UTOPIAS SOCIAIS

por José Carreira | 2016.09.13 - 08:43

 

 

Se, como diz o poeta, “o sonho comanda a vida”, a utopia poder-lhe-á dar um sentido.

Harald Welzer formula uma questão interessante: “Não deveríamos sonhar com utopias sociais, resistindo ao inferno consumista e infantilizado do presente?” (Süddeutche Zeitung)

Numa civilização ideal não haveria fome nem desigualdade, duas utopias sociais que deveriam funcionar como GPS da humanidade.

Dois livros publicados recentemente no nosso país abordam com rigor as questões da fome e da desigualdade. Refiro-me aos livros de Martin Caparrós – A FOME – e de Anthony B. Atkinson – Desigualdade: o que fazer?

Caparrós questiona se o que nos resta, quanto aos milhões de pessoas que passam fome nas mais diversas geografias do mundo, é o silêncio. Não, o silêncio não pode eternizar-se.

“Mesmo que não digam nada que não sabemos, já todos sabemos que há fome no mundo. Todos sabemos que há oitocentos ou novecentos milhões de seres humanos – os cálculos oscilam – que passam fome todos os dias. Todos lemos ou ouvimos essas estimativas e não sabemos ou não queremos fazer nada com elas. Se houve tempo em que o testemunho, o relato mais cru possível, serviu, hoje, já não serve.”

Atkinson refere o Global Attitudes Project, do Pew Research Center, que, em 2014, ao perguntar qual será o “maior risco para o mundo”, deixou claro que tanto nos Estados Unidos da América como na Europa, a preocupação quanto à desigualdade ultrapassou todos os restantes riscos enunciados. O autor, indo beber às lições de história e adoptando uma perspectiva nova da economia, ancorada num olhar distributivo e num espírito optimista, aponta algumas pistas a considerar.

Reconhecendo que desde 1980 assistimos a uma “viragem da desigualdade”, refere que o século XXI traz desafios em termos de envelhecimento da população, alterações climáticas e desequilíbrios globais.

Num tempo em que a evolução da tecnologia parece ser a panaceia para todos as dificuldades – robôs concebidos para maximizar o prazer sexual; carros que andam sozinhos; teletransporte; produção de carne in vitro; alimentos geneticamente modificados; cidades flutuantes; apoio robótico nos cuidados de geriatria; inteligência artificial – a fome e a desigualdade continuam sem antídotos, perdurando e engrossando os contingentes das migrações.