Aos Tons Dela, da Patrícia Matos…

por Rua Direita | 2017.01.18 - 10:34

 

 

É a exposição de pintura de uma tondelense saída das Belas Artes do Porto, no Mercado Velho, em Tondela que se abre simbolicamente ao público da sua terra natal naquela que é – auspiciamos nós – a primeira de muitas exposições. Para visitar (e comprar) até 29 de Janeiro…

Apresenta-se com vigor neste quase meia centena de propostas plásticas, variadas nas técnicas, do desenho, à ilustração, à pintura a óleo e ao carvão. Mas mais que a diversidade das técnicas, ressalta a pluralidade das temáticas que se espraiam das naturezas mortas, ao retrato, à paisagem e a exercícios experimentais com ponto de partida no autorretrato.

Impressionante é a urgência dialogal, a vibração e o vigor que ressumbra desta panóplia de propostas, testemunho vívido da inquietação criativa da sua autora. E do seu potencial…

O RD visitou a exposição e teve uma boa conversa com Patrícia Matos – um nome a reter. Aqui ficam as palavras, no Mercado Velho as obras.

 

  1. Quem é Patrícia Matos?

Alguém que procura activamente um encaixe harmonioso e funcional neste Mundo – tanto aquele que se vê como o que não se vê, e tanto aquele que é exterior como o que é interior. Alguém disposto a reformular os paradigmas pessoais e até o curso de vida as vezes que sejam necessárias até o conseguir.

Acima de tudo, alguém que acredita que é imperativo que se seja um indivíduo e que se faça por existir como um, o que implica poder contribuir para o Mundo com a sua visão própria de alguma forma – no fundo, estar apto a criar.

 

  1. De onde vem o seu gosto e opção pela pintura?

O gosto existe desde que me lembro de ser pessoa! Em criança estava constantemente a rabiscar, quase de forma obsessiva: fossem personagens imaginadas ou de desenhos animados, fossem amigos ou familiares… E isso nunca mudou, apesar de ter optado por um percurso na área científica, guiada pela premissa de uma maior estabilidade económica. Assim, estudei Engenharia Biomédica em Coimbra e exerci-a como bolseira de investigação durante cerca de dois anos, e só depois disso é que decidi apostar seriamente nas artes plásticas e procurei os conhecimentos que uma academia conceituada me poderia proporcionar, neste caso, a Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto.

Diria que a Pintura integra uma das modalidades artísticas clássicas e uma das Belas Artes por excelência, até… No entanto, dá-me a impressão que o seu protagonismo decaiu nas últimas décadas em detrimento da instalação, da intermédia, dos suportes tecnológicos, do conceptualismo quase imaterializado… Acho que a pintura precisa de mais gente que a dinamize, revitalize e a volte a colocar num lugar querido no seio da esfera da alta arte e do panorama contemporâneo. Não quero com isto dizer, contudo, que as outras formas de arte não me são interessantes nem que as não queira experimentar no futuro.

Além disso, agrada-me o facto de a pintura ser uma modalidade perfeitamente concreta, matérica e tangível, mas ainda assim permitir um processo de execução fluido e dinâmico (em oposição, por exemplo, à escultura).

  1. Que representa para si esta exposição em Tondela?

Representa muito. Além de ser a minha primeira exposição individual, marca o culminar de uma primeira fase – a académica, marcada pela aprendizagem, pela experimentação sob orientação curricular, pela procura e também pela dúvida (algumas vezes desconcertante). Marca em simultâneo o início de uma segunda fase, onde a exploração vai obviamente continuar, mas de uma forma mais pessoal e certamente mais profissional.

Aos Tons Dela” representa, portanto, o ponto em que me afirmo publicamente como pintora e, oxalá, o início da minha carreira artística propriamente dita – chegue ela onde chegar…

Por todos estes motivos, julguei que faria pleno sentido que esta exposição se realizasse na minha cidade-natal, perto, inclusive,  das pessoas que fazem parte da minha vida desde tenra idade.

  1. Quantas obras tem presentes e quais os critérios subjacentes à sua selecção?

São quarenta e sete peças, desde pinturas a óleo a desenhos e ilustrações.

Os critérios primaram pela selecção dos exemplares mais bem conseguidos dentro de cada área temática, nomeadamente o retrato, a paisagem, a natureza-morta e a natureza-viva.

  1. Quais as suas expectativas para esta exposição?

São expectactivas optimistas. Acho que a exposição vai ser bem recebida, no sentido de conseguir despertar algum interesse: trata-se, afinal, de um pintor cá da terra em início de carreira e que poucas pessoas sabiam existir…

  1. Previsões para um futuro próximo?

Pretendo apostar na divulgação do meu trabalho e expor em mais cidades ainda este ano, sobretudo com novas peças e novas abordagens. Já estou a desenvolver “colecções integradas”, como gosto de lhes chamar – isto é, conjuntos de peças unas no conceito, na temática e na estética.  É igualmente importante participar em concursos de pintura. E investir na escrita de artigos e ensaios, também; parece-me que o lado intelectual é uma grande mais-valia para ajudar a erguer uma carreira artística.

Para além disso, tenho uma grande vontade de fazer programas de residências artísticas, tanto no nosso país como no estrangeiro.

  1. Qual o seu artista plástico preferido. Porquê?

Não sou capaz de escolher o preferido, mas posso adiantar um dos preferidos: o pintor expressionista austríaco Egon Schiele!

