“Novo Rumo” passa por Mangualde

por Pedro Morgado | 2014.02.23 - 01:14

“Não me temo de Castela, donde inda guerra não soa, mas temo-me de Lisboa que, ao cheiro desta canela, o reino nos despovoa”. É quase caricato como, passados quase 500 anos desde o desaparecimento de Francisco Sá de Miranda, estas palavras tenham ganho na passada sexta-feira uma indesmentível atualidade e um novo alento e, às “mãos” de Acácio Pinto, deputado do Partido Socialista (PS) eleito pelo círculo de Viseu.

Durante a convenção “Um novo rumo para Portugal” realizada em Mangualde, o hotel Senhora do Castelo foi o palco escolhido pela Federação de Viseu do PS para dar a conhecer e para debater os anseios das populações deste distrito quando António José Seguro, secretário-geral do PS, procura lançar uma contra-ofensiva no plano nacional que afirme e que comprove a existência de políticas alternativas à governação seguida por Pedro Passos Coelho.

No momento em que os “municípios estão a passar por grandes dificuldades” decorrentes em grande medida das quebras nas transferências do Estado e, ao mesmo tempo que é patente uma efetiva perda nas receitas locais que “afeta a vida dos cidadãos”, João Azevedo, Presidente da Federação de Viseu, defendeu a importância do novo quadro comunitário de apoio, uma verdadeira “oportunidade de ouro”, para que se possa continuar a desenvolver os projetos necessários ao equilíbrio regional.

“Defendo a discriminação positiva. O interior tem alguns problemas de base, alguns problemas estruturais, que têm que ser contrariados. A saída diária de pessoas dos nossos concelhos e a terrível baixa de natalidade, que deriva naturalmente dos anseios das famílias que temem não ter capacidade financeira para poder corresponder aos anseios dos seus filhos, só podem ser combatidos através da atração de novos investidores e de novos investimentos que criem emprego e que, assim, criem riqueza”, disse.

Além da presença de João Azevedo e de António José Seguro, secretário-geral do PS, coube aos professores Mário Rui Silva e António Rafael Amaro a árdua tarefa de definir, destacar e de realçar a necessidade deste novo rumo, desta nova visão, no momento em que salientam, a coesão social e os anseios desta região se tornam imperativos fundamentais.

“Dispenso-me de desenvolver as dimensões do novo rumo em matéria de coesão social, tema em que o Partido Socialista e António José Seguro têm afirmado posições de grande clareza e conhecidas de todos. Nesta matéria (coesão social), o novo rumo é, em grande parte, o retomar de um rumo que sempre esteve inscrito nos programas do Partido Socialista. A aposta na educação e na qualificação dos portugueses são matérias nas quais importa voltar a definir objetivos ambiciosos: a qualificação de adultos, o combate ao abandono escolar precoce e o aumento do acesso ao ensino superior, domínios descurados ou mesmo abandonados pelo atual governo, são questões que exigem de nós uma resposta vigorosa”, salientou o professor da Faculdade de Economia da Universidade do Porto, Mário Rui Silva.

Já António Rafael Amaro, professor da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, não poupou nas palavras e foi claro na hora de mostrar aquilo que é preciso fazer e o que pensa da ação dos sucessivos governos nesta matéria: “A crise não nos deve inibir de colocar na agenda política nacional questões, tão importantes quanto esquecidas, como a necessidade de voltar a definir como prioridades as políticas de valorização dos territórios que invertam a progressiva desigualdade entre as regiões. A única coisa que todos sabemos é o seguinte: as políticas seguidas até hoje pelos vários governos não incluindo este, sendo o pior entre os piores porque não tem de facto outra política para além da austeridade, não tiveram os resultados desejados”, realçou.

Respondendo a todos aqueles que dizem que os maus resultados obtidos por este Governo se devem sobretudo à incompetência do executivo, o professor adiantou um cenário bem mais elaborado e fatalista.

“Há uma questão que me parece muito importante do ponto de vista político que é olhar para este Governo na base da incompetência. Eu estou de acordo que eles são incompetentes contudo, ao serem incompetentes na ação são muito competentes na ideologia e bastante bem preparados para aquilo que estão a fazer. […] Não podemos cair na tentação de ver as coisas apenas pelo lado da incompetência que é muita. Aliás, importa lembrar que se eles fossem realmente competentes o risco era muito maior”, lembrou.

A perda de 4,3 por cento da população residente no distrito de Viseu, registada entre os anos de 2001 e 2011, num “país tragicamente inclinado para o mar”, deve ser, referiu, uma preocupação fundamental para todos os socialistas no momento em que destacou, “ não vivemos tempos normais e, tudo aquilo que possa ser feito para ajudar Portugal e as regiões do interior é sempre pouco”.

“Estamos a ser obrigados a viver um momento político de tal forma excecional que calarmo-nos, alhearmo-nos ou refugiarmo-nos no silêncio comprometedor teria o efeito prático de parecer que pactuamos, de algum modo, com o mais profundo ataque ideológico de que há memória depois do 25 de abril relativamente a valores que fazem parte do património histórico da democracia portuguesa e do Partido Socialista”, sustentou.

