Vaidosos, voláteis, vendedores de vazios…

por Amélia Santos | 2015.06.02 - 13:06

 

…Que os leve o vento…

Num destes últimos dias, assisti a um espetáculo/concurso ao vivo, organizado por jovens estudantes, muito meritoso. Meritoso pela ideia, pelo trabalho desenvolvido e pelo produto final… Embora com algumas falhas e muitos pontos para melhorar e aperfeiçoar, avalio o resultado final com uma nota francamente positiva.

Mas, já na última parte, algo se meteu comigo e me desconcertou o espírito. Foi como se, de repente, tivesse caído o cenário do palco festivo e teatral. Este desassossego relacionou-se com a forma de falar do suposto apresentador, que se deu a conhecer apenas no fim e, desde logo, se intitulou “Diretor Geral” do espetáculo. Nada de estranho, pensam vocês. Há sempre um diretor de um espetáculo. Certo. A estranheza advém do facto de este rapaz ser efetivamente um jovem, um jovem estudante, como todos os outros envolvidos no projeto, mas que fez questão de realçar que ali havia uma hierarquia. Que não eram todos iguais e que, inclusivamente, as camisolas que vestiam eram diferentes entre si e tinham essa simbologia hierárquica. Fiquei perplexa. Sem palavras frente a tal ousadia e prepotência. O jovem falava muito bem. Desenrascou-se quase com brilhantismo perante a plateia que assistia ao espetáculo. Um comunicador, que me pareceu treinado para o efeito. Que conseguiu captar a atenção do público, pelo jeito, fluidez e simpatia com que se movimentava no palco. No entanto, incomodou-me sobremaneira. Incomodou-me perceber que existem jovens que são treinados para a imagem. Para uma imagem que engana, distrai, envolve e pode até convencer os mais desatentos. Porque, verdadeiramente, este jovem, com a sua capacidade de entreter disse muita asneira. Afirmou a sua superioridade em relação aos colegas. Assumiu perante todos os que ali estavam a assistir ao espetáculo que as distinções hierárquicas cedo se manifestam e devem ser evidentes até nos trajes… Apeteceu-me, no imediato, chamar esse jovem à razão e dizer que ele era vazio. Que falava bem, que bem trajava, mas que não dizia nada de jeito. Que devia dedicar-se mais à escola e menos ao show off. Que devia ler e aprender muito mais na vida antes de se apresentar desta maneira e com esta audácia.

De repente, vi à minha frente um potencial politiqueiro, uma espécie de jotinha, treinado para fazer carreira na política, para saber usar a palavra na forma, mas sem conteúdo. Estudioso de poses e roupas e sorrisos, que cedo aprendem a vender ilusões e a pregar vazios, com os olhos postos num futuro cargo político de assessor, chefe de gabinete, secretário de estado, ou quiçá, ministro.

Com a consciência que tenho da classe política atual, não fico indiferente a estes carreiristas, que utilizam léxico oco, grandes palavras e expressões para nada dizerem. Que usam de verborreia, chavões, metáforas, redundâncias e frases longas apenas para encher o olho aos incautos.

Estes políticos que se formam na escola da politiquice exercitam, desde as Associações de Estudantes, desde as reuniões e encontros partidários uma forma de manipular a linguagem, de maneira a maquilhar a injusta realidade, segundo as suas conveniências. Escudam-se em sumptuosas expressões como “defender uma conceção ativa das políticas de emprego”; “empreender a modernização do mercado de trabalho”; “potenciar relações”; “flexibilizar”, para dizer o quê?… O que significa isto? Alguém me consegue concretizar? Serão estas, inverdades ou mesmo mentiras?

Constroem-se circunlóquios, rodeios, perífrases, para evitar o nome real das coisas. Para evitar a objetividade. Para enganar e dar a falsa ilusão de que o autor de tal verborreia é um génio da palavra e do argumento… Quando o que acontece, efetivamente, é uma demonstração do mais completo desprezo e menosprezo por quem ouve, pelo público, enfim, pelo povo.

Este palavroso palavreado sonante enche a boca dos políticos e esvazia os ouvidos e a alma de quem lhes paga!

A estes vaidosos, voláteis, vendedores de vazios…

…Que os leve o vvvento…

 

Licenciatura em Estudos Portugueses pela FLUL (1996) Pós Graduação em Museologia pela FLUP (2008) Mestrado em Ensino do Espanhol pela UBI (2011)

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