“Nunca vi o Dia da Liberdade celebrado com tanta fidalguia e verdade como em Sernancelhe.”

por Paulo Neto | 2014.04.26 - 22:13

Poucos concelhos do distrito há que festejem o 25 de Abril com a dignidade e sentimento de Sernancelhe. Princípio criado por José Mário Cardoso, continuado por Carlos Silva Santiago.

Este ano, o homenageado foi Dom Manuel Martins, Bispo Emérito de Setúbal, uma personalidade reconhecida e de méritos firmados pela sua postura de acérrimo defensor da Constituição e dos direitos humanos.

Com ele veio “o vice-rei do Norte”, General Pires Veloso. Veio Lima Bastos, escritor consagrado a Aquilino. Vieram as gentes dos 4 cantos do Concelho. Veio a Academia de Música local com seus exímios alunos e mestres, veio a Banda tocar, houve cravos para todos e almoço de porta aberta.

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O Salão Nobre encheu-se. Todos tiveram uso da palavra. Discursou o vereador da Cultura. Um deputado municipal. O presidente da Assembleia Municipal. Uma vereadora da oposição. O homenageado. O presidente da Câmara. O 25 de Abril por todos foi enaltecido.

No Centro de Artes inaugurou-se uma exposição sobre a Vida de Dom Manuel Martins. Falou o escritor Lima Bastos. Falou o general Pires Veloso. Falou o presidente da Câmara. Encerrou o homenageado. Abril esteve na boca de todos.

Com a Banda a tocar e a seguir-nos – que bonito! – o Auditório Municipal aguardava-nos. Os alunos da Academia de Música, ao piano e à concertina mostraram suas virtudes. Alguns com meia dúzia de aninhos e muita mestria. Veio a Rute e cantou. Cantou Zeca Afonso. Cantou Grândola. Com a sua voz cheia, rica, profunda. Sem querer, não contive aquela “lágrima ao canto do olho”. Estava fraternamente sentado entre o ex-presidente e o actual presidente da autarquia. Dois amigos. E mais que dois amigos meus, dois amigos entre si. Fenómeno de urbanidade e civilidade pouco abundante por aí…

Toda a população foi convidada. Veio quem quis. Houve um almoço-convívio de portas abertas. O executivo, a oposição, homenageado e o povo. É Abril. É o Abril de Sernancelhe.

Que linda festa… Dom Manuel Martins tem Sernancelhe no coração. Alardeia-o em todo o lado. Como nós sabemos porquê! O Engenheiro Aquilino Machado Ribeiro – tão saudoso – tinha Sernancelhe no coração. Como nós sabemos porquê!

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Do discurso de Carlos Silva, presidente da autarquia, muito aplaudido, começamos por destacar o público elogio à ex-presidente da AM, ao ex-presidente da autarquia e ao homenageado:

(…)

– Dra. Adélia Sobral, que durante oito anos conduziu a Assembleia Municipal com notável sentido democrático, pugnando sempre pelos valores cimeiros de Abril, pela concretização dos direitos e deveres da vida em sociedade, aqui tantas vezes defendendo nos seus discursos de Abril os direitos das mulheres e alertando para valores de liberdade que a sociedade tarda em cumprir.

– Dr. José Mário de Almeida Cardoso, um sernancelhense que ao longo de 24 anos se dedicou, com paixão, sentido de rectidão e reconhecido brio profissional, à sua terra.

Da sua acção como Presidente da Câmara Municipal é testemunho o Concelho que hoje conhecemos, um território ordenado, planeado e de futuro.

Comemorar o 25 de Abril desta forma, com este sentido e vigor, colocando Sernancelhe entre os Concelhos que sabem valorizar a Liberdade, é mais uma herança que nos lega. Muito obrigado.

– D. Manuel da Silva Martins, Bispo Emérito de Setúbal, que hoje homenageamos, uma personalidade de referência no nosso País, um exemplo inquestionável dos valores da democracia social, do amor e dedicação ao próximo, um homem que dedicou a sua vida à defesa dos mais vulneráveis e pobres; o prelado que ousou dar voz aos desvalidos da sociedade num tempo de censura e que hoje, neste país democrático, entende, e cito, é preciso chamar a atenção para os valores do 25 de Abril. É preciso restaurar esses valores. Não é preciso fazer outro”.

(…)

Assinalam-se hoje por todo o País, os 40 anos decorridos do 25 de Abril de 1974.

É uma data histórica, um marco que simboliza a conquista da liberdade e um momento de viragem num Portugal até então oprimido e reprimido.

