Por Terras do Demo por entre o “amarelo do tojo e da giesta, o vermelho-púrpura das urzes e rosmaninho, o branco da esteva e bela-lua…”

por Paulo Neto | 2015.05.28 - 16:54

Aquilino deu este título a uma das suas obras primeiras. Referia-se aos concelhos situados na corda das Serras da Nave e Lapa, Sernancelhe, Moimenta da Beira e Vila Nova de Paiva. Se nasceu no Carregal, foi baptizado nos Alhais e teve sua casa familiar em Soutosa. Muitas das suas páginas por ali se espraiam em, por exemplo, “Cinco Réis de Gente”, “Uma luz ao longe”, “Via Sinuosa”; O Livro do Menino Deus”, “Os Avós dos nossos Avós”, “Aldeia, Terra, Gente e Bichos”, “Geografia Sentimental”, “Abóboras no Telhado”, “O Homem da Nave”, “Andam Faunos pelos Bosques”, “Quando os lobos uivam”, etc… Lê-las é um maravilhoso passeio por todas aquelas terras e um reviver de tudo quanto, os mais velhos de entre nós, entorgam em suas memórias. E já agora, as Terras eram do Demo, não porque por ali deambulasse o “mafarrico” mas, pelo contrário, porque na sua sáfara pobreza, ali não “gastara Cristo as sandálias”. aaa1 O ministro da Educação e Ciência de Portugal, Nuno Crato, nos 52 anos do passamento de Aquilino Gomes Ribeiro decidiu — e muito justa e louvavelmente — homenageá-lo, deslocando-se ao seu território e prestando seu preito a um vulto maior da literatura portuguesa. aaa3 Foi acolhido no salão Nobre da Câmara pelo seu presidente, Carlos Silva Santiago e pelo presidente da Assembleia Municipal, José Agostinho Aguiar. Deram-lhe as boas-vindas. Rumaram a pé à Biblioteca Municipal. Os jovens sernancelhenses representaram sua graciosa e irreverente rábula. Foram inauguradas duas exposições, da sincronia da vida e da totalidade da obra, ao Escritor dedicadas. Descerrou-se lápide alusiva. aaa4 aaa5 aaa6 Foi-se para o Auditório, cheio de público que ouviu uma mensagem do neto, Aquilino Machado (ler ao fim) e uma palestra sobre a vida do escritor, por Paulo Neto, as palavras do autarca Carlos Silva solicitando a inserção da obra aquiliniana no Plano Nacional de Leitura e nos programas de Língua Portuguesa e o discurso final do ministro da Educação, sensibilizado com o acolhimento e alerta para as solicitações que lhe foram presentes, ademais enfatizando sua admiração pelo autor, pela sua modelar vida e exemplar obra. aaaa aaa9 aaa10 aaa11 Rumou-se ao berço, ao Carregal onde o povo aguardava para saudar o governante. Inaugurou-se uma estátua de Pedro Neves, descerrou-se placa comemorativa da visita e, à soleira da casa onde nasceu Aquilino, de porta franqueada pelo nosso amigo José Castelo, Alberto Correia, um dos mais notáveis cultores do Mestre, proferiu suas sentidas palavras e leu extractos de obras (ler ao fim). O presidente da Junta de Freguesia local deu as boas vindas e o ministro falou aos carregalenses. Cá fora, os meninos da Academia de Música, sob a batuta de mestre Horácio, davam fole às suas concertinas. Decorreu um Dão de Honra. e prontolow Rumou-se à Fundação Aquilino Ribeiro, em Soutosa, hoje co-propriedade das autarquias de Moimenta da Beira, Sernancelhe e Vila Nova de Paiva sendo descerrada lápide junto à efígie mural de Aquilino, aí falaram José Eduardo, presidente da edilidade moimentense e o ministro da Educação.

Falhou o autarca de Vila Nova de Paiva, José Morgado, decerto muito ocupado com “sua” CIM Viseu Dão Lafões e pouco preocupado com Aquilino Ribeiro. É a vida… E os actos dessas vidas definem cabalmente seus praticantes. José Morgado esteve mal. Aliás, numa postura já recorrente e num deslumbramento qualquer que lhe tolhe a vista, por excesso de horizonte, para as courelas primiciais. Mandou uma vereadora, talvez por não se achar à altura do acto. Voltaremos ao assunto em momento apropriado, que hoje e aqui fala-se de Festa e não de tristes figuras. aaaaaq Sempre muito interessado, o ministro da Educação quis ver atentamente toda a Casa e até, com recato, pediu licença para se sentar à secretária do Mestre, “buscando inspiração”, nas suas próprias palavras. O dia foi de grandeza. Uma vez mais, Sernancelhe provou inequivocamente que é, há muito, fervorosa admiradora do seu mais dilecto Filho, provou que, e com a prata da casa sabe estar à altura dos grandes momentos e, se dúvidas houvesse, evidenciou a sua capacidade de trazer ao seu território aqueles que, no poder central, têm voz e autoridade sobre todo o poder local. Sernancelhe é assim…

 

Mensagem de Aquilino Machado:

 

Cabe-me agradecer ao Sr. Ministro da Educação e Ciência, Prof. Nuno Crato, e ao Sr. Presidente da Câmª de Sernancelhe, Dr. Carlos Silva Santiago por esta homenagem ao meu avô Aquilino que cala fundo no meu coração. Bem hajam por isso.

A escrita de Aquilino continua viva e apontada para o futuro. Uma sombra tutelar para que nos devemos voltar “cultivando a inquietação como fonte de renovamento”.

