Adriano Moreira: “Os dois grandes problemas portugueses são pão na mesa e trabalho”

por Pedro Morgado | 2014.01.19 - 05:00

A trajectória comunicacional do primeiro-ministro tem andado arredada de tudo aquilo que se possa parecer com uma linha recta. Frequentemente um dos paladinos europeus na defesa das medidas de austeridade, enaltece agora todo e qualquer sinal, mesmo que ténue, que possa indiciar e corroborar a prometida recuperação económica. Mais, consegue mesmo justificar a necessidade de mais e maiores medidas de austeridade com os “bons resultados” que começam a aparecer.

Contudo, para um dos “senadores” da sociedade portuguesa e um dos “históricos do CDS”, para o Professor Adriano Moreira, Portugal continua a persistir nos erros do passado quando, defende, a classe política anda arredada e alheada dos verdadeiros problemas do país.

“Quando olhamos para a discussão pública oficial, essa discussão política que ainda ontem nos manteve ocupadíssimos porque o grande problema do país é uma forma de adopção que está em discussão, as pessoas mais avisadas descobrem que o problema português é muito simples: é pão na mesa e trabalho. Esses são os dois grandes problemas portugueses”, sublinhou o académico.

Quando a sociedade civil, prosseguiu o ex-líder do CDS-PP, começa a manifestar, sem enquadramento sindical e sem enquadramento político, a esperança de que se vai recuperar a dignidade que foi perdida, essa esperança começa a nascer, disse, num tom pedagógico, perante as cerca de duas centenas de pessoas que estiveram este sábado na Aula Magna do Instituto Politécnico de Viseu para assistir ao “XVI Encontro Público Plataforma Ativa da Sociedade Civil (PASC)”, a primeira iniciativa desta natureza realizada fora da capital.

E, o Professor foi cristalino na hora de explicar o porquê da necessidade de recuperar essa dignidade: “Não é sobretudo por uma prática que parece ser aceite com tranquilidade, a de termos que prestar contas periodicamente a três empregados de três instituições (troika), cujas qualificações académicas e profissionais não conheço, em vez de termos os ministros da Europa da pobreza em que estamos, e já somos uns cinco ou seis, no Conselho Europeu que é onde devia ser discutido o futuro da Europa”, acrescentou.

Numa altura em que o Partido Social Democrata (PSD) e a maioria que o suporta cerra fileiras, Adriano Moreira mostra ainda a sua estupefacção perante aquilo que considera ser a falta de memória dos portugueses, deixando um exemplo.

“É extraordinário que em Portugal, onde fomos objecto de uma política de contenção, o ministro responsável por essa política (Vítor Gaspar) peça a demissão porque se enganou, escreva uma carta a admitir isso, o que só o honra do ponto de vista académico, e essa carta desapareça. Nunca mais se falou da carta”, lamentou o também ex-ministro do Ultramar.

Na casa mãe do ensino superior politécnico em Viseu, Adriano Moreira apoiou as breves palavras de Fernando Sebastião, Presidente do Instituto Politécnico de Viseu, e deixou bem clara a visão pessimista que tem da política educativa prosseguida pelo actual governo lançando um claro aviso: “Quando perdemos a hegemonia política, a hegemonia militar e a hegemonia colonial, a nossa superioridade estava no saber e no saber fazer. Por isso mesmo, o aprender e o saber fazer são uma questão de soberania. Não são uma questão contratual e não podem ser reduzidas a uma questão orçamental porque isso é o abrir a porta à exportação do capital mais importante que o país pode ter para vencer qualquer crise”, disse.

A quatro meses de Portugal terminar o Programa de Assistência Financeira (PAF) a que está vinculado, Adriano Moreira quis aproveitar a oportunidade para contrariar o optimismo com que é encarado e propagandeado o fim do programa.

“Nós não podemos apenas estar subordinados a um anúncio que nos fazem, muito feliz, para um qualquer dia 14, no qual os empregados das instituições financeiras se vão embora. Esse dia não é um dia de felicidade. O que espero é que esse seja o dia da abertura da reflexão nacional sobre o que não deve ser repetido e o que precisa de ser feito. É preciso assumir conscientemente os erros que foram cometidos e que não podem ser cometidos outra vez”, frisou.

Tratando-se de um debate que contou com um painel de luxo e que foi moderado pelo viseense António Figueiredo Lopes, tempo ainda para ouvir a mensagem de outro ilustre português: João Salgueiro, antigo ministro das Finanças, co-fundador desta Plataforma de Cidadania e representante da Associação para o Desenvolvimento Económico e Social (SEDES).

