reflexões de pensadores da literatura e da cultura, universitários e estudiosos de Aquilino Ribeiro.

Temáticas aquilinianas como a obra infantil, a gastronomia, a paisagem, as tradições, as gentes e o território, retratados nas suas obras passaram a ser conhecidos, foram mostrados por académicos e Aquilino ganhou, sem dúvida, outra projeção, outro mediatismo.

O sucesso foi tal que o primeiro número da “Aquilino” esgotou em poucos meses.

Em 2010, seria editado o 2º número, já mais volumoso, dado à estampa com Aquilino Ribeiro na capa, em Paris, pintado por Abel Manta.

Dezenas de contributos chegaram igualmente de todo o País para enriquecer e tornar distinta a “Aquilino”, que muito naturalmente se afirmou pela profusão de temas e pela facilidade com que continuava a reunir opiniões e depoimentos de gente de todas as áreas, da política, da economia, das ciências, das letras, entre tantas outras.

A propósito da revista Aquilino, da sua qualidade e da sua missão divulgadora, Sernancelhe teria a honra de contar no lançamento da publicação, no Auditório Municipal, com a presença do saudoso Engº Aquilino Ribeiro Machado, filho de Aquilino Ribeiro, que, desde então, estabeleceu com a nossa terra uma ligação que perduraria até ao fim dos seus dias.

Mas a revista Aquilino conseguiu muito mais do que projetar Aquilino Ribeiro.

Estabeleceu uma ligação afetiva com toda a família do escritor, em particular com o neto, o dr. Aquilino Ribeiro, que, no fim de 2015, nos confiou imagens únicas do seu avô, documentos desconhecidos, registos demasiado importantes para não serem revelados, momentos que estabelecem lógicas temporais, contextos que marcaram uma vida longa e abundante como foi a do escritor Aquilino Ribeiro.

Foi esse legado que deu origem a este n.º 3 da revista “aquilino”, uma fotobiografia de grande qualidade, tanto a nível do conteúdo como graficamente, com uma imagem moderna, apelativa, mas que mantivesse a essência dos números anteriores.

Afinal, a Revista Literária “aquilino” é um projeto que completa agora sete anos, surgindo renovada mas fiel ao objetivo inicial de valorizar a identidade da nossa terra, avivar o orgulho de sermos conterrâneos de Aquilino Ribeiro e de contribuirmos para despertar nas crianças e jovens a vontade em conhecerem a sua vida e obra, os lugares, as paisagens e as gentes que são ainda a marca mais autêntica do nosso território.

É pois uma viagem fotográfica que propomos neste terceiro número da revista “aquilino”.

Conceber um projeto desta dimensão implica um trabalho aturado de pesquisa, uma minuciosa construção do puzzle que define os momentos marcantes da vida do escritor, confiados à exígua matéria-prima que são fotografias com um século.

Mais uma vez, foi Paulo Neto, com o contributo do Dr. Alberto Correia e do Dr. Aquilino Ribeiro, o obreiro desta exigente tarefa, conseguindo, em pouco mais de uma centena e meia de páginas, plasmar os momentos de uma vida e de uma obra que vão muito para além do simbolismo matizado pelas imagens a preto e branco, ousando legendar e explicar, com datas e descrições de contexto, a evolução histórica desde 1885, o ano em que Aquilino nasceu no Carregal, até à sua trasladação para o Panteão Nacional, em 2007.

Coincidência feliz de estarmos hoje na Lapa, Aldeia de Portugal, num momento dedicado a Aquilino, enquadrado na VIII Feira Aquiliniana.

A Feira Aquiliniana é um tributo a Mestre Aquilino e à Lapa, que decorrerá no terreiro do Santuário, envolta por este riquíssimo conjunto patrimonial, com mais de 500 anos, de que todos nos orgulhamos.

Por estes dias, a Lapa recua no tempo. Ao tempo de Aquilino, que ele descreve assim na sua obra Aldeia, Terra, Gente e Bichos :

“Botava-se ao santuário gente de meio Portugal. Das bandas de Lamego, Penude, Magueja, além de cumprirem a novena nos quartéis edificados adrede, munidos como vinham de suas sete pedras de sal, seu toucinho, seu pão de roda, no dia de Nossa Senhora entravam na avenida com grande espavento de bandeiras e guiões, todos os que punham opa enfeitados com rosários até os joelhos. A adusta Lapa convertia-se com a afluência de povo num imenso presépio, mais garrido e animado do que alguma vez o amassou e pintou barrista ou entalhador. Por toda a parte se viam ranchos a bailar e a dar conta de suas petisqueiras, que sempre foi esta uma das funções das romarias.» (Aquilino Ribeiro, 1946).

Aqui está a Lapa de há um século, recordada no dia em que apresentamos a “Aquilino”, a Revista que repete, no cabeçalho de cada página, com comprovado orgulho, o lema que define a vida do Mestre: “Alcança quem não cansa”.

E Aquilino Ribeiro, que possuía essa “virtude magnética de atrair”, merece, de todos nós, que em cada dia continuemos a alcançar.

Alcançar para que a sua palavra se torne eterna.

Alcançar para que a sua obra seja imortal.”

Para remate, os “virtuosos” executantes Horácio Silva e João Simões proporcionaram um momento musical, ao acordeão e ao órgão, respectivamente.

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Entretanto, o vento irrequieto começara a gerar algum desconforto e o frio lembrou-nos que estávamos no planalto da Lapa… Hora de sair ao terreiro e, convivialmente, dar “resposta” a um “Terras do Demo” de Honra.

Parabéns à Câmara Municipal de Sernancelhe por mais esta iniciativa coroada de sucesso e pelo muito que tem feito na difusão e perpetuação do “seu” Escritor.carlos e armandol

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(fotos de PM)

Projecto na área da comunicação social digital, 24 horas por dia e 7 dias por semana dedicado ao distrito de Viseu

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