Olhos que mentem (Menção honrosa no prémio de Jornalismo Adriano Lucas)

por Rua Direita | 2016.12.29 - 12:56

Pedro Morgado, colaborador do Rua Direita, recebeu uma menção honrosa na VI edição do prémio de Jornalismo Adriano Lucas, galardão instituído em 2011 pela autarquia de Coimbra em parceria com a Universidade de Coimbra e o Diário de Coimbra.

O júri, constituído por elementos das entidades organizadoras e dois convidados, o docente da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (FLUC), José Ribeiro Ferreira, e o jornalista Jorge Castilho, decidiu ainda atribuir o prémio maior a Catarina Lima Fernandes com a reportagem “Os ilhéus em Coimbra” e uma segunda menção honrosa à jornalista Patrícia Cruz Almeida pelo trabalho “Caricatura de Coimbra”.

O trabalho “Olhos que mentem” que se publica a seguir é “uma justa homenagem” ao trabalho do cirurgião António Travassos e ao percurso pessoal e profissional de um médico que “tem dedicado toda uma vida ao progresso da Oftalmologia portuguesa e ao bem-estar da comunidade”.

 

Olhos que mentem

 

Sinónimo de excelência, rigor e inovação, o Centro Cirúrgico de Coimbra é uma referência no panorama internacional. Pelos seus consultórios e salas de cirurgia passam todos os anos milhares de cidadãos anónimos cujo único “capricho” é voltar a ver.

 

20 de fevereiro de 2015. A tarde está cinzenta em Coimbra. Mário (nome fictício), de 38 anos, afunda-se ainda mais no banco do pendura enquanto o carro onde segue galga os últimos quilómetros em direção à tal consulta de oftalmologia. Hoje, não tem como fugir. Para trás deixou a Alta da cidade, onde fez uma rápida incursão à procura de um consultório que já ali não está, e um par de anos a esconder dos outros a perda progressiva de visão.

Neste momento, apenas um guardanapo garatujado por uma empregada de limpeza o liga ao seu novo destino. Sim, o doutor tinha-se mudado. A consulta que tem marcada é afinal no Centro Cirúrgico, uma unidade de saúde privada na periferia, e já está atrasado. Volta a concentrar-se no que vai dizer. Apesar da permanente negação e da ocultação da sua incapacidade, não é verdade que não tivesse procurado ajuda. Pelo contrário, aos primeiros sintomas tinha-o feito. O resultado esse é que nada acrescentou: “inconclusivo”. É tempo de corrigir o erro. Um “erro” que o deixou sem diagnóstico e, mais grave, sem tratamento.

Nesse dia o médico foi confrontado com uma situação de extrema gravidade. Era necessária uma segunda opinião, talvez mesmo a realização de exames complementares. Mário regressou a casa sem os “comprimidos” que esperava e com a obrigação de se apresentar no dia seguinte. Sábado, bem cedo.

Em passo rápido e marcado entrou no centro. O casaco pelas costas e os ténis coloridos davam-lhe um ar de quem vai de visita, o semblante carregado e a cabeça baixa de impotência.

Sentado, em silêncio, Mário é apenas um pequeno ponto na imensidão da sala de espera. Os incontáveis sofás contrastam com o número de pessoas neles sentadas. Apenas ele e a sua namorada de sempre ali aguardam. A porta abre- se. À sua espera encontra António Travassos, considerado por muitos um   dos

melhores cirurgiões oculares do mundo. Mário não “faz a mínima ideia disso”. É uma conversa de meias palavras. Sai, faz mais exames, espera novamente e volta a entrar. O que ouve a seguir gela-o.

“Não sei se o vou operar, mas se o fizer é já esta tarde. Diga-me o que pretende.” Perde-se o velho por não poder e o novo por não saber, diz o povo, e tem razão. Os corredores e as áreas comuns do Centro Cirúrgico parecem-se mais com as instalações de uma galeria do que com um portal de acesso aos cuidados de saúde: as luzes indiretas, os enormes quadros e um infindável número de obras de arte provocadoramente abandonadas formam um jogo rítmico complexo que demora os sentidos. À primeira vista (ou antes dela), não é fácil imaginar este contraponto. Lá fora algo de semelhante acontece. A arquitetura dos seus dois edifícios é também antagónica harmonizando à sua maneira, tal como a cidade de Coimbra, todas as “memórias e patrimónios” com os novos saberes.