Num país em que, como dizia Aquilino Ribeiro, “O português resigna-se a tudo menos a não ter opinião ou a não deitar a sua sentença”, limitar a liberdade de expressão era impedir a criação, adiar o desenvolvimento e condenar o País a um atraso geracional.

Por isso, Abril representou e representa um tempo de mudança. Novas oportunidades surgiram, uma janela de esperança abriu-se e o sonho de um país mais justo e igualitário floresceu.

Mas os ventos de mudança que Abril nos trouxe foram desaproveitados, em muito, pelo nosso País.

O nível de vida prometido esvaiu-se, os tempos de euforia redundaram em períodos de míngua, o desenvolvimento ansiado foi hipotecado por exageros e, regra geral, os investimentos feitos foram desajustados da realidade de um Portugal que cresceu a duas velocidades.

Crescemos em números, mas estagnamos em desenvolvimento.

Portugal vestiu fato de rico quando nunca deixou de ser pobre.

Esta realidade de uma sociedade carente de referências como as idealizadas com Abril, tornou-nos vulneráveis.

O fracasso económico chegou e fomos resgatados, impondo ao País, e principalmente ao Interior, dificuldades e sacrifícios que o podem condenar à extinção forçada.

Não podemos, de forma alguma, assistir impavidamente ao esvaziamento do interior, ao encerramento de serviços ou ao desaparecimento daquilo que tanto custou a conquistar.

Foi Abril que nos deu o Poder Autárquico, que garantiu às nossas populações a existência de serviços descentralizados do Estado.

Foi Abril que trouxe o Estado às pessoas, aproximou as nossas aldeias dos centros de decisão, fazendo-nos crer que era possível nascer, viver e trabalhar no interior de Portugal.

O desafio que temos pela frente nos próximos tempos é sério.

Percebemos, infelizmente, que os tempos são de frieza e não se compadecem com emoções ou com revoltas das populações.

Vivemos, incompreensivelmente, um tempo em que só os números parecem importar e, inacreditavelmente, crê-se que só os números nos podem salvar.

A ser assim, parece estar nas nossas mãos, de todos e sem excepção, a capacidade de exigir a resolução imediata dos nossos problemas e a permanência de todas as repartições públicas no nosso Concelho.

É extremamente importante que os serviços do Estado, em Sernancelhe, sejam eles de notariado, finanças, segurança social, saúde ou educação sejam capazes de ser produtivos, de ser dinâmicos, e servir a nossa população.

É premente que os funcionários exerçam com brio as suas funções e, tenho a certeza, estaremos melhor posicionados nas estatísticas que importam para que os serviços não fechem.

– Se conseguirmos que os nossos munícipes não tenham de ir a outros concelhos fazer escrituras, realizar consultas médicas ou outro qualquer serviço;

– Se todos exigirmos resolver no nosso concelho os nossos problemas, então os serviços terão de estar à altura das exigências, e estarão a cumprir e a justificar a sua existência.

– Se são os números que contam, então devemos exigir que os serviços sejam optimizados, sejam mais funcionais e mais virados para as necessidades reais das nossas gentes.

É este o desafio que temos de encarar como fundamental para exigir a permanência dos serviços e, porque não?, exigirmos mais serviços, novos serviços que atraiam mais pessoas, que fixem população, porque sabemos o quanto é importante para quem cá vive que haja boas escolas, bons centros de saúde e boas repartições públicas.

Contudo, o principal responsável pela optimização e pela manutenção dos serviços é o Poder Central, pelo que repudiamos a ideia de encerrar, quanto mais a sua efectivação.

Em Sernancelhe assumimos sempre as nossas posições.

Sabemos que as grandes dificuldades que vivemos, para além de limitarem as acções do município, são também um desafio para que aprendamos a viver com aquilo que temos, rentabilizar o que nos foi proporcionado, e ambicionarmos aquilo que é possível, não pondo em causa a sustentabilidade do Município e de tantas outras instituições, permitindo assim um futuro melhor para as gerações vindouras.

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(…)

Sernancelhe é um concelho do interior, longe do poder central e parco em recursos económicos, mas um Concelho de gente determinada, resistente, empreendedora e assente em valores como a família, o trabalho e o respeito.

Foram estes valores que Abril potenciou, pondo a descoberto o que de melhor nos definia.

Por isso o Concelho de Sernancelhe assumiu, há muito, o desafio de ser uma terra de causas e de gente que encara as dificuldades como estímulos para fazer sempre mais e melhor.

