VILDEMOINHOS: A ARTE PERDIDA DA TAPEÇARIA ANTIGA

por Alberto Correia | 2016.06.21 - 16:28

Legenda da imagem: Vildemoinhos. Tapete (C. 1930-1940)

 

 

Para cada Povo a Arte é a segurança da tradição, o refúgio das consciências, o mais puro reflexo da imagem benigna da pátria.

Ramalho Ortigão

 

 

A pequena frase que ao jeito de exórdio encima o presente texto abre o modesto “folheto” que dá notícia dos concorrentes presentes na Exposição Artístico-Industrial realizada no Museu, agora Nacional, de Grão Vasco, em 1921, por ocasião do 1.º Congresso Beirão que em Viseu tivera lugar nesse mesmo ano.

No âmbito do alargado mostruário onde se ofereciam os bordados, a louça preta, a cestaria e a obra de vime como manifestação dos ofícios mais tarde ditos artesanais, assinalavam-se, no item “Pequenas Indústrias” os nomes de Maria Cadeias (S. Salvador) – Viseu, Maria da Conceição Cadeias, Alzira Cadeias, Ana de Jesus e Isabel de Jesus – Vildemoinhos, sendo de crer que os trabalhos pelas mesmas apresentados respeitassem a tapeçaria e a tecelagem de colchas corrente em ambas as povoações, provavelmente migrantes, as duas técnicas, de Vildemoinhos para S. Salvador, como crê o historiador José Coelho (Memórias de Viseu, Arredores, I, Viseu, 1941, p. 363).

José Coelho que in loco, como ele diz na obra citada, p. 48, fizera um inquérito em 27 de Agosto de 1938, diz que encontrou ali três tecedeiras de colchas e tapetes de lã, uma indústria que ele chama “interessante, útil e rendosa, que merece ser acarinhada, e de largo futuro desde que praticada em larga escala e devidamente orientada por peritos da especialidade” (Ibidem, p. 46-47).

Tal não veio a acontecer, mesmo quando bastos dinheiros da Europa sustentavam aprendizagens que intentavam fazer ressurgir, renovando, sem dúvida, os ancestrais ofícios que nem os museus locais têm sabido preservar na sua inteira dimensão de estudo e de registo.

Sem matérias-primas produzidas no lugar que não é propício para uma pastorícia de longo alcance, a lã utilizada para a tecelagem teria de ser adquirida mais longe, bastando-lhes inicialmente, para a urdidura da teia, o fio de linho de produção local, mais tarde substituído pelo algodão ou com o mesmo emparceirando, bastando-lhes, para outro efeito, o decorativo, os ingredientes locais tradicionalmente usados na popular tintagem antes que as anilinas os suplantassem mais tarde.

Dias inteiros no tear, quantas vezes as horas se estendiam pelos serões fora, e deste modo se satisfazia um mercado alargado a uma periferia abrangente respondendo a encomendas de uma burguesia endinheirada ou às solicitações de lavradores abonados que punham honra no dote da filha casadoira.

Colchas e tapetes eram normalmente tecidos nos teares da vivência doméstica com a lã branca, ao natural, a que se acrescentavam os elementos decorativos vindos de uma gramática tradicional que mantinha a constância da cor verde e vermelha de um tom vivo que alegrava a obra feita.

Não era extensa a gama de padrões que as tecedeiras combinavam a seu gosto, quer no grande corpo central das colchas quer no dos tapetes, ou então nas cercaduras da obra produzida, fosse esta de feição rectangular ou quadrada. Mais frequentemente se usavam motivos florais de um apertado leque, todavia introduziram-se também elementos de natureza geométrica que se combinavam em graciosas superfícies dispostas por distintas ortografias.

Um particular cuidado se manifestava com as cercaduras onde, fortemente recorrente, surge uma rosácea de oito pontas que, multiplicada, se anima graças ao movimento de uma linha ondulante que gera, envolvendo-as à vez, um capcioso movimento que quebra qualquer monotonia.

A imagem que se anexa, ainda que a preto e branco, de um tapete produzido na década de 30 do século passado, é assaz loquaz e esclarecedora no que diz respeito à modalidade da tapeçaria então em uso e da poderosa ainda que simplificada gramática decorativa.