Uma nova economia

por Rui Coutinho | 2014.11.06 - 10:45

 

A bio-reutilização

 

Alimentar a crescente população humana e produzir alimentos de uma forma mais sustentada até 2050 é nos dias de hoje uma matéria alvo de vários debates e estudos.

Tendo por base esta preocupação, a UE tem vindo a investir aproximadamente 4 mil milhões de euros na investigação e inovação alimentar. Procuram-se, por esta via, soluções para optimizar o reaproveitamento de matérias-primas e alimentos bio-renováveis e/ou bio-reutilizáveis a incorporar de novo na cadeia alimentar.

A UE é actualmente responsável por 18% das exportações mundiais de alimentos (76 mil milhões de euros). No entanto, o impacto económico resultante, apenas e só, em resíduos alimentares situa-se entre os incríveis 55 e os 90 euros/tonelada de alimentos produzidos.

A este custo poderemos ainda juntar outros factores que se desperdiçam de modo permanente e cada vez mais escassos, tais como: os recursos hídricos, os energéticos e a mão-de-obra, sempre difícil de encontrar para este efeito.

Em termos mundiais, o desaproveitamento alimentar atinge 1.3 mil milhões de toneladas como resultado em grande medida dos diferentes processamentos a que os alimentos são sujeitos, bem como da sua exigente normalização.

Neste sentido, o que actualmente se preconiza é o reaproveitamento das matérias-primas desperdiçadas e possíveis de incorporar ou reincorporar na alimentação animal, com especial ênfase nas rações destinadas a animais de capoeira e suínos.

O projecto europeu NOSHAM tem por fim esse propósito, o da integração de desperdícios de fruta e hortícolas (os de maior volume) em rações, a par dos subprodutos lácteos. Tratar-se-á de uma ideia inovadora e sustentável? Por certo, e forçosamente, terá de o ser também na componente económica. No entanto, se recuarmos algumas décadas, talvez este reavivado reaproveitamento constituísse já uma prática muito recorrente. A grande maioria dos agricultores criava o porco, que era o sustento familiar de carne durante todo o ano. De que se alimentava? Em grande parte da chamada “água de lavagem” que não era mais do que os desperdícios alimentares (fruta, hortícolas) e muitos dos alimentos não conformes que agora vão parar obrigatoriamente aos aterros sanitários.

A ser assim, é fácil de constatar que os agora designados bio-resíduos têm um impacto ambiental elevado e, no caso de virem a ser incorporados numa escala mais abrangente, o estudo das suas propriedades funcionais (conteúdo em fibras, hidratos de carbono e compostos antioxidantes) estão na ordem do dia.

Importa referir que este novo conceito de bio-economia, em termos europeus, representa 2 biliões de euros e consegue abraçar 22 milhões de postos de trabalho, constituindo uma das grandes prioridades do programa Horizonte 2020. Trata-se de um programa financiado pelo quadro 2007-2013, que agrega institutos de investigação, universidades e PME’s do sector alimentar de Espanha, Bélgica, Itália, Alemanha, França, Países Baixos e Turquia.

Por cá, e numa dimensão regional (Viseu), também nós estamos a encetar e a desenvolver esforços no sentido de optimizarmos e aproveitarmos de forma mais sustentada alguma da fruta que agora tem como fim o refugo (paga a 8 cêntimos/kg), transformando-a num novo produto regional, que futuramente o daremos a conhecer.

Em Portugal, segundo os dados do INE (2013), é possível afirmar que ¼ da população nacional se encontra privada de recursos para fazer face às suas necessidades diárias. Verifica-se ainda que o crescimento económico tende eventualmente a estagnar e as exportações muito apoiadas no sector agro-alimentar, que embora registem uma boa taxa de sucesso, dificilmente manterão um continuado crescimento.

Parece, deste modo, evidente o peso e impacto que a bio-economia e a bio-reutilização terão a nível europeu e nacional e provavelmente estes conceitos constituirão uma das novas métricas a adoptar aquando das futuras discussões sobre o crescimento sustentado que todos nós defendemos e que nem sempre é possível de concretizar.

 

 

 

 

 

 

 

Técnico Superior a exercer funções na Escola Superior Agraria de Viseu (ESAV) com ligações a projectos agrícolas e agro-alimentares é Bacharel em Engenharia Agro-Alimentar pela ESAV, Licenciado em Enologia pela Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) Mestre em Biotecnologia e Qualidade Alimentar pela UTAD e com o Curso de Doctorado em Bromatologia e Nutrição pela Universidade de Salamanca.

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