A mensagem não podia ser mais clara. Os portugueses estão enganados quanto ao modo como antecipam e como entendem a saída desta crise: “Quando falamos de crise, estamos convencidos de que com alguns anos de sacrifícios nós vamos voltar à normalidade. Foi essa a ideia que criámos com os dois primeiros resgates do Fundo Monetário. Esta é a terceira vez que somos assistidos por credores internacionais e, das duas vezes, nós estivemos quatro anos para sair das dificuldade e saímos em dois anos. Cumprimos todas as metas em dois anos. Ficou no nosso subconsciente que, com dois anos maus, nós podemos voltar à normalidade e continuar a viver como vivíamos. Só que agora não é isso. Esta não é uma crise desse tipo”, salientou.

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Apesar desta disposição que temos para entender estes períodos de dificuldade como “tempos transitórios”, o economista João Salgueiro entende que nada se resolve apenas a “olhar para o passado”.

“Fico sempre contente quando vejo manifestações de pessoas que dão corpo e dão voz para protestar contra uma coisa que não querem, ou a favor de uma coisa que querem. Tenho pena é que em vez de protestarem contra as consequências, não protestem contra as causas. O que pode mudar o país não são as pessoas a queixarem-se dos maus resultados daquilo que está mal, é a corrigir o que está mal. E isso não tenho visto. Não tenho visto grandes manifestações para corrigir a burocracia excessiva, a fiscalidade enviesada ou, por exemplo, a incompatibilidade dos deputados”, disse.

A questão é hoje mais ampla, reiterou: “Como é que foi possível nós chegarmos a um ponto em que tivemos que perder a independência e depender da boa vontade dos nossos credores? Temos que chamar as coisas pelo seu nome. A saída da troika não resolve nada. A única coisa que resolve esta situação será quando nós tivermos, por nós próprios, capacidade para crescer”, sustentou.

Contudo, para o antigo ministro das Finanças, não foi por falta de alertas que o país chegou à situação de profunda debilidade das finanças públicas em que se encontra hoje e apontou os culpados: “Podíamos criar uma lista de economistas que publicaram livros, dois congressos na SEDES com livros publicados que também falavam nisto, dezenas de anos antes. Por que é que não se ligou? Porque Portugal é uma democracia, porque os governos fazem o que os eleitores acham que é melhor, o que é mais fácil. Aquilo que dá votos é o que os governos fazem e estes não sentem nenhuma pressão para terem outro comportamento diferente deste”.

Mesmo com dois deputados na sala, José Junqueiro do Partido Socialista (PS) e Pedro Alves do Partido Social Democrata (PSD), ambos eleitos pelo círculo eleitoral de Viseu, João Salgueiro fingiu não reparar e centrou parte do seu discurso na análise ao trabalho deste órgão de soberania.

“Nós temos um parlamento que não existe. O Parlamento é um anexo do Governo. Os deputados são eleitos pelos partidos que estão no poder. São postos em lugares elegíveis ou não elegíveis conforme os governos querem. Eles sabem de quem dependem. Não é dos eleitores. É, também, dos partidos. Por outro lado, sabemos que no Parlamento há muitas incompatibilidades à face da lei, há deputados que têm interesses e não se abstêm em relação às causas a que estão ligados. Portanto, o papel fiscalizador do Parlamento não está a ser exercido”, concluiu.

Na sessão, que se prolongou até ao final da tarde, participaram também José Luís Nogueira, Presidente do Conselho de Administração da Visabeira Global, Fernando Ruas, Fernando Sebastião, Presidente do Instituto Politécnico de Viseu, a coordenadora da plataforma, Maria Perpétua Rocha e Celso Costa da Proviseu, entidade que tutela o Conservatório Regional de Música Azeredo Perdigão e que se tornou a primeira instituição do concelho a pertencer à Plataforma Ativa da Sociedade Civil (PASC) que integra 39 associações de norte a sul.

A realização deste primeiro encontro público fora da capital, em que foram discutidos temas relevantes e transversais para a sociedade portuguesa, apenas foi possível graças ao empenho e ao carinho demonstrado pelo Grupo Visabeira que, desde o primeiro momento, assegurou e tratou da vertente logística do evento, destacou a coordenadora da plataforma, Maria Perpétua Rocha.

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Nasceu na Covilhã. Licenciado em Comunicação Social pela Escola Superior de Educação de Viseu, ocupa parte do seu tempo nas áreas ligadas às novas TIC's.

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