Cábula de bolso para (melhor) perceber o Centro Social de Carvalhais

por Pedro Morgado | 2016.03.04 - 17:30

“Como é que podem ter sido detetadas irregularidades e/ou ligações suspeitas se, até ao momento, ainda não houve qualquer vistoria ou fiscalização externa a esta instituição?” É assim que o Padre Miguel Rodrigues Pereira, presidente da direção do Centro de Promoção Social de Carvalhais, se afasta liminarmente do cenário avançado pela notícia da TSF que dá conta de suspeitas nas contas desta Instituição Particular de Solidariedade Social (IPSS).

Contudo, apesar desta quase garantia, os dados apurados pelo jornalista Amadeu Araújo não deixam grande margem à imaginação. A verdade é que não só alguns dos seus dirigentes são remunerados, ao arrepio dos próprios estatutos, como também existem ligações suspeitas a empresas a que estão ligados.

Apesar de, oficialmente, nenhum dirigente confirmar uma ligação direta entre as remunerações auferidas, sustentadas por cópias dos documentos comprovativos das transferências bancárias, e o desempenho dos respetivos cargos de direção, certo é que estes pagamentos existem.

Confrontado com esta realidade, Miguel Rodrigues Pereira não nega os pagamentos. Numa rápida descida do céu ao inferno, ensaia uma justificação simples: os cerca de mil e cem euros que recebe mensalmente desta instituição destinam-se ao pagamento dos seus serviços enquanto orientador pedagógico da Escola Profissional de Carvalhais.

“Não é como diretor do Centro, é como trabalhador… A minha responsabilidade centra-se essencialmente no controlo das colocações dos alunos que saem para que se tenha uma perfeita noção e um acompanhamento em tempo real das suas saídas profissionais.”.

E, aqui, não há como não torcer o nariz. O relato feito pelo pároco não é corroborado pelas declarações de alguns dos colaboradores desta instituição que, ouvidos pelo Rua Direita, negam “qualquer envolvimento do presidente nesta área”. Face às recentes notícias que envolvem o Centro Social estes trabalhadores falam mesmo numa “onda de contestação” que tem “varrido” São Pedro do Sul: “em nenhuma outra instituição do concelho (Santa Casa da Misericórdia de Santo António e Centro Social de Vila Maior) se ouve falar de uma situação como esta”, reforçam.

Ao mesmo tempo, outra das incoerências presente nesta declaração assenta no facto do Padre Miguel Rodrigues Pereira se ter aposentado do cargo de diretor pedagógico da Escola Profissional de Carvalhais em setembro de 2001, informação disponibilizada na página oficial da freguesia de Carvalhais e Candal, paróquia onde ainda desenvolve a sua atividade pastoral.

Neste caso em particular, o “papão” que amedronta milhões de portugueses, a incerteza do dia-a-dia, não passa disso mesmo. O pároco presidente acumula aos 80 anos dois vencimentos e uma reforma generosa.

Mas este não é um caso isolado. A verdade é que nos documentos postos a circular no concelho e enviados a entidades oficiais, consta ainda o nome de três outros membros da direção desta instituição. O advogado Manuel Martins, vice-presidente, o secretário António Branco e o vogal Virgílio Santos são também apontados como beneficiários destas transferências. Apenas no caso do seu vice-presidente existe, até ao momento, uma explicação. De acordo com alguns esclarecimentos prestadas anteriormente, Manuel Martins recebe efetivamente um pagamento mensal respeitante a um contrato (de avença) no valor de cerca de 1500 euros.

 

A TEIA NAS EMPRESAS

Estando ainda o véu por desvendar, no que diz respeito à conformidade destes pagamentos com os estatutos e com os normativos legais pelos quais se regem as Instituições Particulares de Solidariedade Social (IPSS), certo é que estes quatro nomes partilham ainda a propriedade de uma empresa com esta instituição social e com quem mantem relações comerciais.

Primeiro, a Carcorest – Sociedade de Turismo, Restauração e Agro-Indústria de Carvalhais Lda.. Ao que o Rua Direita conseguiu apurar, esta empresa, anteriormente detida em cerca de 95 por cento pelo Centro, dispersou o seu capital social através de uma operação de venda da qual resultou uma posição de 73,6 por cento que hoje se encontra nas mãos de Miguel Rodrigues Pereira, Manuel Martins, António Branco e Virgílio Santos em partes iguais. Até aqui, nada de estranho, não fosse o simples facto de, à data, não ser possível detetar nenhum movimento de entrada de capitais resultante desta operação.

Já na sociedade Carvagricola – Ervas Aromáticas Lda., Manuel Martins e Virgílio Santos desenvolvem, desde 23 de setembro de 2010, atividade como gerentes.

 

Com esta realidade sob os holofotes mediáticos e a contestação a subir de tom, o Rua Direita sabe que na última Assembleia Municipal terá mesmo sido votada e aprovada uma ação de fiscalização interna às relações entre as Instituições Particulares de Solidariedade Social (IPSS) do concelho e a autarquia.

Foto: Direitos Reservados (DR)

Nasceu na Covilhã. Licenciado em Comunicação Social pela Escola Superior de Educação de Viseu, ocupa parte do seu tempo nas áreas ligadas às novas TIC's.

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