Decisores políticos alheados da rutura nos serviços de saúde

por Rua Direita | 2014.08.15 - 13:18

Os serviços de saúde portugueses estão em clara rutura pelo défice de preocupação por parte dos decisores políticos relativamente aos níveis de exaustão e insatisfação dos profissionais, alerta a Ordem dos Enfermeiros (OE).

A Ordem dos Enfermeiros apela ao Sr. Ministro da Saúde para que reconheça a influência destes fatores na segurança e qualidade dos cuidados a que os cidadãos têm constitucionalmente direito, não os banalizando e confundindo com fatores económicos.

Algumas das consequências deste facto não são visíveis a olho nu porque o Estado Português mantém há décadas um sistema de classificação nos hospitais portugueses que não diferencia serviços a trabalhar adequadamente de serviços com prestação insegura de cuidados.

A Universidade Católica publicou recentemente um estudo nacional onde identificou um nível de exaustão significativo dos enfermeiros em Portugal, assim como uma enorme insatisfação com a progressão na carreira e com o nível salarial em que se encontram.

O referido estudo seguiu uma investigação financiada pela Comissão Europeia, denominado RN4CAST, cujos resultados têm sido amplamente divulgados em jornais científicos de referência internacional.

Estão largamente divulgados na literatura os motivos para a exaustão dos enfermeiros, que encontram como fatores predisponentes a elevada responsabilidade relacionada com o cuidar de doentes complexos, ou o constante contacto com a morte e com o processo de luto.

Os turnos longos (por falta de enfermeiros nas instituições), o elevado número de doentes por enfermeiro (quanto maior o número, maiores os níveis de stress), o trabalho por turnos (e a impossibilidade de criar hábitos regulares), a realização de turnos noturnos e o seu impacto negativo na saúde e na relação trabalho/família/amigos/vida pessoal, são outros fatores.

A exaustão dos enfermeiros está igualmente relacionada com a sujeição a abusos verbais e físicos frequentes, amplamente subnotificados, com a incapacidade dos gestores em resolver questões práticas de cariz profissional do quotidiano do enfermeiro, e com as condições de trabalho desadequadas.

A falta de perspetiva de progressão na carreira, o défice de reconhecimento de competências adquiridas, a remuneração não compatível com as competências e responsabilidades, e as cargas de trabalho excessivas por baixas dotações de enfermeiros, são outros fatores referenciados pela investigação.

São igualmente inúmeros os estudos que relacionam os níveis de exaustão dos enfermeiros com resultados adversos para os doentes, identificando maiores riscos de erro, quase-erro ou resultados aquém do esperado.

Os enfermeiros exaustos têm também maior probabilidade de adoecer, com as consequências daí decorrentes.

A Ordem dos Enfermeiros reforça ainda que no âmbito desta problemática aprovou recentemente, em Assembleia Geral, a Norma para o Cálculo de Dotações Seguras, a qual foi prontamente divulgada junto do Ministério da Saúde.

A Norma apresenta diversas fórmulas de cálculo e tem forma legal, pelo que deve ser aplicada e respeitada aos mais diversos contextos de saúde dos setores público, privado e social, quer seja no Continente ou nas Regiões Autónomas.

A Ordem dos Enfermeiros responsabiliza os decisores políticos pelas consequências que podem advir para a qualidade e segurança dos cuidados de enfermagem se continuarem a ser ignorados os sinais de exaustão dos profissionais, ou se forem encarados sem a atenção que merecem, como tem acontecido até agora.

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GCIC – Gabinete de Comunicação e Imagem
(Secção Regional do Centro da Ordem dos Enfermeiros)

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