Situada na margem esquerda do rio Mondego, bem perto da saída para S. Martinho do Bispo, esta instituição é uma das faces visíveis e uma das beneficiárias diretas de toda uma indústria emergente de alta tecnologia que se especializou na saúde. Sobre este último ponto não há muito espaço para discussão. Em dezassete anos, o Centro Cirúrgico de Coimbra, que teve a honra de receber António Champalimaud para ser observado antes mesmo de abrir as portas, tornou-se provavelmente um case study de estratégia, visão e persistência no panorama internacional.

Pela mão de António Travassos, cresceu e ganhou asas. Os relatos na imprensa

– generalista e da especialidade – confirmam isso mesmo. Desde o dia “quatro de julho de noventa e nove” – data que consta na sua certidão de nascimento – que este centro tem vindo a trilhar um caminho de afirmação global – hoje são cerca de meia centena os países que já tiveram cidadãos nacionais em tratamento nesta unidade.

Há dezassete anos o melhor estava para vir. No rescaldo deste percurso que continua a ser escrito, há vitórias e há derrotas. Sim, derrotas. Em certos casos, nas patologias graves que evoluem de forma complicada, “não há milagres”. “Há ciência”. E, como diz António Travassos, por vezes consegue-se roubar a Deus

“algumas migalhas”. Nestes casos, contas feitas, nem que fosse só uma. Certo é que os casos de sucesso têm tido eco na opinião pública.

Mandam todos os manuais de jornalismo que o adjetivo seja utilizado “com extrema parcimónia”. Contudo, não é isso que acontece quando o Centro Cirúrgico de Coimbra é notícia. Entorpecida a imaginação, “inédita” torna-se quase sempre a escolha óbvia na hora de enunciar a ação nunca vista ou nunca antes tentada. “Inédita no mundo” a cirurgia que em julho de 2015 pôs um doente a ver, “inédita” a cirurgia em que se realizou o “primeiro transplante duplo de córnea”, “inédita” a exposição com imagens reais do olho humano que chegou a Nova Iorque, “inédita” a primeira cirurgia oftalmológica do mundo filmada em vídeo 3D? Sim, todas sem exceção. Por cada crítico que alerta para a debandada de cérebros no Serviço Nacional de Saúde (SNS), por cada clamor que se insurge contra o facto de haver em Portugal uma saúde para ricos e outra para pobres, há sempre a voz realista de alguém que corre o risco de não voltar a ver. “Esta é, quase de certeza, a minha última oportunidade”, revela Helena, outro nome fictício, depois de quatro intervenções falhadas num hospital do Porto. O dinheiro, esse, “pouco importa”. A discussão também não.

 

O que é que António Travassos tem?

Mas o que é que tem António Travassos, para além de ter todos os traços de quem pensa em grande como convém a um homem? Provavelmente, o nome pode não lhe dizer grande coisa, mas Travassos é um tipo famoso. À sua maneira, este cirurgião discreto de 66 anos, de cabelo grisalho, sabe o que é ser uma referência e o esforço que é preciso para lá chegar.

Nascido no Alto Alentejo, com as serranias da Beira pelas costas e as vastas planícies nos pés, António descobriu já tarde o jeito para a ciência depois de anos a “afinar platinados”. Os motores, a sua “predileção” de sempre, ficaram para trás. Rumou a Coimbra para estudar Medicina. Não era uma paixão absoluta, mas sim a convicção de que a “tradição da cidade” lhe poderia dar “uma preparação completamente diferente”. Fez-se médico, esteve nos Estados Unidos onde lidou de perto com as “técnicas mais sofisticadas da cirurgia de

então” e só perto dos 40 percebeu que, em termos profissionais, a Medicina tinha sido a melhor coisa que lhe “podia ter acontecido”.

Foi em Coimbra que todas as vontades confluíram para o mesmo caminho. Foi em Coimbra que germinou e se afirmou o cirurgião. Primeiro, esforçou-se por aprender. Hoje, a sua prática procura dar um contributo para a aproximação da Medicina a todas as outras ciências exatas. De Travassos sabe-se também que é um verdadeiro “tudo-em-um”. Um oftalmologista, um engenheiro, um comunicador e um artista. Em discurso direto as suas intervenções confundem- se com o contexto em que é interpelado. Com estes tem em comum a capacidade de adaptar e de aprimorar os processos e as técnicas aos problemas que tem pela frente.

Inteligente, inquieto e provocador, António Travassos é, não raras vezes, um inconformado que questiona incansavelmente a razão das coisas e muitas das opções políticas no campo da saúde.