O sentido de pertença, a comunidade e a família são valores fortes, bem enraizados, que nos distinguem e que garantem que neste concelho os desafios ultrapassam-se com união de esforços, com parcerias, com muito trabalho e com dinamismo redobrado.

O apego à terra é muito forte e o investimento das nossas gentes nas suas freguesias é uma realidade que nos enche de esperança, comprovando que sabemos criar atractividade e fixar as nossas gentes.

De acordo com os últimos Censos, fomos dos Concelhos do Distrito de Viseu que menos gente perdeu na última década, e temos cada vez mais jovens apostados na agricultura e na profissionalização deste sector vital para a nossa economia.

O empreendedorismo é pois uma certeza em Sernancelhe. A visão inovadora dos nossos empresários e de quem investe na nossa terra é também uma conquista de Abril. Muitas portas se abriram e temos sabido aproveitar cada oportunidade com afinco e determinação.

Em 2013, o nosso Concelho rejubilou com a distinção de quatro das suas empresas como sendo das maiores do Distrito, representando, na totalidade, perto de 26 milhões de euros de volume de negócios, e garantindo trabalho a cerca de 200 pessoas do nosso Concelho.

A boa prestação das empresas do Concelho de Sernancelhe, que reflecte a visão empreendedora dos seus proprietários e gestores, foi novamente reconhecida pelo Instituto Nacional de Estatística, ao considerar Sernancelhe como o 13º Concelho mais exportador do Distrito.

O sucesso das nossas empresas e dos nossos empresários é a confirmação de uma realidade que é já uma marca de Sernancelhe:

Ao contrário do que acontecia há uma década, em que o Município era dinamizador e potenciador de acções, hoje são as empresas, são as comunidades e são as pessoas que, com a sua determinação e empreendedorismo, motivam o município para fazer mais e melhor.

Notável é também o sentido produtivo de muitas das nossas empresas, responsáveis pela recolha e transformação de produtos autóctones, de base agrícola, gerando retorno económico para todos quantos trabalham a terra, garantindo igualmente postos de trabalho, qualidade de vida para as nossas gentes e assegurando o crescimento sustentável do nosso território.

Não esquecemos também o extraordinário contributo dos nossos emigrantes que, apesar de estarem longe, continuam a acreditar na sua terra natal, são os nossos embaixadores no Mundo, e divulgadores empenhados dos nossos produtos, daquilo que por cá produzimos, tantas vezes desbravando caminho para que as nossas empresas vinguem em mercados longínquos mas muito rentáveis.

 

(…)

Tudo isto só foi possível graças ao 25 de abril.

É, pois, com muito orgulho que informo que, neste preciso momento, temos um jovem de Sernancelhe, natural de Ferreirim, de seu nome Luís Ferreira, a fazer uma intervenção no Salão Nobre dos Paços do Município de Viseu, lendo um bonito discurso sobre o 25 de Abril, em representação da comunidade escolar do distrito.

Por aqui também se vê a têmpera dos jovens de Sernancelhe que, tal como Aquilino Ribeiro, mantêm o apego à sua terra, procurando sempre, e em todos os momentos, engrandecê-la.

Acredito, por isso, que tal como escreveu Mestre Aquilino Ribeiro “…para chegar a bom termo da viagem é preciso ser livres”.

                 E é preciso também que preservemosos valores de abril para que a nossa terra continue a revelar todo o seu potencial, ganhe espaço no nosso País, e seja conhecida e reconhecida por aquilo que as suas gentes são capazes de fazer bem.

(…)

Homenageamos hoje D. Manuel Martins, um exemplo dos valores sociais que devem nortear a nossa sociedade.

Uma referência que tentamos seguir no dia-a-dia da nossa acção política, indo ao encontro das necessidades e dos anseios da nossa população.

Fazemo-lo dentro das nossas possibilidades, como acontece com o apoio na comparticipação dos medicamentos à população mais idosa e com menores rendimentos; apoiamos já perto de um milhar de sernancelhenses, num investimento que ronda os 150 mil euros anuais; é uma medida de extraordinário alcance social, que muito contribui para a qualidade de vida de quem mais precisa.

Temos em funcionamento uma rede de centros lúdicos, que contemplam já nove freguesias, levando aos mais de 300 utentes inscritos neste programa actividades de reconhecida valia social.

Conseguimos, com este projecto, e também com a extraordinária colaboração das juntas de freguesia, recuperar antigos edifícios escolares, reactivar espaços nas diversas comunidades, dinamizando ao mesmo tempo associações musicais e desportivas.

