Vencer a produtividade com menos horas de trabalho

por Alberto Neves | 2017.01.30 - 18:08

 
O mundo está realmente diferente. A imprevisibilidade dos mercados, a procura incessante e inevitável da redução dos custos fixos nas organizações e a competitividade que acontece a uma escala mundial, conduz a que, provavelmente, não existam lugares de trabalho perfeito, muito menos empregos de sonho. Por isso faz sentido desenvolver processos de intra-empreendedorismo (corporate intrepreneurship).
Os estudos prospetivos e os indicadores da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico) deviam servir de alerta, ajudando a implementar medidas de inovação organizacional disruptiva no nosso país, onde os salários são baixos, mas o custo do trabalho é alto.
Tanto a O.C.D.E. como a O.I.T. (Organização Internacional do Trabalho) recomendam 48 horas por semana de trabalho como máximo, sendo que foi já evidenciado que a maioria dos portugueses trabalha 54 horas e que 11% toma ansiolíticos e antidepressivos. Estes indicadoras podem ajudar a compreender porque é que Portugal é o principal consumidor (per capita) de psicotrópicos ou até porque regista o maior número de divórcios, se atendermos igualmente á precária conciliação entre a vida profissional e a vida familiar.
Estes constrangimentos entretanto diagnosticados, também se devem á falta de competitividade explicada pela produtividade deficitária e pela elevada carga fiscal relativamente ao resto da união europeia.
Por isso, ao contrário do que muitos defendem, o aumento do salário mínimo, a redução do horário laboral, a reposição de feriados (movendo-os para a segunda-feira) e até o aumento dos dias de férias, podem contribuir indiretamente para o aumento da produtividade, além de defenderem direitos para os trabalhadores.
Sabemos que o aumento da produtividade pode ser induzido por via de dois grandes fatores: Educação / formação que atua diretamente no desenvolvimento do capital humano e o investimento organizacional no sentido de criar oportunidades e ambiente que encoraje cada indivíduo a produzir no máximo das suas capacidades, não necessariamente circunscritas a um espaço ou tempo de trabalho rígido e limitador.
Porque o mercado de trabalho saudável precisa de equilíbrio entre direitos e deveres de trabalhadores, é insustentável a existência de empresas (ou serviços públicos) em que parte dos empregados está só a cumprir horário.
O que é verdadeiramente paradoxal é que no país onde se regista a máxima produtividade (Luxemburgo), grande parte da mão de obra é portuguesa. Pelo que nos é dado observar, a diferença reside na classe empresarial alinhada com padrões de trabalho ajustados a boas práticas opostas ao “desenrascanso” e o improviso, enquanto terreno fértil á fraude e evasão. Não se trata só do desconhecimento sobre o que é uma conta de exploração ou  interpretar gráficos com indicadores de produtividade.
Pelas razões apontadas, é necessário fortalecer a liderança participativa deficitária e visão estratégica para implementar mudança na cultura organizacional que inverta o efeito sistémico da baixa produtividade per capita e induza investimento a longo prazo. Porque o todo tem que ser maior que a soma das partes.
Referências:
https://data.oecd.org/portugal.htm
http://www.pordata.pt/Europa/Produtividade+do+trabalho++por+hora+de+trabalho+(UE28+100)
http://www.ilo.org/public/portugue/region/eurpro/lisbon/html/genebra_trab_digno_pt.htm

Natural de Viseu. Licenciado em Psicologia pela Universidade de Coimbra. Mestre em Economia e Pós graduado em Gestão de Pessoas (pré-Bolonha), Certificado em “Behavioural Coaching”, Mediação de Conflitos e Terapia Sistémica. Membro da Ordem dos Psicólogos Portugueses, Sociedade Portuguesa de Psicoterapias Construtivistas, Associação Portuguesa de Coaching, Associação Portuguesa de Técnicos e Gestores de Recursos Humanos e Federação Nacional de Mediação de Conflitos. Certificado pela Entidade Reguladora da Saúde e acreditado na D.G.P.J. do Ministério da Justiça.

Pub