A moldura da sua geografia sentimental é bem assumida no destaque que ele mesmo dá à sua vivência juvenil: “a aldeia serrana, como aquela em que fui nado e baptizado e me criei são e escorreito é assim mesmo: barulhenta, valerosa, suja, sensual, avara, honrada, com todos os sentimentos e instintos que constituem o empedrado da comuna antiga” (Terras do Demo).

Manuel Mendes escreveu que os “seus serranos, personagens do melhor da obra de ficção são como as árvores que alargam as frondes à luz do céu, como ribeiro que corre por entre os penhascos, e vai desferindo alegre cantar, ou a bramir pelas noites da invernia”.

Na verdade, esta inspirada fidelidade às origens esteve sempre presente no compasso da sua vida quotidiana, sobretudo na forma como deitava mãos à enxada e desbravava a única quinta que verdadeiramente tinha, a escrita: “nunca soube o que era servidão aos preconceitos, às classes, nem mesmo ao gosto do público. Se pequei, pequei por conta própria, exclusivamente. Em todos os meus livros, se pode verificar mais ou menos esta rebeldia de carácter” (Aquilino Ribeiro).

Um monumento literário desta elevação renasce a cada leitura que se faça. Homenagear Aquilino é lê-lo, permanentemente.

A todos o mais sincero e rendido agradecimento,

Aquilino Machado aaaaalberto

Palavras de Alberto Correia:

Carregal, em Tempo de Memória

(Texto para ser lido junto à casa em que nasceu Aquilino Ribeiro)

Hoje é dia de desfolhar rosas, mesmo as místicas rosas que dizemos em palavras, não sobre a fria pedra de uma arca tumular, antes sobre a soleira gasta de uma casa que foi berço do Homem que nos trouxe até aqui.

Hoje é dia de desfolhar rosas sobre este chão que pisamos porque Aquilino Ribeiro que aqui teve nome e nasceu, não morre mais.

Não morre mais, se nós quisermos, não porque o tenhamos alcandorado ao Panteão, antes porque temos de lhe manter viva a memória, porque temos de o manter vivo em nosso coração, na nossa voz, num certo jeito de estar, porque devemos seguir bandeiras que ele desfraldou, as cores delas e os lemas lá escritos, esse jeito de ser livre que aqui aprendeu quando menino e nele se revelou um dom maior, a rijeza de carácter que aprendeu com os serranos seus irmãos, a fidelidade a um ideal que escolheu como caminho, a honra que era a marca maior dos seus avós e, por fim, essa incapacidade de jamais trair um seu igual.

É bom estar aqui nesta romagem, neste chão, ao pé da casa, ao pé do berço. E far-nos-á bem, porventura, evocar os suaves e poéticos relatos do escritor sobre o ar desta morada que nem sempre, em sua escrita, é efabulada. Talvez vindo aqui, e ao olhá-la, se torne mais límpido, mais fiel o entendimento do homem que a vida, a obra, a memória, depois tornou universal.

Por ora basta ver esse jeito chão de falar da sua terra, da casa onde nasceu. E recordo, em três palavras, os três momentos em que deste lugar Aquilino nos falou.

1958. Entrevista dada a Igrejas Caeiro.

Quando este lhe pergunta onde nasceu, Aquilino dá esta impossível e belíssima resposta: – Eu nasci debaixo dos castanheiros… e deste modo celebrava a sua terra, o Carregal, moldurada então de soutos, dessas árvores do pão e de beleza que ele celebra, em jeito de ode, como metáfora de toda a natureza.

Em O Livro de Marianinha, que ao jeito de herança deixa à primeira neta, descreve com intensidade poética a atmosfera envolvente da casa onde nasceu:

A casa em que nasci, Marianinha, Está voltada a su-sueste E tem à frente um cipreste… Tê-mo-la em frente. As paredes onde bate o mesmo sol. O cipreste que ainda abriga pássaros e tremula ao vento. Herança para guardar.

Cinco Réis de Gente.

Ali a temos, a casa, no pequeno romance que é um mavioso olhar sobre a infância, esse tempo marcante que já lhe alicerçara o carácter, já lhe tecera o destino que ele adivinhava ao longe quando o seu olhar pela primeira vez, consciente e racional, se alargara sobre o simbólico portal dos Sanhudos, escancarado ao fundo do pátio, já então de portas quebradas, nessa visão premonitória. Com esta visão ficamos, este eterno olhar de menino que, homem, hoje celebramos.

* * *

Como morávamos perto da igreja e a torre era alta, as quatro badaladas repercutiam pela casa tão estrondosas e zumbentes que nem que o sino estivesse escarrapachado por cima de nós. Dam…dam, e as vespas de bronze, a chamar para a aula, com a sua tremolação espasmódica, sacudindo a atmosfera, abafavam os ruídos todos.

Minha mãe puxava-me para a bacia de esmalte, por vezes qualquer alguidar, ao tempo que dizia:  – Debruça-te! Com a cova da mão cheia e despachada, como se manobrasse um balde, chapava-me água fria pelo rosto. Eu, mugindo, fugia com a cabeça, boca e olhos fechados. Mas ela, implacavelmente, repetia o lavacro tantas vezes quantas eram precisas para me varrer da pele a sombra de uma sombra.

Depois, à ponta de rodilha e com vigor esfregava-me os ouvidos, desensurrava-me o pescoço, usando de alguma brandura a limpar-me a capela dos olhos. Finalmente, com o cabelo colado na testa, alvo como um lírio, empurrava-me: – Está a pedir barrela. Vá, vá muito direitinho, e faça lá visitas à senhora professora.  

A tiracolo a bolsa em que afundira o Monteverde e a tabuada, eu despedia pátio fora, pós-catrapós.

Aquilino Ribeiro in Cinco Réis de Gente.

 

(Fotos de Paulo Pinto, Jaime Ferreira, Maria Sobral e RD)