Tem sido esta a marca de Sernancelhe, que queremos continuar a concretizar, tendo sempre presente que nos move um reconhecimento extraordinário para com as gerações mais velhas.

(…)

Hoje é um dia em que medimos a vitalidade do 25 de Abril.

Um dia de reflexão que nos conduz a uma certeza: o 25 de Abril só foi possível graças a um conjunto de homens que agiram legitimados pela vontade de um povo.

Por isso, esta conquista é uma obra de todos, pelo que todos temos a responsabilidade de a perpetuar.

Sinto que hoje, ao reconhecermos D. Manuel da Silva Martins, volvidos 40 anos sobre este marco histórico, estamos a dar um sinal evidente de que nos revemos na sua acção em prol dos outros, no seu papel na sociedade e que partilhamos dos valores que definem a sua conduta.

Como Concelho do Interior de Portugal, admiramos o seu sentido social, a forma simples e desinteressada como estende a mão aos necessitados, como dá voz aos ostracizados, como sempre soube subir ao monte mais alto para alertar para as injustiças e desumanidades.

É essa uma das marcas maiores de Vossa Excelência Reverendíssima, que a história de Portugal registou, quando em 1975, em pleno Verão Quente do PREC, e tendo sido nomeado 1º Bispo de Setúbal, enfrentou, ao lado daquela população um clima social marcado pela instabilidade e por todo o tipo de carências, tendo-se envolvido activamente na vida daquele povo, sempre com enorme sentido de serviço, sobretudo para com os mais carenciados e marginalizados, de tal maneira que granjeou reconhecimento nacional.

Também não esquecemos o papel activo de Vossa Excelência Reverendíssima na questão de Timor-Leste, a sua intervenção na sede da Organização das Nações Unidas, alertando para o flagelo daquele povo, pelo qual Sernancelhe organizou uma Marcha da Paz em 1999, tendo recebido, em Abril de 2004, a visita do Comandante Xanana Gusmão, o primeiro Presidente da República a visitar concelho de Sernancelhe.

Admiramos, pois, o brilhantismo da sua acção como Bispo, reconhecemos o exemplo que a todos deu no campo religioso e social, percebemos o sentido da sua incansável busca pela dignificação do ser humano, a luta empenhada e destemida por causas sociais que os poderes instituídos tendem a ignorar.

Revemo-nos nos valores da vida que sempre praticou e que, afinal, são pares dos valores sonhados com Abril, mas que quatro décadas depois, a liberdade isoladamente ainda não concretizou plenamente.

E permita-me que o cite, socorrendo-me da sua obra “D. Manuel Martins, O Bispo de Todos”: “Não vou dizer que o meu caminho é melhor porque esse caminho é, fundamentalmente, a consciência recta de quem o procura. Nós, católicos, escolhemos este, julgamos ser o melhor. Mas tenho presente que aquilo que define o homem é a liberdade. Deus criou-nos livres… A cada um caberá a escolha do seu próprio caminho e rumo”.

 É pois uma honra e uma alegria para o Município de Sernancelhe inscrever o nome de D. Manuel Martins na nossa História.

O seu contributo para o engrandecimento da nossa terra é inegável.

O tamanho do seu exemplo é inquestionável.

Segui-lo e aplicá-lo é o desafio que diariamente procuramos cumprir.

(…)

Volvidos 40 anos desta data histórica, sem dúvida um marco incontornável do nosso País, é com um orgulho enorme que admiramos as conquistas que a nossa terra conseguiu alcançar nestas quatro décadas.

Orgulhamo-nos da nossa terra, de sermos guardiões de valores supremos de uma sociedade justa, fraterna e solidária.

Valores que definem o saber estar, o saber cumprir e o saber realizar e, desculpem-me, MEUS SENHORES E MINHAS SENHORAS, esta presunção, mas provavelmente o interior de Portugal devia ser olhado como um exemplo para o País, e os nossos governantes deviam beber desta autenticidade, desta inspiração, e colocá-la ao serviço do nosso Povo.

bispo

Do discurso de D. Manuel Martins, destacamos:

“Os partidos políticos, expressão essencial da democracia que nos seus projectos procuram que no seu povo e pelo seu povo se garanta o fundamental do chamado estado social, o estado social que nos merecia aqui uma profunda e séria reflexão, o estado social tão sonhado, tão necessário e tão urgente que constitui um direito essencial da nossa vida sã humana e que vem sendo tão maltratado

(…)