Já lá vão quase 10 anos desde que se retirou do Hospital de Coimbra abandonando, de vez, o Serviço Nacional de Saúde. Recusou ser mais uma testemunha no processo nacional de retirada de competências e condições aos profissionais de saúde. A cidade, essa, continua a reunir todos os predicados “para ter o melhor hospital deste país”. Mesmo assim, tal não foi suficiente para o segurar. Saiu de costas voltadas. O grande desígnio nacional com todas as suas vicissitudes, a visão para a Oftalmologia que ainda hoje não entende, não lhe interessa a si quando não serve o doente. Chapeau.

Em 2015 Cavaco Silva agraciou-o com o grau de Grande-Oficial da Ordem do Mérito, condecoração que é concedida a pessoas a quem o presidente da República reconhece este valor e (ou) que revelem desinteresse ou abnegação em prol da comunidade. A sua “pegada”, o seu contributo para o progresso da oftalmologia portuguesa e para a melhoria da qualidade de vida dos seus doentes, já está na história.

 

Prognóstico reservado

Marcada nos últimos anos por uma forte melhoria técnica e científica, a oftalmologia nacional é como o país, entre o oito e o oitenta. O diagnóstico e o tratamento das doenças da visão tanto são o melhor dos mundos como o pior dos pesadelos.

Ao contrário do que se acredita, estas doenças representam cada vez mais um problema de saúde pública em Portugal. 37 anos depois da criação do SNS, da consagração dos direitos, liberdades e garantias, os números assustam. Os grandes indicadores da saúde, o aumento da esperança média de vida ou a redução da taxa de mortalidade infantil, não servem para traduzir esta realidade. O retrato aqui é negro.

Quando o discurso dominante esconde todo um cenário de drama, o que é que está a ser feito pelos cerca de cinco milhões de portugueses que sofrem de “alterações da visão, desde a diminuição da acuidade visual até à cegueira”? A quem se pergunta pelos 20 por cento de crianças e por cerca de “metade da população adulta” que sofre de erros refrativos graves? A quem importa que “metade das pessoas com cegueira” se encontre em idade ativa?

A tentação de responder “nada” ou “a ninguém” é seguramente grande. Mas para lá destes números, que há mais de uma década mancham as linhas orientadoras da saúde, nota-se o esforço. Mário sabe que não é caso único em Portugal. Na verdade, só no ano passado foram realizadas cerca de 150 mil cirurgias oftalmológicas, segundo o relatório síntese da atividade cirúrgica programada publicado pela Administração Central do Sistema de Saúde. No documento, outra surpresa. Apesar desta especialidade liderar por larga margem a lista de cirurgias efetuadas, à frente de especialidades como a Cirurgia Geral e a Ortopedia, as listas de inscritos para cirurgia têm aumentado todos os anos. No final do ano de 2015 estavam cerca de 40 mil portugueses em lista de espera, um aumento de 16,8 por cento face ao ano anterior. A preocupação está bem vincada? É difícil cair nessa ilusão quando os resultados teimam em desiludir.

Não houve propriamente tempo para pensar. Convencer António Travassos de que valia a pena operar, foi mesmo a “parte mais difícil”. Mário tinha um descolamento de retina no olho esquerdo, uma das doenças oculares mais graves que pode terminar na perda de visão, e o outro em muito “mau  estado”.

Quanto à “saúde” do seu saldo bancário, que nem a consulta conseguia pagar, nem uma palavra.

Sete meses depois entrou pela última vez no gabinete do médico. Mário tinha-se safado “antes da última badalada”. As cinco intervenções cirúrgicas levaram as poupanças de uma vida. Ele não as tinha. A sua namorada esforçou-se por pagar e pagou. Travassos, “distraído”, “esqueceu-se” de cobrar os seus honorários por duas vezes. Os olhos, a ele, não mentem. As pessoas sim. A despedida nunca chegou a acontecer.

O amor dos dois salvou-lhe a visão. O amor dela por ele, a devoção de António Travassos à sua ciência, deixam ensinamentos para a vida. Há dias que começam e nunca acabam. Dias em que se joga às cartas com a vida, num desafiador “deixa andar”, e se perde. Até ali, Mário estava à secretária no escritório de uma imobiliária. Tinha um salário curto, mas o despertador insistia em o acordar todos os dias às 8 da manhã. Hoje, cerca de um ano e meio depois, fecha-se em casa num longo processo de recuperação que o tem afastado lentamente da escuridão.

Sentado no muro, de olhos postos no centro, Mário dá por terminada a conversa. Ainda olha para aquela porta. “Fechada, como sempre”. Lá dentro, António Travassos continua a querer salvar o mundo. Um paciente de cada vez.

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