O Queijo da Serra e a falta de memória

por Rua Direita | 2015.02.16 - 17:42

 

 

Com mais ou menos produção, os concelhos que compõem a Região Demarcada do Queijo Serra da Estrela, estão em festa. O frio ajuda na apresentação e no paladar.

As mãos sábias de quem transforma leite numa das Sete Maravilhas Gastronómicas de Portugal e as que seguram o cajado 365 dias por ano, onde não estão, deveriam estar no centro das atenções.

Sem  a sua mestria, a nossa mesa estaria, certamente, mais pobre.

A comunicação Social, com destaque para a mais valia da imagem da televisão, muito tem ajudado para fazer, nesta época, do Queijo da Serra, rei.

Rei no sabor e na forma como abre portas a estes concelhos, quase esquecidos, ao longo dos restantes 11 meses do ano.

É assim, há mais de TRINTA ANOS!

IIfesta queijo AGB

Ao logo de três decadas que se inventaram e reinventaram formas de atrair gente através de uma coisa tão simples quanto maravilhosa que é o Queijo da Serra.

Ano após ano, surgiram concursos, festas, homenagens, de maior ou menor dimensão, também de acordo com a produção e exigências que nem sempre ajudaram nesta multiplicação de recuperar e manter uma tradição por onde pode passar parte do futuro deste Interior.

Uma coisa é certa, todos os 18 concelhos envolvidos foram sendo ouvidos e falados através deste manjar.

De uma forma mais ou menos caseira, de ano para ano, cumpriu-se a tradição.

Aguiar da Beira não fugiu à regra. Foi sempre, acima de tudo, um convívio popular como forma de homenagear pastores e queijeiras. Durante TRINTA ANOS, honrando sempre os pioneiros da ideia, inovando sempre que possivel e sempre fazendo jús a uma iniciativa que passou a ser uma tradição. Entretanto, na Câmara Municipal, mudavam, democraticamente, os protagonistas, ainda assim, a preocupação foi fazer sempre melhor.

Há dois anos assinalou-se a 30ª edição da Feira Festa do Pastor e do Queijo, como sempre uma festa comunitária onde se partilhou, mais uma vez, o que a terra dá e o homem transforma.

O ano passado assinalou-se a 1ª Festa do Pastor e do Queijo… caiu a “feira” , a “serra” e, mais grave que isso, o respeito pelo passado.

Este ano é a 2ª…

Ainda que se queira, estupidamente, apagar o que foi feito, está-se a correr outro risco, este mais preocupante e que nada tem a ver com sentimentos mais ou menos bairristas ou mesmo politiqueiras – e se uma candidatura comunitária depender do histórico de um evento? Apagaram-se 30 anos de história. Quem vai pagar o preço do que isso pode representar para o futuro do nosso concelho?

Isto para não falar do facto de que parece que se está, apenas, a copiar mais uma ideia dos concelhos vizinhos…

Com a mesma frontalidade com que tiro o chapéu à ideia do concurso de ovinos, lamento esta tentativa de branquear a história.

E não, não culpem o queijo pela falta de memória que esse é o mais inocente em tudo isto, o tempo veio ditar que afinal é um alimento rico em cálcio e de fósforo, tão importantes para o trabalho cerebral.

Só a título de remate e também como prova de que o tempo passa mas muita coisa fica já no século XIX, o escritor Ernest Renan deixava para reflexão: “Os verdadeiros progressistas são os que partem de um profundo respeito pelo passado”.

 

Teresa Barranha

Projecto na área da comunicação social digital, 24 horas por dia e 7 dias por semana dedicado ao distrito de Viseu

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