“Porque estou aqui? Verdade que desde a primeira hora gostei de Sernancelhe, jóia preciosa incarnada na nossa mais que bela Beira Alta, verdade que foi Sernancelhe que com a ajuda do dr. Lima Bastos me pôs de joelhos diante de Aquilino Ribeiro, que embora nem sempre goste de mim, passa à História também como cavador de palavras escondidas e muitas vezes nem existentes nos tesouros das falas da nossa gente. Verdade que me deixei encantar pela simplicidade e transparência deste povo trabalhador e sério de Portugal. Verdade que se insculpiu na minha alma, a par das belezas naturais – que tudo aqui é – algumas magnificentes obras de arte que os homens, ao longo da História, por aqui foram plantando. Verdade que me tocou a afabilidade do senhor Presidente, senhor dr. José Mário Cardoso, já acompanhada por igual pelo seu vice-Presidente. Verdade que me consolava o clima fraterno das festas por aqui acontecidas, clima que assumia uma das suas expressões mais simpáticas nos almoços largamente participados para os quais era convidada toda a gente da Terra. Verdade que nunca vi o Dia da Liberdade celebrado com tanta fidalguia e verdade como em Sernancelhe. Cheguei a escrever um artigo sobre o tema augurando que todos aqui pusessem os olhos todos os combatentes do Abril de Portugal.”

(…)

“Evangelizar é anunciar Jesus Cristo. Mas anunciar Jesus Cristo como ele é. Anunciar Jesus Cristo incarnado na vida dos homens e na vida do mundo. É anunciar Jesus Cristo participando e comungando os sofrimentos dos homens, as angústias dos homens. E esta evangelização realiza-se em três dimensões: A primeira dimensão é a chamada dimensão litúrgica. A Igreja evangeliza e anuncia Jesus Cristo, o maior provocador da Humanidade (…) A Evangelização tem de provocar sempre uma incomodidade, uma insatisfação, uma inquietação por parte de quem é evangelizado.”

(…)

“A segunda dimensão é a de serviço, de ajuda, para que não falte o pão a muita mesa. (…) Se as instituições funcionam como empresas não evangelizam. (…) A terceira dimensão é a profética, a chamada dimensão evangelizadora mais pobre. Consiste em quê? Em proclamar em toda a parte, oportunamente e inoportunamente a dignidade do homem, o valor do homem, o homem é o centro do mundo, tudo foi feito pelo homem. O homem vale Deus e por conseguinte a Igreja tem que despertar nele o sentido de grande dignidade, de grande respeito por si mesmo e de grande respeito pelos outros. O respeito é o princípio de toda a sociedade democrática. (…) Quando falta o respeito falta tudo. Quando falta o respeito de cada um por si e de cada um pelo outro e por todos, como está a acontecer por todo o mundo, está a acontecer também em Portugal, nós, por favor, façamos silêncio, reflictamos em busca dos caminhos que devemos percorrer para não andarmos assim a empurrar, a ignorar, a ofender, a insultar, etc. Esta dimensão profética consiste em proclamar insistentemente, conscientemente a dignidade da pessoa humana. O homem vale Deus. É preciso ajudar as pessoas a descobrir a sua própria dignidade. A Igreja tem que ajudar as pessoas a descobrir que são gente, agentes, construtoras de História, para que não se deixem manipular. Para que não se deixem enganar. Para que não se deixem levar. Para que não se deixem gozar. E a nossa sociedade é muito manipulada, não tenhamos dúvidas. Mesmo naquilo que muitas vezes nos é apresentado como espontâneo, há muita manipulação. E enquanto nós nos deixarmos manipular, nós não temos a consciência que somos gente, que somos construtores de História, que somos alguém e por conseguinte que temos o direito de sermos respeitados. É também uma função muito importante da Igreja denunciar as situações, os comportamentos que agridam os direitos fundamentais da pessoa humana. A Igreja tem que denunciar, sem medo e com coragem as agressões que se cometem contra a dignidade humana, contra os chamados direitos humanos. Quando estava em Setúbal eu dizia aos meus cristãos que faziam muito bem em se reunir, em rezar o terço, mas que não deixassem de se reunir para examinar a sociedade em que estavam inseridos, a sociedade que os envolve. (…) O nosso povo tem um guião formidável que são os 55 artigos da nossa Constituição Portuguesa. Do 24 ao 79, que são os Direitos, Liberdade e Garantias. Nós devemos estudar isto como quem estuda a doutrina para fazer a 1ª comunhão. A família deve reunir-se e estudar o que lá está: os Direitos Humanos. É o Evangelho traduzido em linguagem do nosso tempo. (…)

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