Usurpar

por Rui Coutinho | 2013.12.04 - 19:12

Portugal é dos países onde se regista um dos índices de furtos mais baixos no retalho mundial. As perdas desconhecidas (roubo) no sector representam 1.4% do total das vendas mundiais, que em 2012 atingiram os 88.800 milhões de euros.

Em Portugal, os 48 milhões euros em perdas representam 1.2% do valor global das transacções.

Os clientes são responsáveis pela subtracção da maioria dos artigos (51%). O furto promovido pelos funcionários desonestos supera os 30% e 5% são possíveis de afectar a fornecedores, desconhecendo-se os restantes.

De 2007 a 2012, as vendas no retalho nacional aumentaram apenas 0.1% (10. 200 milhões de euros). No sector não alimentar a contracção foi de -2%, tendo-se registo em simultâneo um decréscimo de -2.9% nos estabelecimentos abertos.

No sector alimentar, o furto incide na carne e peixe fresco (!!) e nas bebidas alcoólicas. Na componente tecnológica, os smartphones e os tablets são as vítimas. Na moda, a roupa interior, os óculos de sol e joalharia parecem ser os preferidos.

Os comerciantes procuram lidar da melhor maneira com este fenómeno, assumindo que faz parte do negócio a afectação destas perdas. Este comportamento repercute-se, no entanto, no preço final dos produtos que anualmente atinge os 150 € por família.

Atento a esta situação, o retalho procura desenvolver e implementar sistemas de controlo e vigilância mais eficazes, apostando na contratação e afectação de recursos humanos criteriosamente seleccionados, deixando cair por terra o outsorcing (contratação de serviços externos) para combater as perdas de 30% vinculadas aos colaboradores.

A ser assim, parece fácil de entender que a aposta nos recursos humanos, na sua valorização pessoal e salarial são valores inestimáveis que cada uma das organizações deve procurar estimar e incentivar. O recurso a sistemas de carácter momentâneo e temporário, e que estão agora tão em voga, em muitos dos casos apenas e só para a diminuição dos custos, não só não foram capazes de resolver a situação como provavelmente apenas redundaram num acréscimo.

Por esta altura, a questão que muitos colocam é saber quem anda a extorquir o quê e a quem. Exemplos não faltam por aí, com factura, sem factura, com taxas, sem taxas, em pequenos ou enormes negócios, resumindo, à la carte. O modus operandi é certamente diferente em cada um dos casos. Alguns estão sujeitos à moldura penal vigente, apenas e só porque se queriam deliciar com uns chocolates ou umas pizzas, outros passam ao lado de tudo, incólumes.

Rapinar e sem ser apanhado ou notado parece ser, nos dias de hoje, uma arte apenas ao alcance de alguns.

Técnico Superior a exercer funções na Escola Superior Agraria de Viseu (ESAV) com ligações a projectos agrícolas e agro-alimentares é Bacharel em Engenharia Agro-Alimentar pela ESAV, Licenciado em Enologia pela Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) Mestre em Biotecnologia e Qualidade Alimentar pela UTAD e com o Curso de Doctorado em Bromatologia e Nutrição pela Universidade de Salamanca.

Pub