Virtualidade – sinónimo de (in)competência social?

por José Carlos Carvalho | 2015.07.03 - 11:28

Vai já ‘longe’ o tempo da troca postal, partilha cuidada de momentos e vivências pessoais através da dita “escrita à mão”… Há quanto tempo não se lembra o estimado leitor de trocar uma carta ou mesmo um postal – de férias, festas natalícias ou mesmo aniversário? De despender cinco ou mais minutos na cuidada expressão caligráfica da sua mensagem?

Pois a virtualidade assemelha-se cada vez mais a um antónimo desta noção de troca de correspondência pessoal, privada e intransmissível… A informação é hoje dada, quando antes era guardada – momentos que ainda há anos eram privados em família e porventura com alguns (poucos) amigos chegados são hoje em dia partilhados com gente desconhecida, alheia à mais simples noção e conhecimento de sequer parte do carácter próprio e pessoal de quem os partilha…

Quão inoportuno não seria o caro leitor ter mostrado fotos da sua última ida à praia, ainda nos anos 90 ou já mesmo no início deste novo século? Já a ideia de mandar revelar o filme que incluía fotos das férias em família, com a pequenada em fato de banho e a mãe a dar um mergulho colocava dúvidas na cabeça de um bom marido – “O técnico da loja de fotografia será sério?”; “Será que não vai fazer cópias disto ou rir-se à nossa custa?”… Ora, se muitos se estão a rir neste ponto deste artigo muitos outros estarão possivelmente a recordar a realidade passada.

Actualmente um pai de família leva-a à praia, num belo dia de verão e, quando nem dá conta, já as suas costas estão a aparecer numa selfie da filha de 13 anos, que acabou de dizer no facebook e quantas mais redes sociais que o sol e a água estão quentes (e quantos mais smiles, emoticons, etc. etc.).

Já não se ‘carrega’ aquela especial câmara das férias – aquela em que se gastava rolo e em que se tinham que poupar ao máximo os disparos (que saíam caros…) – e já não mais se recordam momentos familiares tão particulares – em vez disso meio mundo veio instantaneamente a saber o que se passa na família Azevedo (ou será Albuquerque?) – não interessa, foi a Maria que postou e ela tira selfies muito bem!… A mãe da Maria virá, porventura dali a meio ano, a perguntar à filha o que é feito das fotos da ida à praia… Cadê, sabe o leitor?

O Afonso gostou, o Abel partilhou… O Ramiro, solteirão com os seus 50 ou mais, amou! A vida da pequena Maria foi espezinhada sem que ela se desse sequer conta – e tão pouco os pais dela, que não gostam nem querem criar conta no facebook, que lhes cria cabelos brancos só de pensar sequer em teclar.

Mais longe não será preciso ir nesta história, basta retroceder novamente aos queridos postais… Eu próprio já não me recordo de quando recebi o meu último, ainda escrito à mão e com o carimbo dos CTT. Mas lembra-me ter recebido muito – mas mesmo muito – correio electrónico daquele que hoje é considerado quase Spam, as ditas mensagens de corrente, que mais não servem do que para ajudar inconscientemente a criar bases de dados gigantescas, propagar vírus e afins e, sim, a fazer-nos perder minutos da nossa vida e preciosas gotas de sensibilidade… Lembro-me também muito bem – infelizmente torna-se cada vez mais apanágio das redes sociais – de tentar entrar em contacto com um amigo ou conhecido, de manter uma conversa com alguém que de repente se permite a deixar apenas o tão famigerado ‘facebookiano’ “Vista às …” como resposta à minha dedicada ‘composição’ de meia dúzia de linhas.

Pergunto-me se os decalques do teclado estarão quase a sair e não queiram mais gastá-los… Será verdade porventura que responder em um mero minuto demorará mais que: ir comprar um postal ao quiosque (e terá que ser o mais bonito), elaborar um bom rascunho, pegar numa esferográfica decente e escrever – à mão – a nossa mensagem pessoal, endereçar o postal e só então se dirigir a um posto de correios onde sim, teremos que pagar o selo?

Os tempos seriam assim tão diferentes que as pessoas fossem (loucas, para muitos) por ‘gastar’ tanto tempo em uma simples troca de comunicação escrita? Uma troca cuidada, endereçada, premeditada e amável. E hoje? As maneiras perderam-se, a educação esvaiu-se e o bom senso não mais impera. Pessoas são ignoradas – sim, pessoas reais, não virtuais – mal tratadas, por vezes… Dão e lhes é tirado – mais do que pensaram sequer providenciar. Socializar? Fale-se antes em menosprezar, ignorar… Espezinhar… Aproveitar-se de, esquadrinhar…

Deixa-me ir ali socializar, diz a Maria, já com 15 anos – deixa-me ir ver o que é que o Manel disse sobre a vitória do Benfica, ler o pensamento de hoje da Luísa (“Ai que lindos estes rasgos de sol dourado (…)” – retirado de um qualquer sítio comum) ou mesmo ver que piada nova saiu hoje – sobre os povos menosprezados!…

Socializar já não ‘se faz’ em sociedade, em partilha pessoal e de espírito – fisicamente ou em verdadeiro e dedicado pensamento. Estamos sim todos a tornar-nos uns verdadeiros incompetentes sociais… Numas formigas laborais sem tempo para a verdadeira troca de afectos e partilha de emoções, sem desprezar no entanto a bisbilhotice constante da socialização virtual – virtual, bem dito! Tenhamos a bondade de virtualizar menos as nossas vidas… de sair cá para fora – e entrar em força no mundo real! Ele não vai ‘esperar a vida toda’…

 

Licenciado em Design Industrial e com uma posterior curta mas dura experiência na sua área de formação, optou por alargar os horizontes, dedicando-se também a outras áreas como a fotografia profissional, ilustração, realização de curtas, etc… Arte em geral (se assim se poderá referir) é o que o move, num plano longínquo do mais comum e noticiado.

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