No momento em que as questões relacionadas com a construção da nova ligação rodoviária entre Viseu e Coimbra e em que se discute a utilização do próximo quadro comunitário de apoio para ligar Viseu à rede ferroviária nacional vêm a lume na comunicação social, João Azevedo, presidente da federação e autarca do concelho de Mangualde marcou pontos e apontou “novos rumos” para as políticas de investimento rodoviário.

“Mais do que a last mile, a última milha na rodovia, defendida pelo ministro Poiares Maduro em Bruxelas, eu considero que este quadro comunitário devia contemplar a manutenção das nossas estradas. Há hoje estradas municipais e estradas regionais que, daqui a cinco, seis anos, no fim deste quadro comunitário, estarão numa situação deplorável e onde os municípios não terão a capacidade de tesouraria necessária para fazer qualquer ação de manutenção. Eu defendo que o novo quadro comunitário de apoio devia apoiar não a construção de novas estradas, uma vez que todos nós sabemos que Portugal é um dos países da Europa e do mundo com a maior rede de autoestradas, mas, sobretudo, prever uma intervenção que nos permitisse manter a rede de estradas que temos hoje com os níveis de qualidade que possibilitassem melhorias substanciais na sinistralidade”, sustentou.

Desde ontem e ao longo de três dias, 21, 22 e 23 de fevereiro, o Partido Socialista irá realizar 19 conferências em todos os distritos do continente. Mangualde, terra de tradições socialistas, engalanou-se e foi a cidade escolhida pela federação para juntar figuras como Jorge Coelho, braço-direito do ex-primeiro-ministro António Guterres e antigo ministro das Obras Públicas, José Junqueiro, Elza Pais e Acácio Pinto, deputados do Partido Socialista (PS) eleitos pelo círculo de Viseu, Miguel Ginestal, os autarcas de Nelas. Moimenta da Beira, Resende e Penalva do Castelo, bem como as bases do partido na receção a António José Seguro.

Neste debate aberto também à participação popular foram muitas as vozes que defenderam e que deram o seu contributo no sentido de promover uma participação maior do partido na defesa dos concelhos do interior nos momentos que antecederam a intervenção do secretário-geral do PS.

Durante a sua intervenção em Mangualde em que respondeu e contrabalançou as acusações saídas do congresso do Partido Social Democrata (PSD), António José Seguro desafiou o primeiro-ministro Pedro Passos Coelho a clarificar perante todos os portugueses quais são os cortes temporários e quais os cortes definitivos.

“Ficámos a saber esta semana que o governo negociou com a troika mais cortes nos rendimentos dos trabalhadores e, quiçá, dos reformados. E, a pergunta que eu faço em jeito de desafio ao primeiro-ministro é muito simples. Em primeiro lugar, não engane mais os portugueses e, em segundo lugar, diga com muita clareza são os cortes que o senhor prepara para serem definitivos porque os idosos e os reformados merecem de todo o respeito e merecem toda a verdade. É inaceitável que em democracia nós possamos ter um primeiro-ministro que tenta enganar os reformados e os pensionistas, que os tenta iludir e que os mantem na incerteza ao dizer: uma parte dos cortes serão provisórios e outros são definitivos. Pois bem, eu desafio o primeiro-ministro a dizer com clareza, preto no branco, quais é que são os cortes definitivos porque todos nós temos o direito a saber”, reiterou.

Sobre o facto de o primeiro-ministro ter afirmado que cumpriu todas as metas, António José Seguro mostrou-se crítico e apontou factos e números concretos que sustentam e apoiam um cenário que mostra um falhanço em toda a linha.

“O défice contratado para este ano era de 2,5%, ficou em 5,2 na melhor das hipóteses. A dívida pública contratada para o final de 2013 era de 115%, já vai em 130%. A taxa de desemprego estava muito abaixo daquilo que hoje está e da austeridade que ele exigiu ao país só 25%, no máximo, é que foi traduzida em redução do défice”, disse.

António José Seguro, que rejeitou a ideia que resumiu até ao momento o congresso do PSD: a sugestão idílica de que a vida dos portugueses está hoje melhor, centrou também o seu discurso nas questões da interioridade defendendo o papel que o Partido Socialista teve na promoção do desenvolvimento regional.

“Nós há muito tempo que temos vindo a defender políticas para o interior. Os governos do Partido Socialista sempre foram aqueles que mais desenvolveram políticas para o interior e, isto, por uma razão muito simples: é que ao contrário deste governo nós não olhamos para o interior como um fardo ou como um encargo. Nós olhamos para o interior como uma oportunidade onde existem portugueses que têm os mesmos direitos daqueles que vivem noutras regiões do nosso país”, rematou.

Este conjunto de iniciativas em que o Partido Socialista tenta conquistar terreno através da afirmação de políticas alternativas encerra este domingo, 23 de fevereiro, em Santo Tirso.

joao_azevedo

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Nasceu na Covilhã. Licenciado em Comunicação Social pela Escola Superior de Educação de Viseu, ocupa parte do seu tempo nas áreas ligadas às novas TIC's.

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