Trata-se de um exemplo de excelência combinada, ou seja, de génio. Seja na técnica, na absoluta dinâmica do traço e da composição (trata-se de um exímio desenhador), na ousadia, na crueza sensível que dá ao corpo, às emoções e ao estado de espírito…

  1. Sobre a Cultura em Tondela. Uma apreciação crítica…

Tondela é um meio pequeno que oferece uma estimulação cultural correspondentemente limitada. Existe, contudo, muito potencial – e esta terra é, aliás, berço de personalidades que se destaca(ra)m em diversas áreas…

Além das iniciativas promovidas pela ACERT, há muito conhecida um pouco por todo o país (e não só), com a recente renovação do Museu Municipal Terra de Besteiros, as exposições de qualidade – e portanto a divulgação de tendências e de artistas – têm sido uma constante.

Devo ainda referir o forte apoio que o Município me prestou para organizar e divulgar esta exposição, logo desde que a propus.

  1. Entre Amadeo de Souza Cardoso e Paula Rêgo, enumere 10 pintores portugueses contemporâneos e confira-lhes um atributo.

 Cristina Troufa – magnética

Ana Oliveira Pais –cristalina

Vhils (Alexandre Farto) – monumental

Fernando Gaspar – magmático

Noronha da Costa – aquele que está do lado de lá…

António Quadros – (infelizmente) pouco conhecido!

Luis Demée – nostalgicamente onírico

Júlio Pomar – túrgido

Vieira da Silva – absoluta

Nadir Afonso – sinérgico

 

  1. Que encontra de diferente entre Vieira da Silva e Joana Vasconcelos?

Absolutamente tudo – são como que o inverso uma da outra!

Não só pelos meios que usam (instalação/escultura versus pintura), como também pela linguagem que usam e pela mensagem inerente.

Numa apreciação geral das obras das duas artistas, diria que Vasconcelos trabalha com o concretismo de objectos, enquanto que Vieira da Silva trabalha com abstrações de estruturas e espaços, tanto físicos como metafísicos.

Joana Vasconcelos parte do concreto e reformula-o para dar origem a outro concreto, diferente do que lhe deu origem por razões também concretas: seja a escala inesperadamente aumentada, seja a função descontextualizada. Várias obras da artista congregam um colectivo de objectos idênticos para formar um todo com um significado desvinculado das suas partes; esta estratégica é bem patente numa das suas mais emblemáticas obras, “A Noiva”.

Maria Helena Vieira da Silva, pelo contrário, estilhaça o todo nas suas partes constituintes para as representar em simultâneo, incluindo as que não estão à vista – sejam emoções ou ecos, impressões de uma existência temporal além da presente. Como brilhantemente acontece, por exemplo, na obra “O Atelier”.

Em resumo, Vasconcelos fomenta a curiosidade kitsch, e Vieira da Silva, o génio pictórico.

  1. Quando olha para o S. Pedro, de Vasco Fernandes ou Grão Vasco, o que vê?

Vejo uma excelente obra de um excelente mestre português. E vejo uma obra que é verdadeiramente do seu tempo, que evidencia os cânones visuais caracteristicamente renascentistas: por exemplo, o equilíbrio e simetria da composição, a atmosfera de serenidade e o rigor da perspectiva, denotado tanto pelos elementos arquitectónicos como também pela inclusão da perspectiva atmosférica, com os escapes de paisagem longínqua, simetricamente dispostos de cada lado – mas de horizonte descontínuo, à semelhança do que se observa em muitas obras renascentistas icónicas internacionais (como a Gioconda de Leonardo da Vinci).

  1. Quais os seus três escritores portugueses preferidos?

Eça de Queirós, José Saramago, Gonçalo M. Tavares…

 

  1. Já se encontrou com o seu estilo de Patrícia Matos? Como o caracterizaria/definiria?

Julgo que o encontro com um estilo próprio e pessoal é precisamente o ponto de inflexão que faz do pintor um artista plástico.

Ainda não me deparei com o meu estilo na sua plenitude, mas acho que já lhe encontrei algumas vísceras, e até posso dizer quais são: a paleta garrida, vibrante e dominante da composição, e a forte texturização da tinta, que teima em ganhar corpo e evidência.

 

  1. A maturidade artística, na pintura, atinge-se quando e como?

Apesar de não existir uma altura certa nem prevista para isso, diria que será certamente ao fim de um longo caminho de insistência, persistência e de audaz “resistência à frustração”, como me disse o professor e pintor Ricardo Leite.

Pode ser ao fim de décadas de exercício pictórico (seja em regime amador, seja em regime profissional) …

Pode ser quando se deixam de alimentar dúvidas interiores e se adquire verdadeira fé na força criadora interior…

Pode ser quando se atenua (ou se rompe em definitivo?) com a influência que as pressões externas exercem na criatividade – por exemplo, do acto de pintar somente para se ser aceite pelos pares ou se ser comercialmente viável…

 

  1. O que a inspira?

Rostos, expressões faciais, a expressividade no olhar… Gosto muito de registar pessoas idosas. Aqueles momentos “sublimes” (aqui a alusão à estética kantiana) que a natureza oferece; por exemplo, aquelas encenações de luz onde o céu casa com a terra…

Isto é o que me tem inspirado. Mas há mais – outros conceitos e outras maneiras de ver e perceber a realidade – que serão parte do que vou explorar a seguir.

 

  1. Para além da pintura, por onde enveredam seus gostos?

Ainda na esfera das artes plásticas, pela videoarte e pela banda-desenhada.

Fora dela, pela ciência em geral e a Astrofísica em particular. Também por temas mais “sobrenaturais”…

Ainda aprecio actividades de ar livre… e boa comida.

 

  1. Quer acrescentar algo?

Sim! Quero agradecer à Rua Direita pela disponibilidade e pelo interesse em saber quem sou, o que penso, o que faço e o que desejo vir a fazer. Foi um prazer, esta estimulante conversa. Muito obrigada!

 

 

(fotos Paulo Neto – Rua Direita)

 

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