Expovis: do lucro aos prejuízos

por Pedro Morgado | 2014.05.23 - 01:25

Muitas vezes incompreendido, o sentido do dito popular “não há mal que sempre dure, nem bem que nunca acabe” serve dois mestres. Aos menos afortunados “atira” uma réstia de esperança enquanto aos bem-aventurados avisa sobre os perigos que o caminho esconde. Assim, e apesar da história da Expovis, empresa responsável pela organização da Feira de S. Mateus, se confundir com a vida da própria cidade de Viseu, não deixa de impressionar como, em apenas três meses, o executivo municipal liderado pelo ex-secretário de Estado adjunto da Economia e do Desenvolvimento Regional, António Almeida Henriques, anuncia a extinção desta empresa e assume um prejuízo para o município na ordem dos 100 mil euros.

Será que também aqui se pode aplicar uma das frases mais irritantes que o discurso oficial já produziu? Será que a Expovis “viveu acima das suas possibilidades”? Aparentemente nada aponta nesse sentido. Certo é que a opção de extinguir esta entidade, justificada com a “falta de enquadramento legal atual para a existência e funcionamento da empresa”, despoletou uma situação pouco cómoda que obriga, a breve trecho, à criação de uma nova associação que forçosamente terá que assumir a realização da Feira de S. Mateus ao mesmo tempo que se exige que os prejuízos resultantes do exercício de 2013 sejam assumidos pelos acionistas: no total cerca de 209 mil euros. Sim, leu bem. Apesar de António Almeida Henriques ter anunciado apenas a transferência de cerca de 106 mil euros, correspondente aos 51% que o Município de Viseu detém na participação de capital da Expovis, também o outro parceiro fundador, a AIRV de João Cotta, vai ser chamado a este esforço. Nas próximas semanas terá que desbloquear a favor da empresa que quer extinguir uma verba que ronda os 102 mil euros.

Para já, para os lados do Parque Industrial de Coimbrões, local onde está instalada a sede da Associação Empresarial da Região de Viseu (AIRV), vivem-se dias mais cinzentos. Longe dos vastos recursos financeiros que a autarquia tem ao seu dispor, esta associação terminou o ano de 2013 com um resultado líquido positivo de apenas 3500 euros, é hora de fazer contas. Assim, esta história talvez obrigue a que sejam os ativos bancários desta entidade, que totalizavam em 31 de dezembro cerca de 119 mil euros, os sacrificados.

Contudo, no pecado das empresas participadas por entidades públicas e privadas não há inocentes. De acordo com um “take” difundido ao início da tarde de ontem pela agência LUSA, o autarca do Partido Social Democrata (PSD), António Almeida Henriques, explica em duas “penadas” o que esteve na origem do problema: “o prejuízo registado pela Expovis no ano passado deve-se sobretudo à opção do executivo liderado por Fernando Ruas de ter decidido levar a cabo obras de remodelação no recinto da Feira de S. Mateus” e também ao programa “Floresta Mágica” que visava transformar o Parque Aquilino Ribeiro na casa do Pai Natal e dos seus duendes durante toda a quadra natalícia – projeto que o atual executivo decidiu não realizar por considerar que não teria o sucesso esperado e do qual tiveram que ser pagos os compromissos entretanto assumidos.

Citando os pontos apresentadas pelo autarca torna-se claro que foram estas duas opções estratégicas tomadas pela gerência da Expovis, a pavimentação do espaço situado em frente ao Pavilhão Multiusos e o evento “Floresta Mágica”, as principais responsáveis pela queda em terreno negativo das contas da empresa. Nisso podemos concordar.

Ao fim de sete meses de mandato autárquico há uma coisa que qualquer viseense já devia saber sobre António Almeida Henriques: as suas intervenções públicas são “desenhadas” com pinças e centradas nos objetivos que pretende atingir. Desta vez doeu: Fernando de Carvalho Ruas, o autarca modelo que é hoje o segundo membro da lista de candidatos ao Parlamento Europeu pela Coligação “Aliança Portugal”, encarnou o vilão e foi responsabilizado pelo seu sucessor, em plena campanha eleitoral, por ter “remodelado o espaço frontal ao [Pavilhão] Multiusos, sem ter celebrado qualquer protocolo com a Expovis, o que fez com que tivesse suportado integralmente aquelas obras”.

E a verdade é que, apesar de Fernando Ruas não ter celebrado esse protocolo com a Expovis quando se encontrava em final de mandato, esta é uma rúbrica menor quando se atende à dimensão dos prejuízos apresentados pela Expovis no final do exercício de 2013.

O Rua Direita apurou que dos montante envolvidos nestas duas rúbricas, apenas cerca de 35% desse montante, 76 mil euros aos quais acresceria o IVA, foram gastos nas obras de requalificação do espaço da feira com a anuência do executivo liderado por Fernando Ruas. O restante, aquilo que Almeida Henriques apontou como tendo tido “algum peso no prejuízo registado pela Expovis”, cerca de 156 mil euros, foram integralmente gastos no evento “Floresta Mágica” que agora se vai “deixar cair”.

Depois de em fevereiro António Almeida Henriques ter anunciado a extinção da Expovis desconhece-se, até ao momento, quais são as instituições interessadas em constituir a futura associação que vai assumir, não só a organização da Feira de S. Mateus, como a organização de outros eventos conjuntamente com o município e a AIRV.

Fotografia de: José Carlos Carvalho

Nasceu na Covilhã. Licenciado em Comunicação Social pela Escola Superior de Educação de Viseu, ocupa parte do seu tempo nas áreas ligadas às novas TIC's.

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